JORGE NAGAO: Palavras, Requiescat In Pace

-Filha, me passa o tamborete? – pediu o pai Alberto.

-Tamborete? O que é isso, pai? – estranhou a menina.

-É isso que está ao seu lado- explicou o pai, meio ressabiado/desconfiado.

– Isso é um banquinho, pai. Tó!- entregou a filha,   preocupada com o estranho linguajar do pai que, ultimamente, dizia palavras estranhas como marmota, laquê, furreca. Será que ele parou no tempo?

Aí “caiu a ficha”, expressão da época em que se falava pelo orelhão usando fichas da Telesp que vinham embrulhadas num papel branco… é melhor parar. Para explicar essas coisas do século passado tem que ser uma Sherazade ou um  storyteller/contador de histórias. É muita informação pra essa geração do tweeter e face que detesta as coisas “nos mínimos detalhes” como exigia a velhinha da Praça da Alegria/A Praça é Nossa. A molecada quer um papo direto/jogo rápido, tá ligado, mano/coroa?

Alberto Villas, jornalista e escritor, começou a anotar: tamborete agora é banquinho. Na calçada, subitamente, vinha outras palavras como assistência que hoje é ambulância/resgate, teco/pedaço, urinol/penico. Ainda existe penico?

Villas percebeu/sacou que quem se expressa com palavras defasadas/antigas dá bandeira/mancada e entrega a idade/é velho. Então, ele parou de dizer frases como “no meu tempo de grupo/escola primária, eu era um espoleta/hiperativo”. “No meu tempo do científico, fiquei de segunda época”,  porque tinha que explicar que o ensino médio, em priscas eras/anos 60, quem queria ser professora fazia o Normal, quem gostava de Letras cursava o Clássico e o maluco que adorava/curtia  Física e Biologia fazia o tal do Científico. Outra alternativa era passar no concurso do Banco do Brasil, que não era bolinho/fácil, aí não precisava estudar mais porque logo ficaria com o boi na sombra/tranquilo. Bons tempos, hein!, porque o BB cresceu e virou um Banco Brasileiro de Descontos/Bradesco como temiam os antigos funcionários. BRADE, antes que vire, alertava o adesivo.

Voltando às ex-palavras, que sumiram do mapa, lembra quando o médico nos pedia uma abreugrafia/raio X? Se você riu, então é um dos nossos. Naquele tempo, sua patota/turma tinha ojeriza/pavor de Física porque não entendia patavina/nada daquilo. Discretamente olhava-se de esguelha/de lado  pra padaria/bumbum daquela oxigenada/loira durante o footing/caminhada na praça. Todos achavam que estavam na crista da onda/na moda mesmo quando estava borocoxô/desanimado porque quando se é broto/jovem tudo é divino e maravilhoso/canção do Caetano Velhoso.

Futebol era irradiado/transmitido pelo rádio ou pelo televizinho, para quem tinha amizade com um vizinho rico. Goleiro era goal-keeper, zagueiro era beque, a famosa linha média era composta pelos alfes/alas direito e esquerdo mais o center half/volante,  e, no ataque, os extremas-direita e esquerda, meias-direita e esquerda e o centre-four/centroavante.

Pobre andava de jardineira/busão e o cara cheio dos cobres/rico andava de carro de praça/taxi e pedia pro chofer/taxista andar chutado/rápido por que ele estava atrasado.

Minha geração, brava gente brasileira, que nasceu nos anos dourados da Bossa Nova, cresceu nos anos rebeldes( “ou ficar a pátria livre ou morrer pelo Brasil”), que ousou militar/verbo  até “raiar a liberdade no horizonte do Brasil” falou e disse (expressão da época) palavras que hoje parecem bizarras/estranhas, coisa de boko-moko/cafona, que se escafederam/desapareceram.  O livro “Língua Morta”, de Alberto Villas, resgata  com uma linguagem coloquial mais de 900 verbetes que ficaram na saudade. A leitura aleatória nos diverte e nos remete aos bons tempos. Assim voltamos a ser jovens pois revivemos aqueles velhos tempos, belos dias.

Quando folhear o livro, duvido que você não  se pergunte: – Caraca, eu dizia isso?!

 

*Jorge Nagao é colunista do site Primeiro Programa (www.primeiroprograma.com.br). E-mail: jlcnagao@uol.com.br

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