CANTO DO BACURI > MARI SATAKE: Triste março de 2015

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Em tempos atuais, a notícia é velha. Afinal, aconteceu dez dias atrás. Estava eu no alto, bem abrigada pelo silencio que a altura proporciona, quando começamos a perceber barulho vindo de fora. Primeiro eram sons de pancadas. Em seguida, buzinas. Muitas buzinas. Olhei pelas vidraças. Lá embaixo, nas ruas, poucos carros. No restaurante da esquina, tudo parecia normal. Apesar da chuva que insistia em não parar, algumas mesas da calçada ocupadas. Nada de muvuca. Felizmente, muvuca é o que nunca vi ali.

E o barulho cada vez maior. Gritos. Palavrões. Verdadeiro festival de baixarias.

Em segundos, vi de onde vinha o festival de atrocidades. Dos apartamentos e prédios vizinhos. Por ali, zona oeste da cidade, até uns dez, quinze anos atrás não tinha nada daquilo. Eram somente casas e uns poucos prédios baixos, comercio no térreo e moradia para o dono e seus familiares nos andares acima. Apesar de muito próximo de grandes centros comerciais e grandes malhas viárias, ali naquele miolinho, a vida de seus moradores parecia seguir um fluxo próprio, o mesmo de seus antigos ancestrais. Pequenos comerciantes.

Mas, tudo começou a mudar.

Primeiro, foi o Zé da oficina mecânica. Cansado e sem ter para quem passar seu negócio, passou o imóvel adiante. Lá brotaria uma imensa torre. Mas, antes mesmo de pronto o prédio, outros terrenos e casas foram sendo comprados pelas grandes incorporadoras. Em pouco tempo, o outrora pacato pedaço de bairro, foi se transformando no que hoje se vê. Prédios altíssimos, quatro dormitórios ou suítes, três ou quatro vagas e normalmente torres únicas no terreno.

A antiga igreja católica foi poupada. Continua firme e forte com seus fieis que ainda conservam os antigos hábitos religiosos. Frequentam as missas semanais, fazem os sopões de caridade aos necessitados moradores de rua, programam e participam das procissões nos períodos habituais. Os fiéis são quase todos dali do pedaço, moram nas poucas casas ou num dos apartamentos dos novos prédios do pedaço. São comerciantes ou profissionais liberais que não seguiram no comércio dos pais. Felizes e pançudos continuam morando ali no pedaço.

E na noite de 8 de março deste ano, eles, assim como tantos outros que habitam os inúmeros prédios de varandas gourmets dos bairros nas regiões centrais e nobres da cidade, gratuitamente protagonizaram um dos piores espetáculos que já se assistiu por aqui. Promoveram o panelaço dos panças cheias ao som de seus gritos insanos contra a presidente da república. Era dia da mulher. E, ao lado de suas mulheres e filhos fizeram coro com palavras de baixo calão, dirigidos àquela que os representa.

Festival da pouca vergonha. O país não merecia ter este triste fato registrado em sua memória.

Mais triste ainda é ver a grande imprensa daqui incitando a população dos descontentes da pança cheia a saírem às ruas como marionetes, gritando palavras de ordem pedindo pelo retrocesso. E uma semana depois, fortalecidos em suas insanidades, eles foram mesmo! Saíram com suas Tucsons e congêneres que estacionaram nas adjacências da avenida Paulista e em seguida, à pé, se dirigiram à grande marcha. Com os pés inchados e se achando vitoriosos por terem mostrado a cara de suas burrices nos dias seguintes, vi alguns alardeando que pela primeira vez em suas vidas saíram à avenida porque não aguentam mais tanta corrupção. São os mesmos que prestam serviços e não entregam recibos, a não ser que cobrados. Compram DVDs e eletrônicos piratas. Usam bolsas, relógios e uma infinidade de coisas pirateadas. Reclamam que a empregada diarista quer ganhar muito e tentam não registrar a empregada doméstica. São estes e outros equivocados que foram às ruas no domingo, dia 15.

Triste seres de pança grande incapazes de sair de seu pequeno mundo da fantasia. Acordai!

 

 

MARI SATAKE

MARI SATAKE

marisatake@yahoo.com.br
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