JORGE NAGAO: Moedamaníacos

– Você costuma ter moedas em seu bolso, bolsa ou carteira? – era a pergunta da repórter, no centro da cidade.
A maioria respondeu que não. Por quê? Porque a moeda é pesada, incomoda, fura os bolsos e outras desculpas. Chegando em casa, se recebeu alguma moeda guarda-a no cofrinho, no cinzeiro ou em alguma gaveta. No dia seguinte, o sem-moeda discute com o cobrador sem-troco. Diante do impasse, o passageiro ou dá -dinheiro a mais- ou desce. Portanto, portando moedas você se livra de levar bala. “No tiene troco, que cosa triste, bala de troco, que cosa triste”. Quem aVisa, amigo é.
Guardar moedas é um esporte nacional. Por exemplo, Dona Alvorina, de Campinas, desapareceu com muitas moedas para pagar uma promessa à Nossa Senhora de Aparecida. O Maeda junta moedas, num só ritmo, para assistir à Copa-2014. E Seu Zio, aposentado de Bom Jesus da Serra-BA, sequestrou, durante sete anos, moedas de R$1. Em abril de 2011, foi a uma concessionária e comprou um carro de R$34 mil com aquelas moedas. A volta das moeda$ foi comemorada pelo comércio local. Alguns juntam moedas para fazer uma viagem, outros para dar um presente especial, assim elas vão sumindo, sumindo, e a falta de troco é causa de muitas discussões e desentendimentos. São as faces dessa moeda ausente.
O cartão de débito e crédito, o dinheiro de plástico, resolve boa parte dos problemas. Mas e os sem-cartão? Eles são os mais prejudicados. Um professor da Universidade de Brasília calculou que uma pessoa que ganha salário mínimo que deixa de receber R$0,10 de troco por dia perde, num ano, 7,8% do seu salário mensal.
De quem é a culpa? Da Casa da Moeda? Segundo o Banco Central 50% das moedas estão enfurnadas em casa. O governo não dá conta da demanda mesmo produzindo bilhões de reais em moedas a custos altíssimos: a de 1 centavo custa 10; a de 5, sai por 14; a de 10, por 16 centavos, ou seja, quanto mais se produz maior é o prejuízo. O jeito é fazer com as moedas o mesmo que os PMs falam quando veem alguma aglomeração: Circulando! Circulando! Se as moedas têm a forma circular, então elas têm que circular, não é mesmo? Os bancos são acusados de pedir poucas moedas pois o custo do transporte é alto devido ao peso delas. Imagina o peso de um saco com mil moedas de R$1? No fim das contas, a culpa é de cada um em seu quadrado, que não faz a moeda circular. Todo dia é a mesma moeda, você recebe o vil metal e guarda-o no porquinho e o caixa que não viu o metal que se vire nos 30 centavos.
Pobres pedintes que imploram por uma moedinha, objeto cada vez mais escasso em nosso bolso. Até quando vai essa moda de guardar money, money, money em forma de moneda em casa? Se você age assim, a sua casa é, também, a casa das moedas.
Faltam moedas em todos os municípios do país incluindo Moeda-MG, a 57 km de Belo Horizonte. Moedamaníacos são indivíduos que detestam as cunhadas e o governo, e como as moedas são cunhadas pelo governo então eles desaparecem com elas. Paradoxalmente, moeda corrente significa em circulação porém a coitada fica presa, em casa, mesmo sem corrente.
Há quem guarde notas de dinheiro nas peças íntimas especialmente em sutiãs e cuecas. Quando alguém usa a calça abaixo da cintura e se abaixa, além de mostrar parte da peça íntima, exibe também o “cofrinho”. Se este “cofrinho” portasse moedas, elas sumiriam, sumiri, sumi, su, s, de vez.
A Rede Mais, empresa de tecnologia, inventou o “troco solidário premiado” que tem sido adotado por muitas redes varejistas. Os centavos retidos são destinados à hospitais e Santa Casa (não é uma santa causa?) e você recebe um número com o qual concorre a um sorteio mensal. Se for sorteado, você ganha 10.000 vezes o valor investido (cada R$0,10 rende mil reais) e o caixa que o atendeu recebe 1/10 desse valor, 100 reais é melhor que sem reais…
Se você é um cara ou coroa que é parte desse problema, mude de hobby e de atitude. Facilite o troco, pague com a mesma moeda, faça da sua moeda uma moeda de troco. Dê o troco dando o dinheiro trocado. É capaz de você ganhar um brinde. Se ganhar, comemore e brinde. À moeda, ex-moedamaníaco.

 

*Jorge Nagao é colunista do site Primeiro Programa (www.primeiroprograma.com.br). E-mail: jlcnagao@uol.com.br

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