CANTO DO BACURI > Mari Satake: O aniversário do porteiro

canto-do-bacuri-makiMadrugada fria. Quase todos dormem. Ele, solitário, permanece atento em seu posto de observação. Tantos anos ali naquela guarita. De longe, reconhece cada uma das figuras habituais que por ali transitam. Sabe identificar se são moradores próximos, simples transeuntes ou se trabalham em algum estabelecimento da região.

Naquela noite, aparentemente, tudo estava tranquilo. Tudo parecia dentro da mais absoluta normalidade. Apenas ele é que não se sentia bem. Não era indisposição física ou orgânica, com seu corpo estava tudo bem. Era algo que não conseguia nem nomear e lembrou-se.

Já tinha tido essa sensação há muitos anos atrás, quando seus pais ainda eram vivos e ele era apenas um menino. Falava com a mãe sobre aquela sensação e ela o abraçava dizendo para ele que tudo passaria, ele só precisava continuar sendo o bom menino que era. Assim, nada de mal haveria de acontecer com ele. Não demorou muito e um dia, logo cedo, foram acordados com a notícia do acidente de carro. Não houve salvação para nenhum dos ocupantes. O tio, a tia e os avós viajavam para cá. Dentro de alguns dias aconteceria a festa de seu aniversário. Não houve festa. E o menino associou aquela estranha sensação com a tragédia que os cercou. Achou que se não fosse a sua festa, nada daquilo teria acontecido. Ficou tão transtornado com o acontecimento que os pais decidiram encaminhá-lo para um tratamento psicológico. Aos poucos, o menino foi retomando a sua rotina. Filho único de pais imigrantes, o menino cresceu cercado de todas as atenções que os pais podiam lhe dar. Teve condições de frequentar boas escolas de primeiro e segundo grau até ingressar numa universidade pública. Aparentemente, tudo parecia correr bem. Quando estava no segundo ano da faculdade, faleceu o pai. Meses depois, a mãe. Desesperado, perdeu o rumo. Não conseguiu retomar os estudos, envolveu-se com pessoas mal intencionadas, perdeu boa parte do dinheiro que os pais haviam lhe deixado e eis que aquela sensação dos seus quase dez anos de idade, o assaltou novamente. Até chegar onde está agora, passou por grandes mal bocados na vida.

Fechado na guarita que o protege, olhando a rua deserta, está atento a tudo. A lembrança da antiga sensação o fez rever a tudo e a todos. Como num filme que se assiste na tela da TV, foi se revendo e se recompondo. Olha para o relógio que a todo instante alardeia a sua presença. São quase cinco horas da manhã, a rua já se agita, os primeiros grupos de pessoas já caminham pela rua, a rua vai ganhando a agitação habitual. Sente seu coração, sua alma mais leve. O movimento volta a agitar o estabelecimento que guarda. Recebe o entregador de pão e leite, logo mais chegarão os empregados do primeiro turno e ele entregará seu posto para o empregado do dia. Feliz com a boa noite de trabalho que teve, antes de voltar para sua casa, faz suas reverências e preces de agradecimento. Lembra-se de seus antepassados. Lembra-se que amanhã é seu aniversário. Fará quarenta anos de idade e como nunca mais fez em sua vida, desta vez, decide que fará uma grande festa de confraternização para as pessoas que estiverem no estabelecimento no horário do almoço de amanhã. Ele tem pouco tempo para agir, mas sabe, sente que tudo dará certo. Conversa com seus colegas de trabalho, ganha o apoio e adesão de todos. O administrador não apenas concorda, mas também se junta a ele para que juntos providenciem os preparativos para a grande festa que ele tanto deseja oferecer.

Ao guardião noturno do estabelecimento, votos de uma feliz e longa vida!

 

MARI SATAKE

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