JORGE NAGAO: “Milangre” do Peixe (A melhor partida dos 100 anos do Santos FC e, talvez, da história do futebol. Juca Kfouri, da Folha, e JN do JN)

Memória não é o meu forte. Não me pergunte o porquê porque esqueci. Tem uma coisa, porém, gravada na mente e no coração que nem as futuras cervejas que desprazerosa e cinicamente bebeerhei (hei de bebeer)  hão de apagar. Rebobino o é nóis na fita da memória e eis-me na década de 60 para reviver um jogo memorável do glorioso alvinegro praiano, campeão absoluto daqueles anos.

Como bom santista, costumo falar dessa partida a algum jovem interlocutorcedor quando o time dele tem a difícil missão de vencer um jogo decisivo por dois ou mais gols de diferença. O palco era o Maracanã, o espetáculo era  Santos X Milan, e o ano era 1963.

Para chegar à final do mundial interclubes, o SFC teve que defenestrar dois cachorros grandes: o Botafogo de Garrincha (1×1, no Pacaembu, e 4×0, no Maracanã, 3 de Pelé) e o temível Boca Juniors (3×2 no Maracanã,  e 2 x 1, em La Bombonera, gols de Coutinho e Pelé). O Santástico, o show da vila, venceu e convenceu. O que não era novidade, modéstia às favas.

No primeiro prélio ou porfia, como diziam os locutores daquela época, O SFC perdeu para o Milan, na Itália, por 4 x 2. Zebra. Amarildo, que substituiu brilhantemente Pelé na conquista do bimundial do Brasil, no Chile, foi o herói da partida marcando dois gols. Arrogante, provocou os brasileiros dizendo que Pelé já estava ultrapassado. Perdeu uma chance de ficar calado. Menino ainda, eu estava no colégio na hora do jogo mas a minha cabeça estava no Maracanã. Quando saí da escola, corri mais que o Usain Bolt  e fiz os dois km de lá ao lar em poucos minutos. Esbaforido, perguntei ao Mauro, meu irmão, como estava o jogo. Ele me desanimou: -Acabou o primeiro tempo, Milan 2, Peixe, nada. Para me derrubar de vez, sadicamente, o corinthiano me informou que Pelé, Zito, o capitão, e Calvet não estavam jogando.

– Piutaquilamerde!-soltei o palavrão infantil daquela época. “Meu time tem que fazer 4 gols no segundo tempo e não pode tomar mais nenhum!” Otimista ou fanático, mesmo assim eu acreditava no meu time. Quando o locutor anunciou que chovia muito no Maraca, eu pressenti:- Hoje é o dia do Pepe! Ele, o canhão da Vila, fazia gol de falta em quase todos os jogos, naquela noite não seria diferente. Começou  o segundo tempo. Aos 5 minutos, o Pepe, de falta, descontou: Santos 1x Milan 2. Longos minutos depois, aos 9, Mengalvio, de cabeça, empatou.  Aos 19, Lima, o coringa da Vila, fez um golaço e desempatou. E aos 21, Pepe, de novo, como “eu já sabia”, fez o quarto gol. Aí foi só administrar o resultado. Era o “milangre” do peixe. Fui dormir e sonhar com o terceiro jogo que aconteceria dois dias depois. Os milaneses, coitados, se desestabilizaram. A festa programada foi cancelada  assim como o voo vitorioso no dia seguinte, nos conta o craque da escrita Odir Cunha, grande santista, no seu livro “Time dos Sonhos”, da editora Códex, de onde recolhi os fatos abaixo e acima. De volta ao Maracanã, Santos e Milan fariam o terceiro e decisivo jogo. Pelé novamente foi substituído pelo polêmico Almir Pernambuquinho que estava louco para ganhar o fusca que a diretoria do SFC havia prometido a cada jogador se o time vencesse. Ah, pensava ele, vou ganhar o título e o carro, italiano nenhum vai me atrapalhar. O jogo foi equilibrado e violento. Até que, num lance praticamente perdido, quando o becão ia chutar a bola, Almir voou de cabeça na bola. Resultado, o juiz deu pênalti. Depois de dez minutos de acaloradas discussões, Dalmo cobrou e goooooool, do Santos!. O Milan atacou, atacou, mas morreu na praia . Assim, caros amigos, conquistamos o bimundial interclubes.

Hoje, no meio do segundo tempo da vida, me dou conta que o Santos foi fundamental para a minha autoestima na infância e adolescência. Tive a sorte de torcer para o melhor time da história do futebol. Obrigado, técnico Lula, muito obrigado Gilmar, Lima, Zito, Dalmo, Calvet, Mauro e o ataque que era um verso dodecassílabo quase perfeito: Dorval, Mengalvio, Coutinho, Pelé e Pepe. Que vocês inspirem Neymar, Ganso e Allan Kardec, para que haja o milagre da multiplicação de peixes para que a torcida jovem supere, enfim, à dos jovens cinquentinhas.

Futebol e Santos tem tudo a ver. Notáveis craques tinham Santos no nome: Gylmar dos Santos Neves, Djalma Santos, Nilton Santos, Pelé do Santos e outros tantos. Em compensação, tem muitos boleiros medíocres que merecem ser Santos pois não bebem, não fumam e não jogam… O grande Santos continuará brilhando com esses meninos da Vila. O velho Santos, fundado no dia em que o Titanic afundou, é o eterno campeão. Voa, peixe! Santos, 100pre, Santos!

 

*Jorge Nagao é colunista do site Primeiro Programa (www.primeiroprograma.com.br). E-mail: jlcnagao@uol.com.br

 

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