CANTO DO BACURI > Mari Satake: O retrato

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Chamada às pressas, correu ao endereço para acompanhar o bloco dos despossuídos. O garoto cismou que neste carnaval ele também sairia fantasiado. Ela não poderia deixá-lo sozinho no meio de tanta gente desconhecida. Vestiu a sua fantasia e seguiu adiante, ainda dava tempo de encontrá-lo para ficar perto dele.

Ficaram ali entre os outros. Foram quatro dias de trégua para o inferno particular que viviam quando estavam a sós. Ali no meio dos pares no bloco, teriam uma trégua. Um vigiaria o outro à distância. Não haveria espaço para discutirem somente os dois. Precisariam acompanhar o movimento do bloco.

No bloco não há espaço para o particular. Estão todos ali para seguirem em frente de acordo com os movimentos do mandamento. Tudo, todos, sempre pela harmonia do bloco. Se algum componente destoar, tentar colocar a sua individualidade em evidência, rapidamente é posto para fora. Sem palavras, desculpas ou perdão, ao infrator só cabe uma regra, a retirada. Na maior parte das vezes, por si mesmo. Caso contrário, algum motivo de força maior se apresentará ao infrator. E então, só lhe caberá afastar-se, buscar seu rumo em outro abrigo.

Horas, dias, noites. Sempre tudo tão igual. As dores no corpo, as dores na alma. Mas no bloco, não há espaço nem tempo para dor de espécie alguma. Um único mandamento, seguir adiante. Acompanhar o fluxo.

Com o passar das horas, as baixas vão naturalmente deixando de acontecer. Anestesiados, os corpos vão ficando. Dor, corpo e alma unidos, peça única. Várias peças únicas, sem rostos nem identidades próprias. Apenas peças do bloco. Quatro longos dias, três curtas noites. Noites para o descanso do corpo. Breve descanso. Horas que se arrastam durante as horas do sol e voam nas horas da lua.

Os acontecimentos se repetem. Entorpecida ela se deixa levar enquanto as horas se arrastam. Minutos, horas, dias e noites.

De repente, o homem dos sinos percorre quebrando o silêncio dos aposentos. Homem? Mulher? Não importa. Seu corpo está coberto com a fantasia preta que o cobre do pescoço aos pés. Uma coisa barulhenta correndo pela escuridão do recinto. Aos que estão deitados sobre o chão duro, é hora de esticar o corpo e correr para a primeira parte do dia.

Como os demais, ela faz os movimentos necessários e cuidadosos para não quebrar seus ossos. Lá de fora, chegam os ruídos da avenida. Ela então, se dá conta. Último dia. É madrugada de carnaval. Logo mais começará a última parte da jornada do bloco que se propôs a acompanhar. O garoto resistiu bem. Apesar de seus temores, ele resistiu bem. Ela também.

Sente-se desperta. Muito desperta. Seu corpo encontra-se fatigado, mas ela sabe que serão mais algumas horas e poderá voltar ao seu mundo, ao inferno particular que resolveu trazer para si quando decidiu que o garoto iria morar com ela. Seu corpo? Este rapidamente se recuperará. Algumas horas de descanso em sua cama macia e estará refeita.

Decidida a enfrentar suas ultimas horas junto ao bloco, ela dá o melhor de si. Antes mesmo da hora derradeira, da hora de tirar a fantasia dos últimos dias, ela se vê sem coragem. Não. Ainda não é hora de se despir desta fantasia. Por enquanto, só lhe resta dobrar e guardá-la. Quem sabe daqui a algum tempo?

Dias depois ela se vê no retrato. Ela e seus queridos componentes quase desconhecidos do bloco. Todos desvestidos da fantasia. Ela se pergunta, até quando precisará da fantasia? E os outros componentes? Cai em si. A ela só cabe pensar na sua. O garoto? Apenas um adereço que precisou para compor a sua fantasia de todos os dias.

 

 

 

MARI SATAKE

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