CANTO DO BACURI > Mari Satake: Tudo vai ser diferente. O bom é ser feliz e mais naada!

 

É. Está certo o cantor. Não. Eu já não me importo. Pode dizer que é brega, antiga e outras mais. Também nem sei como ele continua sua canção, também não importa. Importa apenas o trecho “daqui pra frente, tudo vai ser diferente. O bom é ser feliz e mais nada”.

Às vezes, até sabemos que ser feliz é que importa e, no entanto, insistimos em percorrer por caminhos que, desde o início, sabemos que não nos conduzirão a felicidade nenhuma. Ficamos ali apenas porque é mais cômodo, dá menos trabalho, nos acena um ilusório ganho monetário, um suposto lugar na fantasia do outro. Ali nunca temos tempo para fazer coisas que realmente nos importam. Entretanto, tempo ocioso, horas ocupadas com trabalhos inúteis que nada dizem ou justificam, é o que todos ali mais têm. E muitos passam ali doze, quatorze horas de seus dias. Nesta jornada, já nem lembramos mais que o propósito desta vida é que sejamos pessoas realizadas e felizes.

Doce ilusão, acreditar que aquele caminho ou lugar é ocupado apenas nas horas diurnas. Saindo dali, nas outras horas restantes, você poderá criar, produzir coisas que lhe façam sentido e tenham utilidade para seus pares.

Não. Nas suas outras horas restantes, já não lhe resta nada a não ser o cansaço no corpo e na mente. Não lhe resta muita alternativa além do banho para levar pelo ralo o ranço da sua pele. Com a pele limpa, volta-lhe um pouco de sensibilidade e você se dá conta que seu corpo pede um bom alimento. Com o corpo banhado, você come feito um condenado à morte. Saciada a fome, o corpo pesa, a cabeça parece uma bomba pulsante. Você se senta em frente ao seu moderníssimo aparelho e pensa que irá se distrair um pouco antes de se ocupar de algum traba lho mais nobre. Você até pensa que irá ler algum daqueles bons livros que comprou ou então irá assistir àquele filme, ou aquele concerto que tanto desejou e não pode ir ver. Você fica pensando com o corpo aboletado no sofá e acaba cochilando. Em estado trôpego, trançando as pernas, se arrasta até sua cama e não dorme.

Desmaia. Sonhar? Há muitos anos não ousa se lembrar de seus sonhos. Eles piorariam o seu estado. É melhor não lembrar. Desmaia até que o estridente som do alarme te chame para mais um dia de fingir que vive.

Ser esperançoso que é, com o corpo descansado e limpo, você se esmera para se mostrar bem embalada. Veste suas melhores roupas e calçados e sai com o seu moderno carro. Você se matou a vida toda de tanto estudar e, no entanto, agora mesmo sendo profissional de primeira linha, você tem que cumprir horário para chegar e sair sabe-se lá quando. Tudo para assegurar o sistema que entope de dinheiro os donos dos contratos. Para você, resta a paga mensal dividida em duas parcelas. Assim, vai fazendo que vive bem, dias após dias, anos após anos.

Como saldo após longos anos, se você conseguiu cuidar um pouco de seu corpo/mente e ainda lhe restar um traço de sua antiga humanidade, um dia você acordará e se dará conta que o tempo urge. Seus cabelos estão ficando cada vez mais brancos, se esperanças de realização ainda lhe restam, é preciso correr antes que ela se perca para longe, muito longe, tão longe que parecerá apenas um ponto distante no universo. Inatingível. Antes que isto aconteça, você corre para cobrir o prejuízo. Liberta das amarras, você sabe que há muito a ser feito. Arregaça as mangas e com a alma ainda chamuscada, começa a colocar no papel seus antigos planos, antes apenas idealizações para um futuro quem sabe talvez. Futuro que agora se faz presente. Com os pés no chão, sabe que a reconquista de si vem passo a passo. Um de cada vez. Firmes e seguros. Sem fingimentos ou ilusões. Você só tem uma certeza, daqui pra frente tudo será diferente.

 


Mari Satake escreve semana sim, semana não neste espaço (marisatake@yahoo.com.br)

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