JORGE NAGAO: Direito

Era uma vez um rapaz direito que conheceu, na rua Direita, uma moça direita. O olho direito e o esquerdo dele se cruzaram com o esquerdo e o direito dela. Ele se entusiasmou, foi atrás dela e postou-se à sua direita.

 

– E aí, beleza?- ele mal conseguiu falar direito. Ela era realmente uma beleza. Tinha os olhos de ressaca, como os de Capitu. Ele também tinha olhos de ressaca por conta dos chopps do dia anterior quando tomou tudo o que tinha direito. Ela, enigmática, apenas sorriu. Era hora do almoço, então ao moço veio a idéia de convidar a moça para almoçar. Entre uma garfada e outra, seus olhares iam da direita pra esquerda.

 

Analisavam-se para ver se tinha futuro aquele encontro inusitado no lado direito da Rua Direita. Trocaram os telefones e se despediram com um beijo respeitoso, porém emocionado na face. No dia seguinte, almoçaram juntos novamente. Ele roubou o primeiro beijo, implorou pelo segundo, pediu o terceiro e aceitou os demais como um bom conquistador barato.

 

O namoro decolou como um foguete do Hamas com juras de que não se separariam jamais. Formaram-se em Direito, descobriram que ambos eram de Direita e se entenderam direitinhos. Noivaram, casaram, enfim, fizeram tudo direito.

 

Tempos depois, não sei direito quando, talvez na crise dos 3 anos, ele achou-se no direito de ter aventuras com outras moças direitas. Como estava enganando direitinho, ele foi fundo, traindo a torto e a direito. Entretanto, como o mundo não é direito, mas é pequeno, alguém sussurrou no ouvido direito dela que seu marido não estava agindo direito com ela. Decepcionada, ela foi atrás do seu direito de se separar.

 

Arrependido, ele admitiu que não tinha o direito de pular a cerca e jurou, de joelho direito no chão e a mão direita pro alto, que a partir daquele momento comportar-se-ia direito. Impressionada com a mesóclise, ela perdoou-o caindo naquele “comportar-me-ei” direitinho.

 

Como pau que nasce torto não se endireita, na crise dos sete anos, lá foi o cafa, o canalha, em novas e emocionantes aventuras como se tivesse direito adquirido. O que ele não contava é que Deus escreve direito por linhas tortas. Um dia ele não acordou com o pé direito. Nosso herói chegou em casa todo estropiado, com o olho direito roxo.

 

Reagira a um assalto, justificou ele. Na verdade, ao paquerar acintosamente a mulher de um boxeador, foi contemplado com violentos socos de direita no rosto, perdendo dentes à esquerda e à direita. Traumatizado, finalmente, endireitou-se.

 

A partir daí, o casal viveu com toda a felicidade a que tinham direito.

 

A você, leitor, que não está gostando desta história porque simplesmente acha que estou brincando o tempo todo com a palavra direito e afins, eu, cinicamente, lhe DIREI:-TÔ!

 

 

*Jorge Nagao é colunista do site Primeiro Programa (www.primeiroprograma.com.br). E-mail: jlcnagao@uol.com.br

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