CANTO DO BACURI: Uma vida

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Não foi com bons olhos que ela viu aquele casamento. Mas, afinal o que ela tinha a ver com aquilo? Nada. Ela ainda era apenas uma criança. Tratou de ficar quieta, só observando.

A tia tinha ficado viúva há pouco tempo. O tio teve um ataque cardíaco fulminante pegando todos de surpresa. Homem prudente e preocupado que sempre foi, deixou a tia e os primos em situação financeira confortável. Não havia necessidade nenhuma dela se casar novamente, a irmã da tia dizia.

Mas a tia não escutou ninguém que foi contra, quase todos da família.

Os primos também foram contra o casamento da mãe. Não gostaram nada de sair da casa que o pai havia construído para morarem na casa do novo marido da mãe. A mãe para apaziguar os filhos, por eles, abriu mão de tudo que o pai dos meninos tinha lhe deixado. Achava que nada lhe faltaria, afinal também o novo marido vivia de forma confortável.

O novo marido era um homem viúvo, uns dez anos mais velho que a tia. Seus filhos já eram adultos. Não moravam mais na cidade do interior.

Depois que a tia se casou novamente, ela quase não a viu mais. A tia já não frequentava a casa da irmã, com a mesma frequência de antes. Suas aparições passaram a ser muito raras. Raras e rápidas. Ela já não dispunha de tempo como antes. O novo marido nunca a acompanhava nas ocasiões em que as famílias se reuniam. E estas aparições também não duraram muito. O novo marido foi acometido de uma grave doença, ficando na quase total dependência da tia.

A tia, que desde menina fora habituada com empregados para executarem as tarefas mais difíceis de uma casa, depois deste novo casamento teve que se adaptar a uma nova realidade, o novo marido era um sovina. Foi com muito custo que ele aceitou pagar uma diarista semanal. Mesmo depois de acamado, sua sovinice vinha em primeiro lugar. Nunca aceitava os auxiliares de enfermagem que a tia contratava. Ninguém servia para ele. Foi só depois de um período de quase abandono que a tia lhe impôs, que ele passou a aceitar os auxiliares contratados. E é claro que estes auxiliares não ficavam trabalhando ali por muito tempo. Não era nada fácil cuidar daquele ser.

Quanto aos filhos, desde o início, era de se esperar que se mantivessem afastados. Os filhos dele já viviam longe, na época do início da relação deles. Os dela, nunca o aceitaram. Não viveram juntos na mesma casa nem cinco anos e, mesmo naqueles anos, eles passavam a maior parte do tempo na casa da tia, com os primos. Terminada a fase dos estudos básicos, foram para outras cidades para fazer a faculdade que escolheram. Depois de formados, quando ainda solteiros, sempre voltavam para o interior, mas, preferiam se hospedar na casa da tia. Visitavam a mãe, às vezes, levavam-na para jantar fora, mas jamais dormiam na casa onde ela vivia com o enfermo, a forma como passaram a chamar o novo marido da mãe. Já, os filhos dele, quando resolviam ir ao interior para visitar o pai, costumavam chegar agrupados. A filha e o filho com as respectivas famílias. E, ainda, com a desculpa que queriam encontrar os amigos de infância, enchiam a casa de visitas.

Desta forma, a tia viveu com o enfermo por quase trinta anos.

Agora, aos setenta e quatro anos, a tia chega com uma triste novidade. Enquanto escuta a tia, ela revê as cenas da época em que a tia chegou com a novidade do novo casamento e ela não tinha gostado nada. A realidade agora é outra. A tia diz que precisa urgentemente, encontrar um imóvel para alugar e se mudar. Nem bem o marido enfermo faleceu, logo após a missa dos quarenta e nove dias, a enteada lhe telefonou pedindo para desocupar a casa. Com o imóvel desocupado, a venda acontece mais rápido. Simples assim para os filhos do falecido enfermo.

Desta vez, ela não teve impressão nenhuma. E sabe também que não há nada a dizer. Sabe apenas que tudo se ajeitará da melhor forma possível para acomodar a tia.

 

MARI SATAKE

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marisatake@yahoo.com.br
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