SILVIO SANO: Comissão da verdade

O assunto do momento é, sem dúvida, a CPI do Cachoeira, composta por 22 governistas (80% dos senadores e 66% dos deputados, sendo 17 deles com pendências na Justiça) e 10 oposicionistas, ou seja…
Pois é… é a primeira vez que abordo dois temas em um único artigo. O primeiro, acabei de encerrá-lo no parágrafo anterior. O segundo é sobre a Comissão da Verdade, integrada pelo min. Gilson Dipp (STJ); pelo ex-procurador-geral da República, Cláudio Fontelles; o ex-min. da Justiça, José Carlos Dias; o ex-secretário de Direitos Humanos, Paulo Sérgio Pinheiro; o advogado e escritor José Paulo Cavalcanti Filho; a advogada Rosa Maria Cardoso da Cunha e a psicanalista Maria Rita Kehl, criada para investigar violações aos direitos humanos entre 1946 e 1988 e passar a limpo um lado obscuro da nossa História.
A razão deste é devido a ter lido afirmações de alguns desses notáveis já contrariando alguns fundamentos que deram origem à Comissão, principalmente no que se refere ao Inciso III do Artigo 3º (identificar e tornar públicos as estruturas, os locais, as instituições e as circunstâncias relacionados à prática de violações de direitos humanos mencionadas no caput do art. 1o e suas eventuais ramificações nos diversos aparelhos estatais e na sociedade) e que me remeteram a opiniões que tinha sobre a omissão do governo japonês (de meus ancestrais) aos seus cidadãos sobre as atrocidades cometidas nas guerras contra China e Coréia.
Qual o problema de se contar sobre aquelas atrocidades que ocorreram, por responsabilidade de governantes anteriores, apesar da mesma família imperial (que até deixou de ser celestial); em outra época e, portanto, momento político diferente? Além disso, o fato de se contar, de reconhecer, é para que sirva de exemplo para que não mais se repita.
Para isso nasceu essa comissão. Agora, por nossa História, como sempre houve oportunistas… para o bem e para o mal, e ninguém garante que em um crime a culpa nunca é da que se coloca como vítima, imagino que, para se julgar o passado, principalmente neste nosso caso, é preciso rever e analisar com isenção, ambos os lados, cumprindo os fundamentos que a geraram, na íntegra.

 

*Silvio Sano é arquiteto e escritor.
E-mail: silviossam@gmail.com

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