CANTO DO BACURI > Mari Satake: Tarde de inverno

Elita é a minha mais nova amiga, conheci numa dessas tardes quentes deste seco mês de julho. Elita caminhava toda ágil na praça aqui perto de casa e eu, distraída, sem perceber a pequena depressão na calçada, quase despenquei calçada abaixo. Sorte que Elita estava bem próxima a mim naquele momento. Ela me amparou e segurando meu braço sugeriu sentarmos ali no banco da praça. Um pouco assustada com a quase queda e surpresa com o modo decidido da desconhecida, resolvi acatar sua sugestão. Sentamos ali e começamos a conversar. Apesar de nunca termos nos visto antes somos quase vizinhas para mais de trinta anos.

Elita é dessas mulheres que não fazem muitos rodeios para falar o que pensa. Também não faz rodeios para mostrar sua curiosidade a respeito de quem acaba de conhecer. E, no entanto, fala e pergunta de uma forma bastante gentil e elegante.

Ficamos ali na praça por um bom tempo. Sentadas, conversando. Elita me disse que seu horário de caminhada é sempre por volta de sete, oito horas da manhã. Naquele dia estava caminhando de tarde porque a cuidadora de seu marido tinha se atrasado e ela não conseguiu sair no horário de costume. Rindo disse que o atraso foi providencial. Assim pudemos nos conhecer e me fez prometer que a visitaria qualquer dia desses.

Naquele dia, voltei para casa com a estranha sensação de que conhecia Elita já há muito tempo.

Não demorou muito e novamente encontrei Elita. Desta vez, conversamos só um pouquinho e na despedida, novamente me fez prometer que a visitaria.

Como ultimamente ando tomando cuidado com as promessas que faço, cuidei de cumprir logo meu trato com Elita. Então, numa dessas tardes livres que tive, bati um bolo e assim que ficou pronto, toquei na campainha da casa de Elita. Confesso que não foi algo fácil de fazer, ir à casa das pessoas é algo que evito ao máximo. E, estranhamente, com a recém conhecida Elita, lá estava eu, e com bolo feito por mim. Vá lá entender estas coisas que fazemos!

Assim que cheguei, Elita fez a maior festa e foi logo me apresentando como a sua mais nova amiga de caminhadas. Naquela tarde, conheci o marido, velhinho e bem debilitado, quase totalmente dependente de cuidados por terceiros. Com os avós também estavam os dois netos pequenos. Aquela foi uma diferente tarde para mim. Diria agradável se, depois do café com bolo e com as crianças já em outro cômodo da enorme casa, Elita não me falasse entre revoltada e decepcionada de sua grande indignação. Seus três filhos andam pressionando-a para que concorde com a venda da casa. Acham que logo, logo o pai morrerá e a mãe, apesar de estar bem de saúde física e mental, já está com oitenta e cinco anos. Os filhos acham que é melhor que os dois fiquem em algum destes abrigos residenciais para idosos. Triste ela perguntava, “ é justo isto?”.

 

 

MARI SATAKE

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