CANTO DO BACURI > Mari Satake: Viver no campo?

canto-do-bacuri-makiEla pensa que nada mais quer. Diz que está cansada de tudo e de todos.

Às vezes acha que seria melhor, arrumar as malas e mudar de cidade. Cidade?  Não. Melhor mesmo seria, fazer aquilo que sonhava quando era menina ainda e nunca teve coragem de dizer a ninguém.

Ela se lembra. Havia a gravura de uma folhinha que um dia enfeitou a parede da cozinha da casa de sua mãe. Terminado o mês, tirou a parte de baixo da gravura, colou-a numa cartolina maior e com o maior cuidado, fez um quadro com aquela imagem. Durante muito tempo, acalentou o sonho de um dia morar num lugar como aquele.

Era um verde vale. No fundo dele, um pequeno vilarejo colorido.

Sua vida nunca foi no campo, ela sempre foi muito urbana. Aliás, sempre teve consciência que não foi talhada para um ritmo de vida como a do casal de tios que viviam no campo. E, no entanto, sempre que viaja, ao ver casas incrustadas no meio de vales, ela fica pensando que um dia, também poderia viver num lugar daqueles.

Essa não é a primeira vez que ela vê cansada de tudo e com vontade de arrumar as malas. O bichinho da inquietação a ronda.

Poderia ir para qualquer lugar, mas a vida bucólica e tranquila, rodeada de plantas e animais, é que não mesmo. Ela olha ao seu redor e se pergunta. Quando foi que cuidou de alguma planta? O máximo que se lembra, é sua tentativa de buscar o caminho das flores como a mãe fazia. Ela até gosta de se exercitar na prática da arte, mas ultimamente, nem às aulas tem conseguido ir. E animais? Ela até gosta deles. Mas bem longe dela. Até gosta deles por perto, mas desde que eles não façam muito barulho, não sintam fome e nem exalem seus odores fortes por perto.

Decididamente, ela não foi talhada para a vida auto sustentável no verde vale encantado pela natureza.

 

MARI SATAKE

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marisatake@yahoo.com.br
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    One Comment

    1. Mari,
      Descobri hoje seus artigos no Canto do Bakuri e lí vários deles de uma tacada só. Gostei muito, particularmente de “Uma mulher cheia de mesuras” apesar de hoje termos posições políticas opostas, e “Novos Tempos”, quando percebi sua guinada na profissão. Também gostei das pinceladas na cultura japonesa, com uma visão bem brasileira para uma nissei. O último conto que lí (o primeiro no tempo, de 2012) foi o melhor.
      Ótimas estórias (ou seriam histórias) com um jeito gostoso de escrever. Parabéns, ganhou outro leitor.
      Milton

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