CANTO DO BACURI > Mari Satake: Vai passar

 

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O pai acreditava que um bom jeito de incentivar a leitura dos filhos era tendo jornais em casa. Ele próprio era daqueles que bastava ter letreiro num pedaço qualquer de papel e já estava lendo. Lendo e imaginando. Assim, manteve por muitos anos assinatura de jornais em sua casa.

A filha herdou do pai o gosto pela leitura. Se bem que, façamos justiça, a mãe também, por mais que dissesse não ter muito tempo, sempre reservava algumas horas do dia para a leitura de seu jornal e também de seus romances em japonês. Dizia que era mais fácil compreender a leitura em japonês, gostaria de ter a mesma facilidade com a língua portuguesa. Mas acabava lendo em japonês. A língua portuguesa só lhe servia para as coisas práticas. Quanto custa, quanto pesa, quanto resta e principalmente, para se comunicar com suas amigas e inúmeros conhecidos de origem não japonesa.

Normal que sendo filha destes pais, ela também acabasse desenvolvendo o gosto pela leitura. Assim como o pai, foi assinante de jornais e semanários durante algumas décadas. Em português.

Cansou-se das mentiras. Cansou-se das assinaturas. Cortou tudo. Primeiro, foram as revistas semanais. Por um tempo, ainda, manteve a assinatura de um jornal com a justificativa de que apreciava muito a seção de amenidades, cinema, artes, literatura e etc.

Com o tempo, nem a seção de amenidades conseguiu mantê-la como assinante. Um dia, leu uma imensa bobagem ali, uma afronta. Hoje, ela já nem se lembra que bobagem foi aquela que a fez se dar ao trabalho de tentar falar com o tal ombudsman contratado pelo jornal. Eram aqueles anos iniciais do “vou estar encaminhando”, “vou estar verificando, senhora”. O ombudsman pago para ouvir o leitor, nada! Quase morrendo de raiva, ainda deixou passar. Achava que o vício de ter o jornal cedinho na porta da casa era maior. E continuou pagando a assinatura. Tempos depois, eis que numa bela manhã, foi surpreendida com a máxima de que neste país não houve ditadura e sim uma “ditabranda”. Não houve crença em vício que a mantivesse como assinante.

Depois daquilo, por um bom tempo ela sentia falta do ritual matinal. Abrir a porta, pegar o jornal, separar o tal caderno de amenidades para ver enquanto tomava o café, antes de sair correndo para o trabalho. Passou.

De vez em quando o jornal ainda lhe cai às mãos e cada vez mais ela se assusta com o que vê, com o que lê. Também os noticiários da TV há muitos anos ela deixou de assistir. Quando os vê, sente náuseas. É o pensamento único que impera em todos os meios.

Ela se lembra dos tempos em que era criança e o pai achava que o jornal era a porta de entrada para o mundo das leituras. Ele não estava errado, foi a partir de muitos textos jornalísticos que ela partiu em busca dos autores que não eram citados nas escolas ou nos meios que frequentava. E não eram somente autores de determinadas tendências ou crenças ideológicas. Hoje, ele teria que fazer diferente.

Otimista, ela acredita que vai passar. Esta é apenas uma fase muito ruim que estamos vivendo. Mudanças precisam acontecer, do contrário, tanto os grandes jornais impressos ou televisivos acabarão por si mesmos. Não há pensamento único que consiga dominar por muito tempo.

 

 

MARI SATAKE

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marisatake@yahoo.com.br
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