JORGE NAGAO: O Julgamento e o Latim

 

Na semana passada, na abertura do julgamento da Ação Penal 470 (Mensalão), o assessor-chefe do plenário do STF, Luiz Shiyoji Tommimatsu, leu o resumo da sessão anterior. Em seguida, o presidente Ayres Britto passou a palavra ao ministro revisor Lewandovski que, antes de analisar os autos, saudou os ilustres visitantes: o professor Masato Ninomiya, da USP, e os professores Yasuo Hasebe e Yukiko Hasebe, da Universidade de Tóquio, que o receberam na Suprema Corte do Japão, onde proferiu uma palestra. Outro nikkei, Luis Gushiken, dias depois, foi absolvido neste julgamento que decidirá o destino de muitos políticos e empresários renomados.

Nessas prolongadas sessões, a linguagem rebuscada do Direito e o abuso do chamado juridiquês, além de expressões em latim, tornam incompreensível, para nós leigos, aquele blá-blá-blá interminááável. Quando convivi com advogados e juízes no Tribunal Regional do Trabalho, na rua da Consolação, no final do milênio, ouvindo diversas expressões latinas, produzi o texto abaixo que foi publicado no boletim Justaposição daquele egrégio tribunal.

O Latim morreu!

Viva o Latim!

Não sou advogado honoris causa mas o meu alter ego me obrigou a fazer um inventário (inventar é o meu modus operandi) de um de cujus cuja causa mortis ignoro mas desconfio que, por saber demais, deu com a língua nos dentes.

Guardem, in memoriam, que esta senhora, mãe do Português/Espanhol/Francês et caetera, era sui generis, o sussumum, digo, o supra summum da sabedoria.

Falando em Português claro, vivo e teen, o Latim era curtus et grossus. O que era dito em Latim, virava lei. Vide processus nos habitats da Justiça em que causídicos abusam das expressões latinas ipsis litteris confundindo a outra parte que, quando descobre o real significado da citação, já perdeu o prazo, ou a causa e, às vezes, o juízo.

Para este humilde scribas, um hetero sapiens (homo, não), data venia, foram os detratores – incapazes de compreender in totum um idioma tão sofisticado – os responsáveis pela exclusão do hors concurs Latim do curriculum escolar que, desde então, passou a ser ridiculum!

Consumatum est, errare humanum est, o tempora! o mores!, que vade retro essa vanguarda do atraso que quando ouve falar em sine qua non se lembra do ex-deputado João Alves, o “cínico anão” do Orçamento;
Fiat Lux, para esses adeptos do panem et circenses, são marcas de carro e sabonete respectivamente;

Norma agendi, pra eles, é a agenda da Norma;

Grosso modo, para esses toscos, é aquele que não tem bons modos;

Porcus tristis, para essas personas non gratas, são os palmeirenses quando eliminados da Copa Libertas quae sera tamem;

E mea culpa, para essas avis raras, trata-se de uma confissão de um ebrius, in delirium tremens, depois de várias doses de Natu Nobilis: mé, a culpa!

Esses assassinos da língua são ateus graças a Deus pois cassaram a missa em Latim. Quando eles dizem que o Latim é uma língua morta cometem um lapsus linguae porque ele está vivíssimo neste novo milenium. Por exemplum, o fax não passa de uma corruptela do antigo fac-símile. Em nosso dia-a-dia, segundo o Vox Populi, o Latim está presente em palavras como bis, a priori, habeas corpus, status quo, pro forma, pari passu, sub judice, jus, pro rata, per capita, idem, déficit, beneplácito, e há de estar per saeculum saeculorum ad infinitum. Amém.

 


*Jorge Nagao é colunista do site Primeiro Programa (www.primeiroprograma.com.br). E-mail: jlcnagao@uol.com.br

 

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