SILVIO SANO: Ainda uma longa estrada…

Qualquer saída do lugar em que se nasce, seja como for, sempre é valiosíssima porque, no mínimo, contribui para o engrandecimento pessoal, mesmo que não consumada da forma planejada originalmente. Isso, porque a simples convivência com novas formas de pensar, o confronto com culturas e comportamentos diferentes, leva-nos a um processo de associações e comparações com tudo o que aprendemos até então. O problema fica por conta do retorno quando, empolgados com as novidades, passamos a querer adotá-las, pura e simplesmente, na terra natal.

A razão dessa introdução é devido às recentes discussões sobre o aproveitamento do lixo reciclável no Brasil, o conflito bicicletas/ carros/ motos… e até mesmo a questão do aborto para fetos anencéfalos, etc., e que me remeteram a medidas “de fora” já adotadas na área da Educação, apesar de louváveis… pela intenção.

Começo, pois, pela Educação, já que convivi com o do sistema japonês durante 5,5 anos devido ao meu filho, o qual aprovei com louvor. Mas devido ao espaço pequeníssimo citarei apenas dois itens: tempo integral e progressão continuada. Ideais, para mim, para o Ensino Básico… mas não ainda para o Brasil… devido a fatores ligados à nossa própria realidade, política, social, econômica e cultural que acabam influindo no rendimento tanto de alunos quanto de professores (mal preparados).

Idem para a questão do lixo reciclável. Naquele país, o lixo já é reciclável a partir de um calendário: lixo orgânico e não orgânico (bem cumpridos pelos cidadãos). Com poder aquisitivo condizente, até mobiliários velhos eram deixados nas calçadas para serem recolhidos. Isso, até a chegada dos nossos decasséguis… aliviando a carga dos coletores japoneses. No Brasil, tudo vai no mesmo saco, e tem cidadão que ainda o coloca na calçada fora do dia de coleta… uma tentação aos “chutadores”… apenas para fazer graça.

Nunca me preocupei com a questão do aborto em minha estada no Japão, apesar de saber que é totalmente liberado e chega a ocorrer 500 mil por ano, mas concordo que seja delicada e que é preciso muito cuidado quando se trata de Brasil pelas mesmas razões que alinhei, acima, ao citar os meus exemplos.

Ainda temos de percorrer uma longa estrada… Né, não?

 

*Silvio Sano é arquiteto e escritor. E-mail: silviossam@gmail.com

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