JORGE NAGAO: Tempo (JN)

– Bom dia! O senhor é o Zé da Hora? Vim comprar 4.

– Hoje, só tenho 2. São quarenta reais.

– Taqui. Mas não era dez reais a hora?

– Era, mas o anúncio no jornal custa R$ 20, no primeiro dia não ganhei nada.

– Entendi, posso voltar amanhã. Tenho que entregar um relatório na quinta-feira.

– Pode vir. Amanhã, tenho quatro horas pra vender.

– Valeu! Reserva pra mim. Mas me explica o seu negócio. Como foi que começou, Zé?

– Bem, há um ano que eu tô desempregado, o seguro-desemprego acabou, os bicos não davam pra botar comida aqui em casa, então apelei pro Deus.

– Não é pra Deus? Que Deus é esse?

– Chronus, o deus do tempo. Expliquei a minha situação e ele me deu um alvará pra vender até quatro horas por dia.

– Por que 4? Necessitado como está, você não poderia vender 8?

– Até que poderia. Mas ele me explicou que as horas que vender tenho que passá-las dormindo e ninguém consegue dormir 7 horas e depois mais 8. Ah, o senhor tem que usar este tempo, a partir da 1 da tarde porque agora não tenho sono nenhum. Pra dormir vou ter que tomar umas cachaças e encher o bucho.

No dia seguinte.

– Bom dia, Zé! Ontem, deu tudo certo. Com as suas horas, adiantei o meu trabalho. Com as horas de hoje, o relatório vai ficar uma beleza! Taqui os R$ 80 e mais 10 de caixinha. Tchau!

Noutro dia.

– Bom dia, Zé! Este é o Tim, publicitário. Ele está precisando de 4. Você vende?

– Oi, claro!

– Como você adivinhou- diz o novo comprador. Tenho que fazer uma campanha pra Claro, pro domingo que vem. Como sou Vivo, vou deixar 100 reais pra ficar freguês.

– Obrigado, claro Tim, digo, caro Tim.

– Não te falei? Agora, boca-de-siri. Esse Zé da Hora caiu do céu. Lembra quando eu te falava que enquanto a gente vivia no maior stress, havia muita gente desempregada ou aposentada, desperdiçando seu tempo assistindo novela reprisada e a sessão da tarde. Precisamos encontrar mais Zés da Hora. Quantos executivos, médicos ou engenheiros comprariam esse tempo ocioso dessa gente que precisa de uma grana extra. Tempo é dinheiro, meu caro.

Dez dias depois.

– Bom dia, Zé! Este é o meu amigo…

– Acabou!

– Tudo bem, voltamos amanhã.

– Nem amanhã, nem depois de amanhã. Acabou. Tô ferrado.

– Que aconteceu, Zé?

– Outro dia, um autor de novela insistiu tanto que acabei vendendo 2 h a mais que o combinado. E o Deus Chronus não me perdoou. Cassou o meu alvará. Voltei àquela vidinha de antes. Ainda bem.

– Ainda bem, por quê? Você não estava satisfeito?

– Tava e num tava. Minha mulher só reclamava, dizia que eu era um vagabundo que só dormia. E jurou que se eu continuasse naquela vida, ela também iria procurar uma deusa.

– Que deusa, Zé?

– Cornus, a deusa da infidelidade. Graças a Chronus não tenho “cor no” meu atestado.

– Sorte sua, Zé! Inté!

– Desculpe, Dr. Galves. Infelizmente, o senhor vai ter que varar a noite para terminar a sua pesquisa. Você viu como pobre sempre se conforma com tudo?! Eu posso até ter levado chifre por pensar só em mim, mas venci na vida. E você?

– Sei lá, Cornélio! Mas dessa deusa aí, eu quero distância! Como diria o saudoso Vicente Matheus:

– O tempo é intransferí­vel, invendável e imprestá­vel!

 


*Jorge Nagao é colunista do site Primeiro Programa (www.primeiroprograma.com.br). E-mail: jlcnagao@uol.com.br

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