CIÊNCIA SEM FRONTEIRAS: Intercambista brasileiro reclama de universidade japonesa

Alfredo (nome ficcitício), de 20 anos, brasileiro intercambista no Japão pelo programa “Ciência sem Fronteiras” e que estaria aprimorando os estudos no Instituto Tecnológico de Shibaura, universidade japonesa localizada em Tóquio, denunciou ao Nikkey Shimbun as “condições insatisfatórias de aula e de tratamento a que estava sendo submetido na instituição de destino”. Segundo o estudante brasileiro, “há poucas aulas ministradas em inglês e mesmo assim, em algumas delas o conteúdo é em japonês na qual somente recebemos um resumo da aula em inglês”, e “também não temos direito de usar o bilhete com desconto para estudantes”.

 

O diretor Chung Yong Jin e o gerente de Cooperação para Assistência e Integração, Tomohiko Akiyama (Foto: Nikkey Shimbun)

O diretor Chung Yong Jin e o gerente de Cooperação para Assistência e Integração, Tomohiko Akiyama (Foto: Nikkey Shimbun)

 

Ao ser questionado pela reportagem do Nikkey Shimbun, o reitor daquela instituição de ensino enviou, por e-mail, uma resposta elaborada com base em pesquisa realizada pelo Departamento Internacional, responsável pelos intercambistas. Além disso, dois representantes do Instituto estiveram no Brasil no último dia 25 para dar explicações complementares e prometeram “tomar medidas fortes”.

Com relação às reclamações sobre a falta de aulas de inglês, o reitor Masato Murakami admitiu, em parte, a culpa argumentando em sua resposta que “o conteúdo das aulas em inglês está sujeito à habilidade linguística dos professores que varia de um para o outro e pode ser que algumas das aulas tenham dado ao estudante a impressão que ele descreveu”. Segundo a matéria, Murakami prometeu “lidar rapidamente com a situação e levar bem a sério o que foi apontado”. “Chamaremos a atenção de todos os professores por via dos chefes de departamento para melhorar o conteúdo das aulas”, garantiu.

O diretor do Departamento Internacional, Chung Yong Jin, que veio ao Brasil para dar explicações, reforçou que “as negociações com as empresas de trem e ônibus para conseguirem utilizar o bilhete de desconto para estudantes a partir de abril estão avançando e acredito que logo tudo estará resolvido”.

O estudante Alfredo também comentou sobre as aulas de japonês: “quando perguntei a outro estudante que está na Universidade de Waseda, descobri que lá o curso é dividido em oito níveis, mas em Shibaura só existem dois níveis. Um muito fácil e outro muito difícil. Não existe o curso intermediário que precisamos”, porém, a universidade de Shibaura afirma que existem três níveis. No entanto, verificando outra universidade particular, a Universidade de Sophia, a reportagem do Nikkey Shimbun constatou que “a mesma oferece nove níveis”.

 

Campus da instiuição em Shibaura (Foto: Nikkey Shimbun)

Campus da instiuição em Shibaura (Foto: Nikkey Shimbun)

Falha de comunicação – O diretor Chung prometeu avanços. “A partir de abril serão abertos a tempo cursos voltados para níveis intermediários. Mais melhorias ainda estão por vir”, afirmou Chung.

Segundo o jornal, por outro lado, também parece ter existido falta de entendimento por parte de Alfredo. Por exemplo, ele reclamou que “só há aulas em dois dias da semana, num total de quatro aulas de duas horas cada”, mas de acordo com a universidade, 24 matérias são oferecidas para cada semestre, os estudantes brasileiros também são encaminhados a laboratórios com temas próximos à sua especialidade, ganhando oportunidades especiais para realizar atividades nesses laboratórios fora dos horários de aula.

Além da possibilidade de que o estudante tenha escolhido apenas quatro matérias por “ter conteúdo já estudado no Brasil”, “falta de interesse no assunto”, ou outro motivo, existe chance de ter havido falha na comunicação sobre todas as aulas que teria direito de frequentar.

