JORGE NAGAO: O Doutor dá alegria

 

“O palhaço é uma colherzinha que mexe no desejo da gente.”

(Ana Wuo)

 

No quarto do hospital, o silêncio é profundo. Nina, 6 anos, do leito, olha pela milésima vez o teto branco. No sofá, Sofia, a sonolenta mãe, lê uma revista para passar o tempo. De repente, ouve-se o som de um violão. Os olhos de Nina brilham e ela anuncia:

– Mãe, são eles!

Eles são os DDA, os doutores da alegria. Os besteirologistas que quebram a rotina do hospital, injetam ânimo nos comprimidos corações infantis e dão uma dose de descontração aos sofridos pais.

– Podemos entrar, Nina?, perguntam eles.

Eles são sempre uma dupla de ambos os dois: podem ser o Dr. Davidadúvida e o Dr. Pistolinha (SP), o Dr. Invólucro e a Dra. Shei Lá (RJ) ou o Dr. Sabonete e a Dra. Xuleta (MG) e muitas, muitas outras duplas de um mais um.

-Vêm cá!- diz a pequena Nina, com um sorriso.

“Tire o seu sorriso do caminho que eu quero passar com a minha dor”… estes versos antológicos de Nelson Cavaquinho certamente não se aplicam aos doutores da alegria, que sempre levam e arrancam sorrisos das crianças enfermas, algumas terminais. Depois que se vão, ainda fica em cada canto um pouco do encanto da divertida visita.

– Canta, mãe!- conclama Nina. “O sapo não lava o pé, não lava porque não quer”. E a mãe, claro, adere à cantoria.

Um alerta: já existem doutores-da-alegria-piratas pedindo dinheiro em ônibus e se aproveitando do prestígio dos verdadeiros DDA. Esses aí são doutores que dão alergia, são picaretas, palhaços, no pior sentido da palavra. Já os Doutores Cidadãos, da Ong Canto Cidadão, fazem um belo trabalho semelhante ao dos DDA, levando o riso e a solidariedade a crianças e adultos em hospitais públicos.

– Quem quer um nariz vermelho?- pergunta o doutor-palhaço.

– Eu! Eu! E a mamãe também quer! – aceita Nina, animadamente.

E todo mundo mete o nariz. O doutor que dá alegria também mete o nariz onde é chamado. Ele sabe que o médico cuida do corpo e ele cuida da alma da criança. Este equilíbrio é necessário pois se a tristeza dominar a criança não há médico e remédio que dê jeito.

– Joga a bexiga pro alto, Nina. Aposto que você não consegue acertar a lâmpada do teto- provoca o Dr. Zinho.

– Acerto sim. Lá vai!… Viu?, acertei!- comemora ela.

– Vamos dar uma volta no corredor, Nina?- sugere a Dra. Sirena.

– Vamos!- Era o que eu queria!- festeja ela.

E lá vai ela, na cadeira de rodas, ziguezagueando pelo corredor, acenando para a faxineira e o segurança. Segurança e competência não faltam a esses atores especializados em teatro clown e técnicas circenses que resgatam a alegria desses pingos de gente.

– Nina, precisamos ir embora!- se despede o Dr. Alegria.

-Ah, já?! – se chateia ela.

Criança se chateia no hospital. Afinal criança não rima com dor nem com hospital. Refletindo sobre isso, o ator Michael Christensen se perguntou o que poderia fazer para minorar o sofrimento das crianças hospitalizadas.

Tempos depois formatou a Clown Care Unit, a trupe pioneira nesta magnânima tarefa. O ator Wellington Nogueira que fora à Broadway para ser um ator completo se encantou com a novidade e trouxe para o Brasil a boa idéia em 51, digo 91, quando a alegria invadiu alguns hospitais paulistas.

– Vamos visitar o seu amiguinho Bernardo, aí do lado – informa o Doutor.

– Tá bom. Quando vocês voltam?- pergunta Nina, ansiosa.

– Depois de amanhã! Tá legal?- pergunta o medicômico.

– Tá!- responde ela consciente de que aquele “doutor de mentira” é tão importante pra ela quanto o médico de verdade. É a magia do humor somada à força do amor.

Obrigado, doutor!. Enquanto há riso, há esperança.

 


*Jorge Nagao é colunista do site Primeiro Programa (www.primeiroprograma.com.br). E-mail: jlcnagao@uol.com.br

 

 

 

 

 

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One Comment

  1. Muito interessante o comentrio. Mas meu problema so essas dores. Quando tive uma crise de dores nas costas, o mdico me indicou desse colcho ortopdico. Quem daqui j ouviu falar?

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