CINEMA: O filme “Tokiori – Dobras do Tempo” estreia nesta sexta nas telas de Cinema de SP

 

Aos cinéfilos de plantão, vem ai mais uma produção brasileira, com jeito genuinamente caipira, a moda nipo-brasileira, o filme “Tokiori – Dobras do Tempo”, do jovem diretor Paulo Dominguez Pastorelo, estreia dia 22 de novembro nas salas do Shopping Frei Caneca. É um filme que mergulha na memória de cinco famílias de imigrantes japoneses que se instalaram no Brasil nos anos de 1930. Foi no bairro rural da Graminha, no Oeste paulista, que os destinos dessas famílias se cruzaram numa história marcada por constantes deslocamentos entre os dois países. São travessias nas quais terra natal e terra estrangeira se confundem e revelam novas identidades mestiças tecidas ao longo de três gerações.

 

Cenas do filme Tokiori (foto: divulgação)

 

Em entrevista exclusiva ao Jornal Nippak, o diretor Paulo Pastorelo conta o que motivou a fazer o documentário Tokiori – Dobras do Tempo. “Tudo começou em 2007, quando voltei da França para renovar meu visto, para fazer o doutorado. Fui para a fazenda em Graminha, na ‘Nostalgia da infância’, em um momento das minhas lembranças no bairro rural de Graminha, pertencente ao pequeno município de Oscar Bressane, é um lugar que conheço desde criança”, recorda. “Meu avô, um imigrante espanhol possuía ali uma fazenda desde os anos 1950 onde passei quase todas as minhas férias escolares na companhia dos meus irmãos. Com frequência eu cruzava com essas famílias de origem japonesa nas festas e quermesses da cidade, misturados aos “não-japoneses” – gaijins do município – de origem italiana, espanhola, portuguesa e “brasileira mestiça” (nordestinos e mineiros, sobretudo). Nesse pequeno mundo rural, eu me percebia como um duplo-gaijin, alguém “não japonês” e ao mesmo tempo habitante da ‘cidade grande’. Lá, sempre fui chamado de ‘neto do seu Pepe’, lembra Pastorelo.

 

Cenas do Filme Tokiori (foto: divulgação)

 

“O documentário retrata a vida de cinco famílias que fundaram a colônia em Graminha, e se mantiveram mesmo com o êxodo rural para o Japão, nos encontros, e também desencontros, de tempos e culturas nesse lugar perdido do Oeste paulista, arrancado à força da floresta virgem no começo da década de 1920. Como lugar de memória dessas famílias de imigrantes japoneses, a história de Graminha é inerente à sua identidade mais profunda. Onde o passado coabita com o presente, e ao mesmo tempo em que elas estão “integradas” à vida cotidiana “brasileira” do município, elas não deixam de delimitar fronteiras móveis, fazendo com que terra natal e terra estrangeira se confundam, como se a Graminha não fosse nem no Brasil nem no Japão, e ambos ao mesmo tempo”, descreve o diretor.

De acordo com Pastorelo, o longa metragem fala de identidades híbridas, e fala de singularidades em constante passagem entre aquilo que é próprio e aquilo que é estrangeiro. “Seguindo o cotidiano dessas famílias, vislumbramos o esboço desse espaço de coexistência das diferenças para além de todo discurso de ‘assimilação e integração’”, relata. “Se para alguns essa rica rede de relações consiste na prova da imigração vitoriosa, que transformou quistos inassimiláveis em “brasileiros” que se tornaram gaijins no Japão, para mim, ela representa apenas essa fina membrana de permeabilidade onde as memórias, as escolhas do cotidiano e as paixões de cada indivíduo são os ingredientes das trocas com o outro”.

O longa metragem levou quatro anos para ser concluído, entre 2007 a 2011, passou pelo fenômeno “as comemorações do Centenário da Imigração Japonesa”, onde o diretor foi confundido como mais um oportunista, querendo levantar dinheiro, se aproveitando das circunstâncias e da ocasião. Mas na verdade, segundo Pastorelo o filme não era comemorativo, não tinha nada a ver com as comemorações, é um filme falando sobre cinco famílias dentro de uma comunidade rural. O documentário não segue um roteiro, as filmagens foram feitas em Graminha, uma vila rural a 500km à Oeste da capital paulista, e em Fukushima, Ibaraki, Yokohama no Japão, os atores são os próprios personagens da história das famílias Yanai, Yoshimi, Funo e Okubo.

Para quem quiser saber mais sobre o filme deverá ir ao cinema que estreia nesta sexta (22), no Shopping Frei Caneca, em São Paulo. Também serão exibidos em Porto Alegre, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Florianópolis simultaneamente. Com direção de Paulo Pastorelo, produção de Matias Mariani, Joana Mariani e Paulo Pastorelo, Produtores Associados Masa Sawada e Yuji Sadai, pesquisa e roteiro de Paulo Pastorelo, Noriko Oda e Kentaro Sugao. Com narração de Noriko Oda e Clayton Mariano, uma montagem de Paulo Pastorelo e Noriko Oda, com distribuição da Lume Filmes.

(Luci Júdice Yizima)

 

 

 

 

Sobre o Diretor

Paulo Pastorelo (foto: Luci Judice Yizima)

Paulo Pastorelo é arquiteto e urbanista formado pela FAU/ USP e mestre em Estudos Cinematográficos e Audiovisuais pela Universidade de Paris 3 – Sorbonne Nouvelle. Começou sua carreira de documentarista com o filme Vale o Homem seus Pertences (52min), desdobramento de sua pesquisa de Iniciação Científica como bolsista da FAPESP entre 2000-2002. Realizado em coprodução com a Sesc TV, o documentário foi ao ar em novembro de 2005. Em 2006 foi pesquisador e diretor, em parceria com João Sodré e Maíra Bühler, do filme Elevado 3.5, projeto selecionado pelo programa DOC-TV III e que ganhou os prêmios de “melhor filme”, do júri, e “revelação”, da embaixada francesa, no 12o Festival Internacional de Cinema Documentário É Tudo Verdade 2007. Foi também assistente de direção e produção executiva do cineasta Rodolfo Nanni no longa-metragem O Retorno, premiado no Festival Cine-PE em 2008 (melhor direção e fotografia). Em 2010 foi contemplado pelo edital “Projeto história dos bairros de São Paulo – 3ª edição” e dirigiu o documentário Paisagens da Memória – Vila Nova Cachoeirinha (26min). Atualmente leciona cinema para os alunos do 5o e 8o anos da Escola Carlitos (São Paulo) no quadro do projeto “Le cinéma, centans de jeunesse” coordenado pela Cinemateca Francesa.

 

 

 

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  1. É possível comprar este filme? Onde?

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