ERIKA TAMURA: Falando nihonguês!

 

Quando os brasileiros chegam aqui no Japão, para trabalhar, têm inúmeras dificuldades. Mas uma delas, com certeza, é o idioma.

E brasileiro sofre… Além do choque cultural, ainda tem o fator comunicação.

Mas aos poucos, com a convivência no dia-a-dia, os brasileiros têm incorporado ao seu vocabulário, palavras japonesas, muito usadas por aqui.

Vou citar um exemplo de uma conversa típica por aqui:
“ Oi… Gomen (desculpa) não ter respondido o seu meru (e-mail), mas é que está isogashi (corrido) pra caramba! Estou fazendo muito zangyo (hora extra), o kyukei (intervalo) no kayshia (fábrica) é curto, não tenho tempo nem de cozinhar, compro bentô (marmita) do combini (loja de conveniência) mesmo, ou como um capu lamen (macarrão instantâneo). Mas shoganay (não tem jeito), né? É a vida, e estou me esforçando pra ir embora logo, qualquer coisa liga no meu keitai (celular)!”

Entenderam?

Os brasileiros daqui já estão acostumados com essa linguagem, por isso se encontrarem alguém que acabara de voltar do Japão, já sabem que a qualquer hora essas palavras sairão da boca deles facilmente!

São palavras que usamos muito aqui e fomos agregando-as ao nosso cotidiano.

A cantora Negra Li, veio para o Japão no mês de junho, para uma temporada de turnês aqui. Pois bem, bastou passar algumas horas comigo que ela já estava falando, sem perceber, daijiobu (tudo bem) , gomen na sai (desculpa) e arigatô gozaimassu (muito obrigada). Fomos para Tókio fazer compras, e chegando lá, a Negra Li trombou em uma senhora e disse “gomen na sai”! A senhora sorriu e disse “daijiobu”, sorrindo pra ela. Paramos pra almoçar e perguntei se ela comia massa. Ela respondeu: “daijiooobuu”. Realmente é uma nova língua criada pelos brasileiros que aqui vivem, o nihonguês!

O Nihonguês pode ser encontrado também, com a junção de duas palavras, uma em português e a outra em japonês, por exemplo, gambatear. Gambatê é uma palavra usada pelos japoneses, que significa,esforçar-se, mas com o intuito de incentivar! Se vamos fazer zangyo (hora extra) os japoneses dizem “gambatê” como uma força de motivação! E os brasileiros, criativos como sempre, inventaram o gambatear. “Estamos gambatendo muito!”, ou então a expressão..”Estou tsukaretada”, onde tsukareta é cansei e juntando com o português cansada, resultou-se em tsukaretada.

Os brasileiros têm o dom de transformar tudo em algo alegre, até mesmo a dificuldade com o idioma é encarada com muito bom humor!

Uma vez minha amiga estava falando ao telefone com a mãe dela que está no Brasil, e esqueceu da hora, quando viu, falou para a mãe: “Nossa mãe…estou atrasada o bassu do sogey passa daqui a pouco!!” e desligou, a mãe coitada, ficou sem entender nada, sogey? Bassu? Bassu é o ônibus e sogey é o transporte até a fábrica.

Não tem jeito, sem perceber falamos o nihonguês.

Estou ensinando minha chefe a falar português, ela aprendeu a palavra sono, então outro dia ela disse que estava com “tyou sono”! Tyou é uma gíra que os jovens usam, parecido com o “mó” brasileiro, tipo “mó sono”!

E assim a gente vai levando a vida aqui no Japão, com muito bom humor, apesar da vida corrida, e a tendência é a globalização, não é mesmo?

Visamos o entrosamento cultural e um intercâmbio de aprendizagem incrível!

Mas o nihonguês é uma variação da língua, e o uso de certas palavras japonesas no vocabulário em português pode enriquecer muito a maneira de um falante se expressar. É o caso de uma série de palavras usadas pela comunidade nikkei desde o Brasil. Nissei, sansei, dekassegui, gaijin e algumas outras palavras de origem japonesa representam, desde que os nipônicos se estabeleceram no Brasil, uma forma de expressar idéias que não teriam correspondentes simples na língua portuguesa. Nesse sentido falar “gaijin” teria, para os nipo-brasileiros, um significado muito mais amplo do que o oferecido pelo correspondente em português, “estrangeiro”. Gaijin, seria, por exemplo, todos os demais brasileiros que não possuem origem japonesa.

O nihonguês facilita bastante a comunicação do funcionário dentro da fábrica. Como muitos brasileiros vêm para o Japão sem experiência na indústria, as técnicas e procedimentos, bem como o nome das máquinas e até mesmo a mera divisão de turnos de trabalho ganham significado apenas quando são falados em japonês.

Numa entrevista de emprego é até um ponto positivo, porque mostra que o candidato incorporou aspectos da cultura local.

 

 


*Erika Tamura nasceu em Araçatuba e há 14 anos reside no Japão, onde trabalha com desenvolvimento de criação. E-mail: erikasumida@hotmail.com

 

 

 

 

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