SHIGUEYUKI YOSHIKUMI: Réquiem ao Dr. Toshio Igarashi

 

A antropóloga americana Ruth Benedict estudou profundamente o povo japonês. Dentre as qualidades que mais lhe chamou a atenção foi o On – sentimento de obrigação, de gratidão – cobrado desde o maior até o menor débito de uma pessoa. É a característica do povo japonês que mais admirou. O resultado está no livro “Crisântemo e a Espada” – já publicado no Brasil. Se bem que esse sentimento de agradecer um favor recebido , seja pessoalmente, seja de pessoa ligada à família, esteja sendo gradativamente abandonado pelas novas gerações. Mesmo nissei, há muitos que não sabem agradecer um favor recebido.

Pagar uma dívida de gratidão 70 anos passados.

 

O Dr. Toshio Igarashi, médico pediatra, 77 anos, vem especialmente de Londrina a Lins, no dia 6 de julho, para visitar a dona Kikuno Konda e agradecer favor recebido do marido dela, o médico Dr. Motomu Konda, falecido em 1970. O Dr. Konda veio ao Brasil em 1929, enviado pelo governo japonês para prestar assistência médica aos imigrantes.

Em 1934, o Dr. Igarashi, então com oito anos, residia em Lins com os pais, na zona rural. Como todos os imigrantes japoneses, seus pais trabalhavam na lavoura de café perto do Rio Feio. Naquele ano, sua mãe foi atacada pela maleita, doença que grassava na região e ceifava muitas famílias. Levada à cidade, já em face adiantada da moléstia, permaneceu um mês sob os cuidados do Dr. Konda que mantinha também espécie de hospital.

Quando a mãe regressou sã, o jovem Igarashi não esquece nunca o sorriso de contentamento estampado no rosto dela ao ver os filhos depois de tantos dias. Nessa hora, em lágrimas, prometeu a si mesmo que iria ser médico como o Dr. Konda para cuidar de pessoas enfermas, como ele cuidara de sua mãe.

Essa razão do ON que o Dr. Igarashi devia resgatar junto à viúva do Dr. Konda por ter ele salvado a mãe e influenciado para se tornar médico. Sonho difícil, mas não de todo impossível de ser concretizado, para quem vivia na zona rural, quase não falando o português, pois nascera no Japão, chegado ao Brasil somente aos seis anos.

 

Concretização do sonho

Aos 14 anos, inicia o curso ginasial e em seguida o primeiro científico em Londrina, para onde se mudara. E termina o curso em Curitiba, sempre em escolas públicas. Em 1951, com 27 anos, consegue ingressar na Faculdade de Medicina de Curitiba, graduando-se em 1959. Clinica em Londrina até se aposentar. Foi proprietário de hospital. Em 1970, na Santa Casa daquela cidade fez operação inédita de separação de siamesas. É casado com a D. Emiko e tem casal de filhos. Ele, agrônomo. Ela, formada em comunicação. Voltou ao Japão uma vez. Hoje escreve no Jornal Paraná-Shinbum. É autor da História da Colonização Japonesa no Paraná, prestes a ser publicada.

Nota: Na realidade, o Dr. Igarashi veio com a caravana de Londrina visitar o túmulo do Dr. Shuhei Uetsuka, o Pai da Imigração Japonesa, em Promissão, falecido em 6.7.35. Conheci o Dr. Igarashi nessa solenidade. Indagou-me se conhecia o autor da “Odisseia do casal Konda” publicada na imprensa da comunidade em 1999, cuja cópia portava. Identifiquei- me como sendo o próprio. Manifestando o desejo de visitar a D. Kikuno, prontifiquei-me a levá-lo até Lins. Após a visita rápida, disse-me estar bastante aliviado por ter cumprido o dever de gratidão, apesar de tantos anos de esperar pela oportunidade para apresentar-se à família do seu benfeitor.

Nota: Soube, no dia 25 de julho, do falecimento do Dr. Igarashi no dia 16 de julho, aos 86 anos de idade, de ataque cardíaco, pelo vice-presidente da Aliança Cultural Brasil-Japão, de Londrina, Luiz Kuranoto, que esteve aqui.

Esse artigo, com o título “Uma história diferente” foi publicado em jornal da comunidade japonesa, há nove anos.

E também no meu livro “No Limiar dos 100 anos”, publicado em 2007.

 

 

*Shigueyuki Yoshikumi, jornalista e escritor, é membro da Academia Linense de Letras

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