JORGE NAGAO: Carta Aberta de um Inadimplente

 

São Paulo, 19 de julho de 2012

Banco Surreal,
Ag. Virtual,
Sr. Gerente Geral,

Como estou devendo (mais uma dívida) uma resposta às suas periódicas correspondências, resolvi entrar neste jogo de cartas para ver se saio, vivo ou morto, deste Buraco. Por que o senhor está preocupado com o meu saldo negativo? Isso não é da sua conta. É da minha, infelizmente. Devo, não, nego, pagarei sei lá quando. Se tempo é dinheiro pago com o tempo, contudo não sei do meu prazo de validade.

Estou falido e mal pago a aposta mínima da mega-sena minha última esperança nesta vida. Fora isso, não pago aposta nenhuma. Pago só os meus pecados porque não resta a menor dúvida: resta a maior dívida.

Eis um pequeno histórico do meu dilema econômico do último ano. Quem sabe, ao final da leitura, o senhor me perdoa estas dívidas ou me dê uma grana do seu bolso para que eu possa, finalmente, sair desse mato sem cachorro. Ah, aliás, já estou até latindo pra economizar cachorro.
Julho/2011 – quando surgiram os primeiros rumo­res da crise do euro eu já pressenti que acabaria repercutindo aqui nesta pátria desvairada, Brasil. Mas toquei a vida, incauto como sempre.

Agosto – Não foi agosto, foi a gasto. Presente pro papai, grana pro filho comprar presente pro papai aqui, y otras cositas más. Como tenho um nome a zelar, zerei a poupança.

Setembro – O sindicato reivindicou 15% de reajuste salarial mais isso, aquilo e aquilo outro. Comecei a gastar por conta. O aumento de 6% não deu pra pagar o cartão. Comecei a viajar no vermelho em cima da bola de neve de juros.

Outubro – Fiz uma extra­vagância, fui ao show do Seu Jorge, mas valeu. Na saída, cadê o Gol? Gol contra, um mágico o fez desaparecer. Seguro?

Não o renovei e, por conta disso, envelheci cinco anos nesse mês. Vendi o meu único terreno e comprei um “poisé”. Nessa luta contra as dívidas, comecei a perder terreno, literalmente.

Novembro – Estava sain­do do banco quando fui convidado por um cara a voltar ao caixa eletrônico. Armado, obrigou-me a fazer um empréstimo e levou toda a grana emprestada. Não me pagou até hoje.

Dezembro – O décimo-terceiro sequer cobriu o cheque especial. Pois a minha querida acha que é uma mamãe Noela e deu presente a Deus e ao mundo. Tantos presentes que fiquei passado, sem futuro.

Janeiro – Aquelas férias pra Cancun foram pras cucuias. Ou melhor, para Long Beach (Praia Grande), uma semana, aquela que choveu pra caramba.

Fevereiro – Sem nadica de nada, conheci um simpático agiota que me adiantou R$ 2 mil por dois cheques de R$ 1.300. E seu quiser mais R$ 1 mil? Aí são outros 500. E lá se foram mais dois pré-datados praquele predador.

Março – O agiota, um cara distraído, depositou todos os cheques. Desde, então, o senhor tem me brindado com uma carta semanalmente.

Abril – Meu padrão de vida era despojado como o de um padre baixinho: nada de alto padrão. O único luxo é o kinder das crianças e, pra mim, o Ferrero porque ninguém é de ferro.

Maio – Criei os man­damentos do inadimplente: não beber, não fumar, não passear, não adoecer, não cobiçar a poupança alheia e não chamar a esposa de meu bem, no banco, se não o gerente a confisca.

Junho – Estouraram bombinhas e rojões e, nos bancos, milhares de contas-correntes estouraram também. Comemorando o aniversário da patroa, fomos a um restaurante e sabe o que aconteceu? Um arrastão. Estou sempre na hora certa, no lugar certo mas na hora errada.

Julho – me lembra juros que crescem a cada dia. Despejado, estou me mu­dando pra casa da sogra. O senhor ainda não está com dó de mim?
Receba o abraço (pelo menos isso) deste cliente insolvente, insolente, imper­tinente e inadimplente

Zerado Falidinho da Silva

 

 


*Jorge Nagao é colunista do site Primeiro Programa (www.primeiroprograma.com.br). E-mail: jlcnagao@uol.com.br

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