JORGE NAGAO: Boat Viagem

 

Convidados para a exposição Boat Show, fomos, meu filho e eu, ao Transamérica Expo Center ver os sofisticados barcos cujos preços variavam de 27 mil reais a 12 mihões.

Dirigimo-nos ao estande do empresário Rui que nos convidou. Como ele estava ocupado, fomos admirar aqueles objetos de consumo de ricos e celebridades como Huck e Mano Menezes. Não entramos em nenhuma embarcação, pois a pergunta das lindas recepcionistas “O senhor tem barco?” respondida negativamente já era motivo de uma cara do tipo “então o que você está fazendo aqui?”.

Depois de percorrer todo o espaço da exposição como peixes fora d’água a ver navios, voltamos ao estande do presidente da empresa náutica que nos convidou.

Depois dos cumprimentos formais, conversamos sobre os barcos, ramo de negócios que vem expandindo 40% ao ano. Rui nos explicou detalhadamente sobre a vida útil das embarcações, da satisfação com as vendas, enfim, foi gentil como sempre para com nosotros.

Quando contamos que não havíamos entrado em nenhum daqueles veículos aquáticos, ele nos incentivou: – Vai lá e pede para conhecer. Nós que estávamos determinados a pegar a direção do estacionamento onde 33 reais desembarcariam de nossos bolsos, resolvemos atender a dica do nobre conselheiro.

Escolhemos um imponente estande onde dois altos boats se destacavam. Uma recepcionista nos atendeu e, por medida de segurança, passou o laser em nossos crachás. Depois chamou um vendedor que perguntou ao meu filho:

– Qual modelo vocês estão interessados?

– Aquele, à direita. – respondeu Luís, meio encabulado. Barcos ele tem visto e não tem gostado muito: é o centroavante argentino do Palmeiras que afunda com o time.

– Infelizmente, aquele só pode ser visitado com hora marcada – justificou o homem torcendo para que a gente desistisse da visita.

– Podemos conhecer aquele outro, à esquerda? – insisti.

– Sim – respondeu o sujeito com uma cara nádegas a ver.

Chegamos ao luxuoso barco.

– Podem tirar os calçados, por favor? – solicitou ele.

Descalços, como quem visita um lar japonês, adentramos naquela coisa suntuosa.

– Muito bonito – comentei – Quanto custa?

– Dois milhões e novecentos mil! – informou o impaciente vendedor .

– Só – respondi. E aquele que precisa marcar hora?

– Cinco milhões e novecentos e cinquenta mil – respondeu ele, com cara de “isso não é pro seu bico”.

– Ok, obrigado – agradecemos.

Calçamos os tênis e saímos daquele recinto onde animados milionários aguardavam para visitar aquela caravela moderna de quase seis milhões de reais.

Que mico! Descobri que não tenho cara de rico como certa vez me disse uma caixa da padaria. Mesmo assim saímos rindo da cara daquele vendedor sem jogo de cintura. Fosse eu um milionário enrustido, e existe, creia, deixaria de comprar aquela maravilha pelo tratamento frio que me foi dispensado. Como ensinou o mestre Rui que fez uma venda surpreendente a um senhor que estava vestido modestamente, de havaianas, mas que era/é na verdade um despojado milionário, dono de uma grife famosa.

Na fila para pagar o estacionamento, o cara da frente, meio agitado, puxou conversa e lhe perguntei se havia gostado da exposição.

– Detestei – respondeu ele.

– Por que? Não encontrou o barco dos seus sonhos?

– Não. Pensei que Boat Show fosse show de boates… – explicou ele.

Fiquei com vontade rir, mas novamente me segurei. Ri melhor quem ri por último.

No dia seguinte, uma enxurrada de emails aportaram em my boxmail, oferecendo barcos e lanchas de um, dois, três milhões, só pra me chatear. Presencialmente não somos bem -vindos, mas virtualmente como são atenciosos. É possível ser feliz sem esse luxo?

Por coincidência, naquele mesmo dia, assistindo ao programa Palavras de Paz, Prem Rawat dizia:

“Você é uma gota, mas existe um oceano dentro de você”.

Ah é, então dos mares o menor. Vou pegar o meu barco imaginário e navegar neste silencioso oceano todo meu, de costa a costa, sem gastar um tostão. Neste mar não há perigo, nenhuma tempestade. Vou tirar onda como um Pedro Álvares Cabral do século 21. Fica a dica, caro navegante. Navegue em seu mar interior é só fechar os olhos e embarcar nesta imensidão interior e você se conhecerá melhor. O nome desse barco é meditação.E com este barco é possível ser feliz, sim, afinal nós estamos no barco da vida pra isso mesmo.

 

 

 


*Jorge Nagao é colunista do site Primeiro Programa (www.primeiroprograma.com.br). E-mail: jlcnagao@uol.com.br

 

 

 

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