CANTO DO BACURI > Mari Satake: Saudades da terra natal

 

É isso mesmo! Tirei férias e fui para a cidade onde nasci. Está certo que fiquei poucos dias, mas foi o suficiente para fazer o que era preciso. Matar a saudade.

Pedrinho me liga e pergunta se estou bem. Estranho a sua pergunta e ele me diz que nunca me ouviu falando em saudades da terra natal e agora, até escrevi sobre a minha saudade de lá. É verdade, fui para lá e ainda fiz uma visita ao cemitério. Aliás, quando decidi ir para a cidade, visitar o cemitério era um dos motivos.

Mas Pedrinho tem um pouco de razão. Nunca fui fanática pela cidade onde nasci. Desde muito nova, achava que um dia moraria em algum outro lugar. E depois, já morando em São Paulo, sempre estranhava um pouco quando colegas da faculdade ficavam ansiosos esperando pelos feriados e férias para voltarem correndo para suas cidades. Não que eu não voltasse. Eu também sempre voltava para o interior, tinha os pais que lá moravam. Sempre era muito bom voltar a casa deles. Mas desde que de lá saí pra continuar os estudos, nunca achei que voltaria para morar.

Hoje já não há nem pai, nem mãe para visitar. Felizmente, há a irmã que lá mora.

É estranho andar pelas ruas da cidade, reconhecer os lugares e as pessoas conhecidas que lá ainda vivem. Estão todos mais envelhecidos. Olho para minha imagem refletida em algum vidro ou espelho, encontro também a de minha irmã. Estamos mais robustas. Também envelhecidas. Experientes. Diz ela. Damos risadas.

Lá também o tempo passa rápido. Apesar de ainda estar de férias, compromissos me aguardam. Trato de fazer logo a mala e volto para cá. Seis longas horas na madrugada fria. Durmo a viagem toda. Nada ouço ou sinto.

Lentamente vou despertando e percebo que o dia amanhece. Já estamos quase chegando. É hora de levantar a poltrona e ficar atenta. É proibido se distrair.

Seis horas da manhã. Os trens do metrô já estão lotados, homens cochilam agarrados em suas pequenas bolsas de viagem que carregam seus lanches e marmitas. Mulheres com a boca e cara pintadas conversam para não dormirem.

Hora de descer. Com a mala pesada, entro na padaria. Hoje não tenho pressa. Hoje comprarei o pão quente para comer enquanto tomo o café que eu mesma farei daqui a pouco.

Amanhecer em São Paulo é assim, não importa se na padaria ou em casa, mas é fundamental o pão quentinho com manteiga derretida e o café super forte bem quente, com ou sem leite, para o dia começar.

 

 

FRANCISCO HANDA

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