COMUNIDADE: Câmara Municipal de Tupã debate casos de tortura de imigrantes

Documentário teve cenas filmadas na ilha de Anchieta e levou mais de uma década para ser finalizado (foto: divulgação)

 

Idealizado pelo produtor e diretor Mario Jun Okuhara, o Projeto Abrangências, que investiga casos de tortura e morte de imigrantes japoneses na ditadura militar, chega a Tupã (SP), um importante pólo da comunidade nipo-brasileira. O evento acontece no próximo dia 31 (sábado), a partir das 10h, na Câmara Municipal de Tupã, onde será exibido um resumo do documentário “Yami no Ichi nichi” (Um Dia de Trevas – O Crime que Abalou a Colônia Japonesa). Na ocasião, será apresentado trechos sobre a história do presídio da Ilha de Anchieta em 1946, quando 172 imigrantes foram enviados para o local.

“Três moravam em de Tupã. Um deles, Fukuo Ikeda, foi preso e torturado com apenas 22 anos. Ele morreu em julho de 1948”, conta Mario Jun, lembrando que os outros dois eram da família Yamauchi, o pai Kenjiro, e o filho, Fusatoshi.

A família Yamauchi estará presente na audiência, que contará também com depoimentos do redator chefe do Nikkey Shimbun, Masayuki Fukasawa, e do ex-preso da ilha, Tokuichi Hidaka. Presença também do deputado estadual Adriano Diogo (PT), presidente da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva. A iniciativa é do vereador Caio Aoqui (PSDB), cujo bisavô, Kanji Aoki, também foi levado para o presídio.

 

O vereador Caio Aoqui abriu as portas da Câmara Municipal de Tupã para a discussão (foto: divulgação)

 

Segundo mais novo vereador da história de Tupã, Aoqui, de 23 anos, acredita ser muito importante contar essa parte da história da imigração japonesa “pois muita gente não gosta de tocar no assunto”. “Até hoje me emociono quando ouço relatos”, explica Aoqui.

 

O ex-presidiário Hidaka fala durante audiência na Assembleia Legislativa de São Paulo (foto: divulgação)

 

Mario Jun destaca a “ousadia” do jovem vereador.

“Uma coisa é você promover uma discussão desse tipo dentro de uma associação nipo-brasileira, outra é você levar essa mesma questão para a Câmara Municipal, um espaço que pertence à toda sociedade. E o vereador Caio Aoqui teve coragem e ousadia”, destaca Mario Jun, acrescentando que “é fundamental a participação da nova geração, pois os jovens não tem os mesmos receios dos mais antigos”.

 

Marco – Será a segunda vez que o Projeto Abrangências ganha um espaço aberto. A primeira foi no ano passado, quando foi apresentado na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo pela Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva”.

“Foi um marco na nossa luta”, explica Mario Jun, que iniciou sua pesquisa em 1999, quando seu pai, Mario Okuhara, ainda era produtor do Imagens do Japão – programa de variedades  apresentado por Rosa Miyake. “Era para virar uma série do programa, mas meu pai faleceu em 2001 e abortei o projeto temporariamente. Nessa época o escritor Fernando Morais lançou ‘Corações Sujos’ e, como eu já tinha material, busquei um outro formato, mas o entendimento até então sobre o conflito vitoristas versus derrotistas não se fechava”, disse Mario Jun.

“Foi então que decidi ampliar o leque abrangendo violação dos direitos humanos dos estrangeiros japoneses e comecei a levantar casos de perseguição, discriminação, tortura e mortes de imigrantes”, conta o diretor, lembrando que o documentário foi finalizado em 2011, no mesmo ano em que foi instalada a Comissão da Verdade. Isto é, foram quase 13 anos de pesquisas. Hoje, sua luta por justiça ganhou apoio, mas é verdade que também colecionou muitos críticos ao longo do caminho.

 

Mario Jun Okuhara quer retratação do governo federal brasileiro (foto: divulgação)

Retratação – “Alguns diziam que eu poderia manchar a imagem dos imigrantes”, diz Mario Jun, que compara o seu trabalho ao de um arqueólogo. “Muitos daqueles que eram contrários mudaram de opinião depois da audiência pública. Mas não podemos simplesmente virar essa página. Se fizermos isso, ficará uma página em branco na história da imigração japonesa porque o passado também é história e a história registra violações de direitos humanos contra os japoneses”, conta Mario Jun, afirmando que seu objetivo final é um pedido de retratação do governo federal brasileiro.

(Aldo Shiguti)

 

 

 

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One Comment

  1. O trabalho do Mário esta espetacular!

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