JORGE NAGAO: Zoo Ilógico

 

Larissa Luiza, afiada afilhada de 10 anos, nos levou ao Zoo. Lógico que é um belo passeio pois a criança das novidades não se cansa e nós, adultos, voltamos a ser crianças. Em nossa comunidade, aos 60 anos iniciamos a segunda infância. Caso do meu amigo Sussa Yamaguchi que, recentemente, celebrou o seu Kanreki, e o meu também que voltei à infância no lançamento do livro infantil Vida Simples, texto e traço do genial Orlando Pedroso, que fez um desenho especial pra Larissa.

O pequeno “paraíZoo” nos recepcionou com duas víboras: Cobra para esta­cionar o carro e Cobra o ingresso. Justifica-se, tudo bem. Para ver tantas patas e bicos, alguém tem que pagar o pato e o mico. Há algum tempo, um bando de desumanos assaltou o Zoológico e levou cem mil reais. Isso é que acertar no bicho!

O bicho-homem incapaz de prender os corruptos paca, em compensação trancafia animais inocentes para o lazer do povo. Nada contra o polvo, digo, povo, essa brava gente brasileira que entra pelicano e não desiste nunca porque louva-a-Deus. Esse pobre bode expiatório, manso como um cordeiro, que quando não tem cão caça com gato e ainda ri como uma hiena. Viva o povo brasileiro que camela a semana inteira, que compra gato por lebre, engole sapo no serviço, fica uma arara quando paga o Leão e ainda acredita nesses políticos apocalípticos. Mas esqueçamos os animais políticos e voltemos aos apolíticos bichos. Hoje, zoo com eles.

Na primeira parada, ele, o vigilante da geladeira, o simpático pinguim, agora sem trema por mais que ele trema de frio. Ou de medo.

– Coitado!- apiedou-se a petiz, não-petista- ele mora sozinho!

Tocante. Tudo que é so­lidão pode derreter um sensível coração.

Ciosa, a madrinha Claudia obrigava-a a ler as placas para ela aprender os nomes dos cativos. Até que no meio do passeio, ela se adiantou e gritou:

– Este é o Cagado! kkk

– Não! É cágado! A palavra é proparoxítona. Tem um acento.- explicou a advogada dos bons modos. Não adiantou muito porque as pessoas ao redor riram. Nada a fazer senão rir também.

No domingo frio e nu­blado, as nuvens estavam escuras naquelas de nem chovem nem saem de cima. A maioria do bichos se refugiava nos cantos para a frustração dos curiosos. Para vê-los, era preciso ter olhos de lince. Por isso ficamos sem o abraço do tamanduá, sem o bafo da onça e nem pudemos cutucar a onça com a vara curta. Visíveis estavam os grandes mamíferos como o rinoceronte ou hoje e o elefante. Podia se ver até sem óculos o Urso de Óculos e a Zebra de Grévy que não estava em greve. Assim como as charmosas e elegantes girafas que giravam seus longilíneos pescoços e trocavam inevi­táveis pescoções. Disponí­veis estavam também os imensos dromedários, alvos de muitas fotos, pois masti­gavam, sem parar, cordas e até sapatos. Haja estômago!

– Por que eles se chamam dromedários, tio?

– Porque eles dromem muito- esclareci…

Os gorilas, nossos ancestrais, no topo de seus puxadinhos, atraíam a multidão brincando com os filhotes. Até que um deles foi a um canto e esguichou o seu caliente líquido para excitação do público. Em seguida colocou um dedo naquelas partes e despudoradamente levou-o à boca. Porco! Nojento! diziam todos entre risos amarelos, enquanto se afastavam dali, apressadamente. Se eles têm o genoma 99% parecido com o nosso então esse gesto foi quase humano, demasiadamente humano, certo mano?

Além de ser cruel com os animais, o bichomem re­corre à eles quando quer desqualificar o seu semelhante:- Burro! Vaca! Toupeira! Cachorro! se ouve por aí entre outras cobras e lagartos.

Depois de três horas zooando, chegamos ao recinto do condor. Com dor nas pernas, claro. Com exceção da pequena e saltitante Larissa que curtiria mais três horas-extras numa boa.

No céu do parque nesse instante, muitas aves negras deslizavam graciosamente no céu cinzento. Com a vinda dos urubus airlines decidimos voltar para nossa toca e cuidar dos nossos filhotes.

Valeu, afilhada. Obriga­do pelo passeio. No ano que vem, tem mais. E vamos nos divertir de novo como um pinto no lixo. É isso aí, bicho!

 


*Jorge Nagao é colunista do site Primeiro Programa(www.primeiroprograma.com.br). E-mail: jlcnagao@uol.com.br

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