JORGE NAGAO: Corações Sujos

 

Vem aí “Corações Sujos”, o filme, dirigido por Vicente Amorim, baseado na obra homônima de Fernando Morais. Polêmica, a película certamente provocará discussões em nikkeis e brasileiros de todas as gerações. Receio que o filme ignore o contexto, o inferno por que passaram os imigrantes pioneiros na ditadura Vargas. Na segunda guerra mundial, o Brasil ficou com os Aliados contra o Eixo Berlim-Roma-Tóquio.

Como consequência, os imigrantes alemães, italianos e japoneses passaram a sofrer seguidas retaliações. Escolas para crianças japonesas foram fechadas, bandeiras não podiam ser hasteadas, jornais como o Nippak Shimbun saíram de circulação, além de confisco nas contas bancárias entre otras cositas más y péssimas.

Como normalmente os filmes privilegiam as ações mais impactantes, espero que o diretor que importou os mais renomados atores nipônicos, retrate com fidelidade essa guerra de japoneses contra japoneses, no interior de São Paulo.

No primeiro dia de 1946, quatro meses após a rendição nipônica, o imperador Hiroíto fez outro pronunciamento histórico: ao contrário do que os japoneses acreditavam desde tempos imemoriais, ele não era uma divindade, era humano como todos os seus patrícios. Essa declaração era uma das exigências dos Aliados para que ele permanecesse no trono. No Brasil, a voz do imperador foi captada numa casa de Tupã-SP, retransmitida pela rádio Record, com tradução simultânea, conta Fernando Morais em seu imperdível livro.

O gaijin foi à casa do desafeto Shigueo Koketsu que dava uma animada festa e provocou os japoneses dizendo que o imperador não era deus e que o Japão perdera a guerra, versão contestada pela comunidade, pois, em 2600 anos, o país das cerejeiras jamais perdera uma guerra. Ao ver hasteada uma bandeira do Japão, ainda considerado um crime contra a Segurança Nacional, o lavrador denunciou o fato à polícia de Tupã.

Meia dúzia de praças foram ao local para apreender a bandeira. Quando alguém apelou para não tocar na sagrada bandeira, o cabo Edmundo limpou suas botas com aquela seda que não poderia ser tão sordidamente desonrada. Nascia ali a Shindo Renmei, a Liga do Caminho dos Súditos, com o propósito de vingar os traidores da pátria japonesa.

Sete integrantes da organização- que estão na capa do livro- se armaram e foram à caça do cabo Edmundo que milagrosamente conseguiu escapulir. Em seguida, passaram a perseguir os derrotistas, os corações sujos que acreditavam que o Japão haviam perdido a guerra. Esta nova guerra matou oficialmente 23 imigrantes, feriu 150 e durou um ano e um mês.

Para as novas gerações, essa guerra fratricida aparenta ser absurda e incompreensível, porém, para os mais velhos, aqueles que compraram o paraíso e sofreram com aquele inferno, tudo era possível. Se hoje os jovens nikkeis levam uma vida normal, devem isso às sucessivas gerações que passaram por tantas e más (não poucas e boas).

Os decasseguis que fizeram o caminho de volta, revivem o drama do choque da cultura, do clima hostil e do idioma difícil de ser domado, porém têm a opção de voltar ou não, o que foi negado aos nossos tataravós.

O filme, forte e contundente, provocará muitas reflexões sobre a nossa história. Que este longa-metragem contribua para que se intensifique a integração nipo-brasileira, exemplarmente ilustrada pelo boxeador Yamaguchi Falcão, medalha de bronze em Londres, que não é nikkei, uma homenagem do seu pai ao amigo Yamaguchi.

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veja reportagem do Jornal da Gazeta:

 

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*Jorge Nagao é colunista do site Primeiro Programa (www.primeiroprograma.com.br). E-mail: jlcnagao@uol.com.br

 

 

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