CANTO DO BACURI > Mari Satake: Pequenos milagres de um dia

Imagine. Final de tarde de um dia que começou dando quase tudo errado. Foi o despertador que você não ouviu. O transformador queimado e a sua casa na quase total escuridão. A empregada que avisa que está no pronto socorro com o filho e não sabe a hora que conseguirá chegar. Se é que conseguirá. O trânsito que não anda. O cliente que não aparece.

Mais tarde, é a amiga que a convocara para um trabalho e ela própria não comparece porque o fim de semana na chácara foi bom demais e, por isso, resolveu prolongar por mais um dia. Que se danem as pessoas que ela requisitou. Você reservou suas horas para aquele trabalho e então, para adiantar o expediente tenta começar o trabalho. Não demora muito e percebe que parte do material necessário não se encontra onde deveria. Você não quer rodar a baiana, respira fundo e chega à conclusão. Não vale a pena se estressar. E decide. Aquele trabalho já não lhe pertence, você tem mais o que fazer.

Dentro de algumas poucas horas começará a sua aula. Sai para almoçar.

Na rua, nenhum restaurante lhe apetece. O cheiro de peixe, misturado com o cheiro das algas e cogumelos embrulham o seu estômago. Pensa no boteco da esquina. Lá também, o cheiro da carne avinagrada na chapa quente enchendo o salão de fumaça lhe enche de náuseas. Não. Hoje não. Aquele boteco só lhe serve para as horas em que você se acha a pura fortaleza pensando que é capaz de tomar todas e mais uma enquanto põe goela abaixo as tranqueiras que encara somente depois de algumas doses de insanidade.

Taciturna, você anda até a praça. Anda mais um pouco e sobe as escadas. Agora, até ali. Antes de entrar no restaurante, você tem que se identificar e deixar o registro da sua contrariedade no arquivo. Mas, lá dentro, tudo parece como antes. As mesmas mesas, cadeiras e bancos. A mesma pia com a ínfima água que sai da torneira.  Os mesmos tipos de pessoas, buscando sabe-se lá o quê. Cardápio zen para quem está prestes a explodir e não sabe. E a comida chega. Mnhan, mnhan, mnhan….trinta, quarenta, cinquenta minutos, sessenta, oitenta, trocentas mastigadas antes de engolir. O arroz na tigela ainda pela metade. Mandíbula cansada. Pensa em desistir de comer. Mas continua a mastigação. Até o fim. Terminada a refeição, na volta, entra no café e para acompanhar pede aquele choux. Só unzinho.

Satisfeita, de pança cheia. Segue a sua programação. Logo mais fará a sua aula e sabe, aquela tromba da manhã irá se desfazer. Aliás, agora até já releva. Você se joga na tarefa proposta. Folhas e mais folhas com a tinta preta dos borrões que você produz. Mais um exercício entre tantos outros. Em busca do caminho. As horas voaram. É tempo de organizar suas coisas e tomar o caminho de volta para casa.

Vê seu rosto no espelho. Feia e descuidada.  Resolve pedir socorro. Sim, há um horário para o final da tarde, comecinho da noite. Amanhã será um novo dia e deve se mostrar apresentável. O profissional que a atenderá, é jovem em fase de ascensão profissional. Sua agenda é sempre lotada. Enquanto você espera, no espelho à sua frente, a imagem de um enorme aquário. No espaço confinado pelas paredes de vidro, a vida segue seu curso. Peixes coloridos vagam pelo espaço, plantas se movem ao sabor das imperceptíveis ondas. Você se lembra de quando era jovem e ouvia sobre as maravilhosas viagens ao fundo do mar. Os amigos mergulhavam e voltavam contando as suas experiências. Mas você sempre preferia o solo firme. Sentada ali na frente do aquário as lembranças vão chegando. Bons tempos aqueles. Por onde andarão aqueles amigos? Chega o profissional. Como a cumprir um ritual ele faz as mesmas perguntas de sempre. Cumpro minha parte com as mesmas respostas de sempre. Trato estabelecido, chamo o assunto que me interessa naquele momento. Falo da beleza do aquário, chamo de quadro vivo. Orgulhoso, seu rosto se ilumina. Sim. Um quadro vivo. Corre até a estante e me traz um grosso volume encadernado. Em breves instantes, fala daquela arte e de seu iniciador. Fala também de si. Já montou muitos daqueles aquários. Agora já não lhe sobra tempo. Enquanto maravilhada folheio as páginas do livro, ele vai me falando dos peixes, das plantas e de um ou outro detalhe daquele quadro específico e do autor. Suas mãos são ágeis, terminado seu trabalho, com a generosidade que lhe é tão peculiar, insiste para que eu traga o livro comigo. Assim, poderei ver com mais calma, ele diz. Não me atrevo. Apenas, peço licença para fotografar a capa. Assim, terei como me lembrar do nome do autor mais tarde.

Takashi Amano. Vale muito a pena conferir.

 

MARI SATAKE

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