JORGE NAGAO: Como estou dirigindo?

 

A pergunta está na traseira dos caminhões. Ela, obviamente, não é feita por quem está na direção do veículo mas, sim, pela direção da empresa que convida o viajante a dedurar alguma irregularidade (elogio, jamais!) cometida pelo bravo e solitário caminhoneiro.

Como um bom paranóico, imaginei um questionamento semelhante no rodapé desta coluna “Como estou me dirigindo a vocês?” E topo o desafio. Conheço a opinião de meia-dúzia de três ou quatro leitores que habitualmente fazem algum gentil comentário. Agora quero saber o que pensam vocês 19 ouvintes/leitores que eventualmente visitam esta coluna. Vamos lá, nota 1, 2, 3, 4 ou 5? Conto contigo.

Tenho outra coluna que me dá trabalho: é aquela que fica onde as costas mudam de nome, como diz o poeta Jessier Quirino. Alô, Lombar, de doer você é. Sapassado, ganhei outra Coluninha, uma cachaça produzida em Coluna-MG. Pinga ni mim, uai!. Assim de coluna em coluninha, a gente vai (des)construindo esta vida marvada. Porém, se for dirigir ou escrever, não beba. Motorista e escritor movido a álcool acaba em batida, nem sempre de limão. Aí é um tal de ver poste na contramão, palavras cruzadas, letras embaralhadas, dez dedos em cada mão e por aí não vai. Nesse estado, o texto derrapa e até capota se o colunista não conseguir frear as palavras a tempo. O risco de atropelar a gramática, a regência e a ortografia é iminente. Mesmo não sendo um comunista, o colunista tem que produzir uma coluna que Prestes, ou que fique prestes disso.

O editor do Chico Buarque disse que quando o filho de Sergio Buarque escrevia o Leite Derramado, que recebeu elogios derramados da crítica, o compositor-escritor sentia-se inseguro. Se até o Chico, na construção de seu texto, que é uma roda viva, tem que tirar leite de pedra, o que será do Degas aqui, um irremediável “masoescrita”.

Em condições normais, o motorista do caminhão liga o piloto automático e segue em frente pois ele conhece cada palmo desse chão. Já o colunista não tem escrita automática. Quando ele não está boa frase, o negócio é o seguinte: dois pontos – volta ao ponto morto, a ponto de chorar. Admiro Woody Allen e outros cineastas que escrevem e dirigem muito bem. Conduzir um texto dificilmente é fácil, ou seja, é mais fácil ser dificil, entendeu?

O ministério da saúde a diverte: escrever é uma doença crônica, que faz mal à coluna, perde-se a novela, um romance, até o programa Ensaio, então para encontrar a oração perfeita resenha para São Thomé das Letras, meu caro.

Cada texto é uma viagem cheia de mistérios e emoções. Assim como os caminhoneiros são assaltados na estrada, muitas dúvidas assaltam e roubam o tempo diminuto do escritor. Se a chuva atrapalha o profissional do volante, se chovesse idéias seria uma bênção para quem escreve. Normalmente a jornada é árida, pingando uma metáfora aqui, um insight ali, mas são muitos os contratempos, tantos são os descaminhos.

Quantos sinais vermelhos para esperar, pagar pedágio pra ansiedade, tapear o radar da autocensura, tapar buracos num parágrafo, retornar do beco sem saída e retomar o rumo da prosa em busca de algum atalho salvador. Bom, é melhor parar por aqui antes que o editor comece a buzinar cobrando o texto. E assim vamos, andando na linha, parando na vírgula até descer no ponto final.

 

 


*Jorge Nagao é colunista do site Primeiro Programa (www.primeiroprograma.com.br). E-mail: jlcnagao@uol.com.br

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