JORGE NAGAO: Estraga prazer

 

Cinco minutos antes do início da peça A Falecida, de Nelson Rodrigues, eu tinha a visão perfeita do palco porque as poltronas da frente estavam vagas. O destino, porém, tinha que me pregar uma peça: cinco pessoas chegaram em cima da hora e o mais alto do grupo, com uma cabeleira simétrica do tamanho de uma pizza, se postou à minha frente. Era o Sobrenatural de Almeida, que chegara para me atazanar. Bem que o Silvano me convidou para sentar ao lado dele, mas como tenho trauma por ter sido expulso do assento que não era o meu, recusei com um aceno. Arrependi-me, claro.

De repente, estava diante daquela bola preta cabeluda que cerceava metade da minha visão, como um eclipse inesperado. Lembrei-me do filme Laranja Mecânica, que foi liberado pela Censura, em 1978, com bolinhas pretas nas genitálias dos atores. Em vez de bolinhas, meu desafio era driblar aquela bola enorme que literalmente roubava a cena e dava um strike em minhas retinas cansadas. Às vezes, quase me encostava nos rostos dos vizinhos de banco, que estranhavam aquele movimento pendular intermitente. E certamente atrapalhava também alguém atrás de mim. A peça, dinâmica e com muitos personagens, exigia muito do espectador para entender a vida como ela é, especialmente um trabalho rodrigueano.

Como estou sempre na hora certa no lugar errado, bateu o desespero, mas procurava alternativas. A situação estava complicada, pois não havia no entorno nenhum assento disponível. A inclinação dos assentos do teatro do Sesi não favorece aos assistentes que não sentam na primeira fila.

Sou de estatura mediana e tive problemas para ver a peça, imagina se fosse baixinho como o ACM Neto, ou ACMeio Metro, o novo prefeito eleito de Salvador. “Ah, ele é tão pequenininho que assistiria de pé, em cima do banco, numa boa, sem atrapalhar ninguém”, me contestaria um gozador.

Há pessoas que convivem com o mal “moscas volantes” que são pontos escuros e névoas que aparecem no campo visual decorrentes do humor vítreo liquefeito. Imagino como isso é chato depois de encarar aquela mosca enorme e impassível naquela noite. Enquanto a plateia se divertia eu travava uma batalha sem fim com aquele cabeção descomunal.

Se você me perguntar se entendi a peça, balançarei a cabeça como fiz o tempo todo durante o espetáculo.

Fim da apresentação. Lucélia Santos e sua trupe foram aplaudidas de pé, de pé pude vê-los inteiros. O cabeção já não atrapalhava mais.

Voltando pra casa, o rádio tocou uma antiga canção dos Golden Boys:

– Você viu o Cabeção por aí? Eu, não! Eu, não!

Pois eu vi. E detestei.

 


*Jorge Nagao é colunista do site Primeiro Programa (www.primeiroprograma.com.br). E-mail: jlcnagao@uol.com.br

 

 

 

 

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