CANTO DO BACURI > Mari Satake: Um homem perdido

Há anos, Meiko mora só naquele enorme casarão. Durante o dia, tem a companhia de Maria, a sua fiel faz quase tudo do lar, já há muitos anos.

Dias atrás, por um descuido com o portão de entrada, Maria percebeu que havia alguém andando no jardim da casa. Corajosa, mas também, imprudente, Maria foi sozinha verificar do que se tratava. Viu um pequeno homem de traços nipônicos andando com passos incertos, vagarosos. Este, ao vê-la, imediatamente parou. Maria se aproximou, falou com o homem e ele, paralisado nada respondia. Ela logo percebeu que era alguém que devia estar perdido, totalmente perdido. Como se falasse com uma criança, perguntou se ele tinha fome, fez gestos, chamou-o para se sentar-se à mesa do jardim. O homem se aproximou, sentou, mas nada dizia.  Da mesma forma como costuma fazer com as crianças da família, Maria ordenou ao homem que ficasse ali sentadinho enquanto ia providenciar coisas para ele comer. Assim como as crianças que costumam obedecê-la em suas mínimas ordens, o homem ficou ali, quietinho.

Dentro de casa, Meiko não fazia a mínima ideia do que acontecia lá fora. Ao ouvir o relato de Maria, imediatamente foi verificar quem era o homem ali abrigado. Não. Ela não o reconhecia. Concordava que era um tipo nipônico bem comum, na casa dos setenta talvez, oitenta anos, mas ela não se recordava de nenhum dos antigos conhecidos. Assim como aconteceu com Maria, também com Meiko, ele nada disse. Gentilmente, disse ao homem que esperasse, havia providências a serem tomadas dentro de casa. E logo chegou Maria com água e algumas frutas para ele ir comendo antes do almoço que estava sendo providenciado.

Assustada, diante do que acontecia em sua casa, Meiko sabia das providências imediatas que devia tomar. Em primeiro lugar, era necessário descobrir de onde era aquele homem que estava lá fora. Isso não seria difícil, pensou. Bastaria acionar uns e outros conhecidos e logo as coisas se esclareceriam. Nem precisou. Falou com a sobrinha jornalista que se encarregou de tomar as demais providências até chegarem aos familiares do homem.

Para o homem e seus familiares tudo se resolveu bem. Ele voltou para o seu meio familiar e volta e meia, a família manda notícias para Meiko.

Apesar de tudo ter se resolvido muito bem, Meiko agora sabe que precisa seriamente tomar providências e não está nada fácil. Ela também já está com quase oitenta anos e de acordo com o pensamento comum, precisa se desfazer do casarão e das coisas todas, providenciar um novo jeito de morar e viver, tomar providências para que Maria também fique bem. Afinal de contas, Maria a acompanha desde quando era uma jovem recém-casada e com a filha pequena e depois a vida toda com os outros filhos que foram chegando. Maria também se casou teve seus filhos e hoje assim como ela, Meiko, vive só em sua casa e com os filhos espalhados pelos cantos do país.

Sozinha, Meiko se pergunta, porque aquele homem morando em bairro tão distante do seu e aparentemente, não tendo nenhum laço que o ligue àquela região, por que será que foi parar em seu jardim? Ela apenas sorri e agradecida, pensa nas providências que deve tomar. Esta é a vida. Se há questões a serem resolvidas, resolvamos. Enquanto há tempo.

 

MARI SATAKE

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