JORGE NAGAO: Consciência Negra

 

Minha mãe foi pro Céu no mesmo dia da abolição da escravatura e meu pai, no dia da consciência negra. Estas coincidências, de alguma forma, me ligam aos afrodescendentes. Afora outras ocorrências inusitadas. Por exemplo, já recebi várias correspondências destinadas a Jorge Negão ou Negrão.

Quando vou a algum lugar ou evento, tenho a curiosidade de calcular o percentual de negros, orientais e brancos. Quanto mais elitista, mais clara, literalmente, fica a desigualdade social. E divirto-me quando o Chico César canta “Deve ser legal ser negão no Senegal” porque eu já emendo a paródia “Deve ser jóia ser Nagao em Nagóia”…

Se nisseis sofrem alguma discriminação ou preconceito, sem dúvida, os negros sofrem muito mais. Até quando eles serão discriminados por causa da cor da pele?

A Veja, em junho de 2007, publicou a origem de genes de celebridades. Entre outras surpresas, o cantor Neguinho da Beija-Flor apresenta 67% de genes europeus e 31,5% de africanos. E a ginasta Daiane dos Santos também tem mais genes europeus, 40,8%, e 39,7% africanos. Estudos da UFMG confirmam que 87% dos brasileiros, cerca de 193 milhões de pessoas, tem pelo menos 10% de genes de origem africana e mais alguns por cento de origem ameríndia. Ah, esses arianistas deveriam conferir se são tão brancos como Omo…

Os orientais tomam a Liberdade e reconhecem: que seria do branco do otofu sem o negro do shoyu? E o sushi sem a pele escura da alga marinha? Então, vamos colocar o preto no branco. E viva o alvi-negro!

Pobre seria a música sem a arte dos negros. Não haveria samba, blues e nem rock. A capoeira que encanta o mundo é talento puro dos negros. Com que roupa? Na dúvida, as mulheres, racistas ou não, sempre pegam o pretinho básico para não errar. Mas os Bancos, na hora de contratar, sempre dá um branco. Mas eles que são bancos, que se desentendam…

Fotos em P&B resistem mais ao tempo do que as coloridas. Até o Collor se descoloriu em dois anos. Sub-representados nas Assembléias e Câmaras Municipais e na Federal, os negros estão praticamente excluídos também do

Poder Judiciário- a exceção é o agora presidente do STF, Joaquim Barbosa- e do Executivo. Tudo isso porque eles também não tem o poder aquisitivo, como dizia o contundente Henfil.

Milton Nascimento, Seu Jorge, Tony Garrido, são exemplos de negros bem sucedidos porque tiveram oportunidades. Quantos negros anônimos não teriam a mesma sorte se alguém ou alguma instituição não fizessem o mesmo?

Ouvi ontem no rádio o tributo a Martin Luther King, de Wilson Simonal. Quem já era jovem nos anos 70, vai se lembrar:

“Sim, sou negro de cor, meu irmão de minha cor o que te peço é lutar mais luta, sim, que a luta está no fim, lá, lá, lá, lá…”

Trinta e cinco anos depois a luta não chegou ao fim, mas quem sonha chega lá, lá, lá, lá…

 


*Jorge Nagao é colunista do site Primeiro Programa (www.primeiroprograma.com.br). E-mail: jlcnagao@uol.com.br

 

 

 

 

 

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One Comment

  1. Belo texto. Parabéns!

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