JORGE NAGAO: O Banho-família

 

Num país parecido com o nosso, o Presidente, empolgado com o sucesso do programa Luz para todos, lançou uma espécie de Banho-Família, o Água para todos.

Em pouco tempo, nunca na história desse país, se tomou tanto banho. O sem-banho, outrora discriminado, era elogiado porque vivia limpinho que era uma beleza. Mas, sempre tem um mas trazendo notícias más, o que era para ser a felicidade geral da nação, virou uma danação. O alto consumo de água causou um apagão aquático. H2Oh!

Criou-se então a Anágua, agência nacional para controlar o consumo do precioso líquido. A água seria democrática ou socialisticamente dividida entre a população. A elite que vivera a farra do assanhamento básico com banho de vinte minutos, teve que cortar 90% do seu consumo. A classe média alta, banho de 15 minutos, foi obrigada a reduzir 80% da sua “águastança”. A classe média média cujo banho durava dez minutos sofreu corte de 70% restando 3 minutos para o seu banho de gato. Eo pobre do pobre teve que contentar com um banho de dois minutos e meio.

Outras medidas severas foram adotadas. Piscina e banheira, nem pensar. Lavar calçada com mangueira dava cadeia. A descarga foi desativada. Era meio balde para o número 1 e um balde para o número 2. Se não a água não ia dar nem pro cheiro…

As loiras respiraram aliviadas quando souberam que a água oxigenada não estava nos planos da Anágua. A aguardente também, mais um motivo para bebemorar até o sol raiar.

A proposta do governo foi a plebiscito. Venceu o Sim, de lavada. A implantação das novas regras de consumo de água demorou mas, como água mole em cabeça dura tanto bate até que jura em cumprir o resultado líquido e incerto.

A SAE, Secretaria de Água e Esgoto, logo virou SMD, Secretaria de Mágoa e Desgosto, diante do volume de queixas da elite e da classe média alta. Mas as lágrimas delas até enchiam uma caixa d’água de 200 litros por dia comprovando que a reclamação não era debalde. De balde, levavam o pranto para suas mansões.

Nos anos 70, o país do ame-o ou deixe-o lançou uma campanha de higienização com o personagem Sujismundo. Naqueles tempos, o presidente de 4 estrelas (Dilma só tem uma!) preferia cheiro de cavalo ao do povo. Mas isso são águas passadas.

Voltando às águas que rolavam pela cabeça, tronco e membros daquele país, os postos de saúde passaram a distribuir sabonetes e outros artigos de higiene e limpeza à população carente. Era o Sujeira Zero, pintou limpeza, expressão criada por Carlito Maia, um cara barra-limpa.

Sabe-se que lavando as mãoes e tomando banho diariamente evita-se muitas doenças. Logo, os postos tinham poucos medicamentos e mais produtos de higiene.

Como “povo desenvolvido é povo limpo”, a auto-estima das pessoas foi lá pra cima. Confiantes, estudavam mais, trabalhavam melhor e ganhavam salários maiores. O país crescia mais de 10% ao ano. A era do desemprego já era.

Ninguém segurava o país que ia sempre em frente.

Aquele estranho idioma do lado debaixo do Equador engoliu a língua inglesa, superou o mandarim e mandou no mundo. A cachaça que era sucesso só “destilado” se derramou pelo planeta inteiro, condenando o uísque ao uisquecimento, como previa o sábio jurista Sobral Pinto.

Enfim, o país da nossa fascinação fez-se nação potência e deu um banho nos gringos graças à água e a Anágua.

Enquanto isto for ficção, fique doente…

 

 

*Jorge Nagao é colunista do site Primeiro Programa (www.primeiroprograma.com.br). E-mail: jlcnagao@uol.com.br

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