Na carta enviada por Murakami, o reitor transmitiu a mensagem que “levando a sério as reclamações recebidas nesta ocasião, pretendemos nos esforçar para realizar melhorias. Além disso, faremos pesquisas de acompanhamento com os estudantes brasileiros que terminaram o intercâmbio em nosso Instituto e reunindo suas opiniões queremos desenvolver um programa ainda melhor para receber os intercambistas brasileiros do ‘Ciência sem Fronteiras’”.

A instituição diz já ter a confirmação da vinda de 23 intercambistas a partir de abril, e a inscrição de um número ainda maior de interessados para setembro. Diz também que dos dez intercambistas recebidos em setembro de 2013, três estão consultando a possibilidade de avançar para os cursos de pós-graduação do Instituto. Ou seja, apesar dos exemplos de reclamação por parte dos estudantes, um número considerável de intercambistas se mostra satisfeitos com a universidade.

 

Carta-resposta enviada pelo reitor Masako Murakami ao Nikkey (Foto: Nikkey Shimbun)

Carta-resposta enviada pelo reitor Masako Murakami ao Nikkey (Foto: Nikkey Shimbun)

 

Privilégios – O Instituto Tecnológico de Shibaura oferece privilégios que não existem em outras faculdades como a previamente citada participação nos laboratórios, além de incluir atividades de integração como a cerimônia de recepção dos intercambistas em abril, realizada em conjunto com a cerimônia de ingresso dos estudantes japoneses, organização de passeios para torcer nas maratonas de corrida inter-universidades, aulas de futebol entre outras. Há também a vantagem de poder utilizar o dormitório internacional para estudantes intercambistas.

Por mais que um intercâmbio esteja sendo coordenado por um mesmo programa, a realidade é que existem diferenças para melhor e para pior no acolhimento dos estudantes dependendo da universidade. Pode ser que haja mais bolsistas insatisfeitos por trás da aparente calmaria.

No site do Órgão de Apoio aos Estudantes do Japão, uma agência governamental independente, os intercambistas recebidos no Japão pelo programa “Ciência sem Fronteiras” totalizam 268 estudantes, contando a partir do início em abril de 2013 até setembro de 2014. O Instituto Tecnológico de Shibaura é responsável por acolher o maior número de brasileiros entre as 16 universidades, num total de 92 estudantes.

Bem mais que a segunda colocada, a Universidade de Tsukuba (39 estudantes), e a terceira, a Universidade de Waseda (30 estudantes). A maioria das universidades que participam do programa é pública, e as únicas universidades particulares são o Instituto Tecnológico de Shibaura, Sophia, e Waseda.

No Instituto de Shibaura, esse número cresceu muito, foram dez estudantes em setembro de 2013, 33 em abril de 2014 e 39 em setembro do mesmo ano. Uma matéria anunciando o recebimento de “o maior número de intercambistas brasileiros no Japão” foi publicada com destaque no site do Instituto, dando ênfase ao avanço da globalização da universidade.

No site do Instituto consta que “por se tratar da maior recepção estrangeira da história do Instituto, visamos melhorar ainda mais o ambiente para que estudantes estrangeiros e japoneses possam aprender juntos”, mostrando o entusiasmo do Instituto em receber estudantes intercambistas enquanto o número de estudantes japoneses vem caindo.

 

Modelo – De acordo com a matéria, o Instituto Tecnológico de Shibaura começou a oferecer aulas em inglês na pós-graduação em 2005, e para a graduação somente após começar a receber os estudantes brasileiros. Por se tratar de uma nova iniciativa e devido ao aumento repentino de intercambistas, esses fatores podem estar causando problemas de falta de preparação dos professores.

Sendo uma universidade tradicional fundada em 1927, o Instituto foi a única universidade particular da área de Exatas selecionada no ano passado pelo Ministério da Educação do Japão para o projeto de “Universidades Super Globais”. Em outras palavras, o Instituto é reconhecido como modelo para adequar o meio acadêmico japonês ao padrão mundial. É desejo de todos que o presente caso possa servir de motivação para que o Instituto se transforme na universidade japonesa mais procurada pelos bolsistas de Exatas.

(Matéria traduzida do Nikkey Shimbun)

 

 

 

 

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