MEIRY KAMIA: Prejuízos que a raiva traz para o trabalho

Maurício estava com os nervos à flor da pele! Discutira com a esposa logo cedo, chegara atrasado à reunião com a chefia, onde descobriu uma falha no sistema por conta de um erro de sua equipe. “Droga! que mais falta acontecer?” pensou irritado. Olhou no relógio. Estava atrasado novamente. Entrou apressado no carro. Era a primeira visita naquele clien­te. Não poderia chegar atrasado. Calculou rapida­mente o trajeto. Se desse sorte em 20 minutos ele conseguiria chegar. Foi pela pista da esquerda, de repente, um carro entrou na sua frente. Maurício sentiu o sangue subir! “Filho da…!” gritou. “Isso não vai ficar assim!” pensou. Espremeu o volante com os dedos, os músculos da face se fecharam, num impulso, meteu a mão na buzina, acelerou quase colando no carro da frente. O carro da frente foi freando, forçando Maurício a parar o carro. Um homem corpulento saiu do carro da frente em direção a Maurício. A raiva de Maurício aumentou ainda mais “quem ele pensa que é? Tá me enfrentando?” pensou. Num ímpeto, Maurício saiu do carro e os dois se atracaram no meio da rua. Resultado: Maurício perdeu a reunião importante e ainda ganhou alguns hematomas.

Muitas vezes, a raiva nos faz agir de forma impensada, nos levando a desfechos negativos. Num momento de raiva, pessoas podem falar o que não devem, tomar decisões precipitadas, como pedir demissão, por exemplo, e se tornar agressivos, gerando prejuízos a si próprios, para os envolvidos, e para a própria empresa.

Há pouco tempo, tivemos um grande exemplo do tamanho do prejuízo que uma pessoa raivosa pode causar à imagem e à saúde financeira da empresa em que trabalha. A atendente, irritada com a cliente, troca o nome da cliente no cadastro, substituindo por “vadia”. O caso teve repercussão nacional e pode custar uma indenização milionária à empresa.

No nível pessoal, a raiva pode trazer prejuízo à autoimagem, aos relacionamentos, aos processos de tomada de decisão, além de problemas financeiros, físicos (fraturas, hematomas, etc), e de saúde, como pressão alta, problemas cardíacos, entre outros.

A raiva é uma das emoções mais difícil de controlar, segundo a psicóloga Diane Tice. A raiva traz energia, exalta os ânimos, trazendo uma sensação ilusória de poder e invulnerabilidade.

Todas as emoções geram energia que nos põe em movimento. Essa energia pode trazer resultados tanto positivos como negativos. A inteligência emocional coloca que a energia da raiva, quando mal canalizada, potencializa a violência e gera destruição. Ao passo que a mesma energia, quando bem canalizada, potencializa a força e gera grandes realizações.

Mas para controlar a raiva é preciso conhecer seu mecanismo. Segundo o psicólogo Dolf Zillmann, a raiva possui um disparador universal, que é a sensação de perigo. Sensação essa que pode advir de um ataque físico (empurrão, tapa, cotovelada, etc), ou de uma ameaça simbólica à auto-estima ou dignidade.

Ao sentir o ataque, o cérebro primitivo – Sistema Límbico (sede das emoções) – libera catecolamina, o que dá um rápido surto de energia. Ao mesmo tempo, a Amigdala Cortical percorre o ramo hipotálamo-adrenocortical, que gera um efeito mais duradouro que a catecolamina, podendo durar dias, mantendo o cérebro em prontidão, e um efeito cumulativo caso a pessoa sofra algum outro episódio de raiva. Sendo assim, raiva alimenta a raiva, até que a pessoa “explode” por algo nem tão importante, mas é a “gota d´água”. Um nível muito alto de raiva gera o que Dolf Zillmann nomeou como “incapacitação cognitiva”, situação em que a pessoa não consegue raciocinar.

Dar vazão à raiva não é a melhor forma de lidar com ela, e sim interceder racionalmente antes que ela se acumule. Então, aqui vão algumas dicas para que você elimine a raiva antes que ela acabe com você!

1º passo: Perceba a raiva – o mais importante é perceber que está ficando com raiva. Preste atenção se o “gatilho” foi acionado e vá para o segundo passo.

2º passo: Afaste-se do causador da raiva – se a discussão foi com um colega de trabalho, chefia ou subalterno, saia do ambiente por alguns momentos.

3º passo: procure distrair a atenção. Ruminar a raiva só faz aumentar ainda mais a raiva, porque só vamos encontrando ainda mais justificativas para manter a raiva viva. Segundo o estudo da psicóloga Diane Tice, uma boa artimanha é distrair a atenção, pensando em outra coisa. Você pode caminhar, fazer algum exercício físico, ou relaxamento mental, exercício de respiração, também vale ler um livro, etc. Tente fazer coisas que prenda sua atenção para outro foco.

4º passo: procure enxergar as situações por outro ângulo: por exemplo, se estiver no trânsito pense “nem toda fechada é proposital”. No trabalho pense “nem toda crítica tem o objetivo de ferir o seu ego”. No casamento pense “ele(a) fez algo negativo, mas ele(a) também já me fez coisas positivas”. Ou então, pense no prejuízo que a raiva lhe trará caso você dê vazão a ela. O freio da raiva deve ser racional.

Esse quarto passo é fundamental para o controle da raiva e para a canalização desta energia para algo positivo, trazendo para você mesmo grandes realizações e uma qualidade de vida muito melhor!

 


MEIRY KAMIA – Palestrante, Psicóloga, Mestre em Administração de Empresas e Consultora Organizacional. Site: www.meirykamia.com; contato: contato@meirykamia.com

 

 

 

 

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