CANTO DO BACURI > Mari Satake: O nome próprio

 

 

 

Dias atrás fui assistir a um debate. A proposta era que cada um dos três debatedores convidados falasse sobre o seu próprio nome. Começou a falar o mais jovem deles. Por uns vinte a vinte e cinco minutos fez um belo passeio em torno de seu nome, suas histórias, sonhos e esperanças. Sonhos e esperanças herdadas de seus pais. Em seguida falou a mulher. Singela, contou-nos um pequeno pedacinho de sua história e de seus pais. Depois, falou o outro homem da mesa. Surpreso, pelas falas sinceras de seus antecessores, também ele falou um pouco de seu nome. Sua fala veio de improviso e dava a impressão que ele nunca havia pensado sobre o assunto ou talvez, não gostasse de falar sobre si. E lá pelas tantas de sua fala desencontrada ele diz que havia pensado em falar naquela noite sobre os nomes feios. Ninguém na plateia lhe perguntou que nomes feios seriam ou se perguntou não tenho registro. Por que teria ele pensado em falar sobre os nomes feios, se a proposta para o debate era falar sobre o seu próprio nome? Seria o seu próprio nome, um nome feio para ele?

Ele é outro daqueles seres que parecem não caber no nome que lhe deram. Chegou magrinho, mirrado. Faminto que só um gato de rua podia ser. Nos seus primeiros dias junto a sua nova família, ele só comia. E como comia! O veterinário alertou. Não adiantou. Ninguém tinha coragem se deixar seu potinho sem ração. Aos poucos aquele ser assustado e faminto, foi se costumando e se avolumando. Se avolumando. Cada dia um pouco mais. Agora, alguns meses depois, já não come tanto como antes. É um ser peludo. Gordo, muito gordo. Uma bola caminhante. Um gato obeso. Alguém que o viu e assustado com seu porte físico o afagou chamando-o de gato-tartaruga. Ele parece não ter gostado, saiu correndo e se enrolou num canto. Mas quando ele anda, não é que parece mesmo uma tartaruga? Corpo gordo, grande e peludo e cabeça pequena como da maioria dos gatos de sua raça. Este gato obeso é outro que não mia. Quando ele reclama, emite um grunhido pela garganta, igual aqueles grunhidos que quem está rouco e não consegue falar. Ele não pode ver ninguém lendo jornal ou revista. Logo pula no colo e se enfia entre o jornal ou a revista e quem lê. Com a patinha tenta pegar as folhas de papel. Fica ali atrapalhando a leitura. Há um bom jeito de tirá-lo de seu colo. É só fazer uma pequena bolinha de papel-toalha ou guardanapo ou mesmo com um pedacinho de jornal, enrolar bem amassadinho e jogar no chão, mandando-o pegar. Ele sai correndo e por um tempo brinca com a bolinha de papel. Quando a bolinha fica disforme, ele pega com a boca e a traz até você e fica esperando que você refaça a bolinha e jogue novamente. Este gato-tartaruga, até parece que pensa que é um cachorrinho. Miar não mia. Emite grunhidos como se quisesse latir e não consegue. E ainda brinca com bolinhas como se fosse um cachorrinho obediente!

Ela chegou dizendo que o marido estava desempregado. Havia sido criada para ser dona de casa. Nunca havia trabalhado fora porque nunca precisou, agora é que saiu para trabalhar. Ficou sabendo pela moça da limpeza do prédio que eu estava sem ninguém e veio oferecer seus préstimos. Trabalhava alguns andares acima com dona fulana que poderia me dar referências. Parecia ser uma mulher bem educada, de bons modos. Trabalhou dois sábados. Fez o trabalho direitinho. Não tenho muita paciência para cuidar de domésticas em minha casa. Acho que elas deveriam saber o trabalho que há para ser feito apenas de olhar a casa. Mudei o dia. Começou a trabalhar numa terça-feira. Assim, meus sábados não seriam tomados pela moça da limpeza dentro de casa. Ficou por alguns meses. Com o tempo, comecei a perceber algumas lacunas de limpeza aqui e ali, cá e acolá. Cada vez mais frequentes e presentes. Um dia, dei uma incerta. Voltei pra casa na hora do almoço e cadê a moça? Fiquei quieta e nada disse. Voltei para o trabalho. No final de tarde, chego em casa e aparentemente alguém havia passado por aqui. Semana seguinte, mais uma incerta e novamente nada da moça. No final do dia, outra vez. Alguém havia passado por aqui e feito de conta que havia trabalhado na limpeza. Achei melhor parar por aí antes que a moça fizesse outras limpezas em minha casa. Seu nome? Um nome muito bonito. Um nome que não tem nada a ver com os nomes das domésticas que costumam passar pelas nossas casas.

 


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