CANTO DO BACURI / Mari Satake: Uma mulher cheia de mesuras

canto-do-bacuri-makiSaiu do país naqueles anos em que não estava fácil viver por aqui. Eram os pesados anos 1970. Decidiu fazer o caminho inverso de seus avós. Apesar do diploma universitário, resolveu buscar emprego no Japão, sujeitando-se a postos de trabalho que não exigiam grandes estudos. Lá, fez de tudo um pouco. Talvez, a coisa mais importante, tenha sido casar-se com um nativo. Teve filhos e diz que deu um duro danado para educá-los. Do marido, ou melhor, hoje ex-marido, pouco fala. E o pouco que diz parece não lhe trazer boas recordações. Viveu lá por mais de trinta anos. Tempo suficiente para ver os filhos encaminhados na vida. E também para ela própria, conseguir trabalho melhor que nas linhas produtivas das inúmeras fábricas que se utilizavam da mão-de-obra dos decasséguis. Enquanto casada, aparentemente dispunha de uma condição social um pouco melhor que dos demais brasileiros que lá viviam.

Deixou no Brasil sua enorme família de origem. Os irmãos e irmãs por aqui ficaram. Nenhum deles quis seguir seu caminho. Preferiram trabalhar e constituir suas famílias por aqui mesmo, país onde nasceram, estudaram e viviam seus pais.

De tempos em tempos, ela mandava notícias. Naqueles anos todos em que lá viveu, jamais recebeu a visita de nenhum dos irmãos e nem mesmo dos pais. E ela, naqueles pouco mais de trinta anos, só veio para cá, quando suas crianças já estavam bem grandinhas. Foi a única vez que vieram com a mãe. O marido não as acompanhou.

Tempos depois, com os filhos já tendo conquistado autonomia em suas vidas, ela resolveu se separar do marido e voltar ao Brasil. Chegou aqui nos anos Lula. Sua família de origem ia bem. Os irmãos, alguns bem empregados, outros donos de seu próprio comércio, vivem de forma confortável. Os pais já idosos transferiram seu comércio para um dos filhos e hoje vivem das economias acumuladas nos últimos anos.

Ela, ao voltar para o país decidiu morar com os pais e irmãs que não se casaram. Também arrumou um emprego onde o conhecimento que adquiriu naqueles anos vividos no Japão é de muita valia.

Porém, ali parece haver um grande equivoco. No trabalho, é muito comum vê-la deixando as pessoas falando sozinhas. Em outras ocasiões, tenta impor a sua forma de trabalhar e ao, não ser atendida, fecha-se em si, ignorando o que acontece ao seu redor. O mais impressionante e estarrecedor é que nos últimos tempos, parecendo ignorar a sua própria origem e seu histórico familiar, deu para apoiar a situação vexatória que o país atravessa. Quando a grande mídia fazia campanhas para o início do processo do golpe para tirar do poder a presidente legitimamente eleita para governar o país, ela deu de assumir as mesmas acusações alardeadas pelos grandes veículos de comunicação. Indagada sobre a comprovação das graves acusações que fazia, ela simplesmente, sem argumentos, passava para o ataque pessoal a quem lhe dirigia a indagação.

Mais triste é constatar que este exemplo de insensatez, não é único e nem exclusivo da mulher cheia de mesuras.

 

MARI SATAKE

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