COMUNIDADE: Coletivo Oriente-se busca patrocinadores para projeto se tornar autossustentável

O Coletivo Oriente-se, grupo formado por cerca de 200 atores com ascendência oriental, lançou, no último dia 31, no B_arco Centro Cultural, em Pinheiros (zona Oeste de São Paulo), manifesto em que reivindica “igualdade no tratamento justo a todos os cidadãos” e repugna “práticas de discriminação étnica que ocorre em algumas produções de audiovisual que retratam o oriental de forma estereotipada, preconceituosa e distorcida da realidade”. O texto, lido por Elliane Higa destaca ainda que “ter a presença de atores e artistas orientais em produções de audiovisual em papéis não estereotipados e de forma respeitosa, é o mínimo e o justo que a comunidade oriental brasileira merece em retribuição e gratidão por mais de um século de história em terras brasileiras”.

 

O grupo fixo do Coletivo Oriente-se ao lado do artista e ator Ken Kaneko. Foto: Henrique Minatogawa

O grupo fixo do Coletivo Oriente-se ao lado do artista e ator Ken Kaneko. Foto: Henrique Minatogawa

 

Na ocasião, foi apresentado também o canal de audiovisual com a exibição do vídeo de estreia. A ideia é postar um novo trabalho, de 1 a 3 minutos, a cada semana. O evento contou ainda com um debate que reuniu o antropólogo e documentarista Alexandre Kishimoto, autor do livro “Cinema Japonês no Bairro da Liberdade”; a cineasta Paula Kim; o criador de conteúdos audiovisuais, Sandro de Andrade e o curador do projeto Residência Artística Cambridge, Yudi Rafael.

A conversa girou em torno do tema que tomou conta das redes sociais nos últimos dias: Por que o oriental ainda não tem espaço na mídia. “Foi um bate-papo muito interessante pois tivemos oportunidade de abordar várias questões pertinentes à imigração japonesa, desde os motivos que trouxeram os primeiros imigrantes até os dias de hoje”, conta a atriz Cristina Sano, que integra o núcleo fixo do Coletivo ao lado de Adriano Liano, Alan Sturki, Alexandre Scartezzini, Alzenir Hunior, Anderson Taba, Camiola Aoki, Carla Passos, Cássia Tiemi, Edson Kameda, Elliane Higa, Gilberto Kido, Giovanni Mattei, Jorge Yoshida Filho, Keila Fuke, Lígia Yamaguti, Marcos Miura, Marcos Okura, Maya Hasegawa, Nelson Kao, Pablo Pinheiro, Paula Kim, Rene Brasil, Rogério Nagai, Sandro de Andrade e Tame Louise.

 

O ator Ken Kaneko foi homenageado durante o evento. Foto: Henrique Minatogawa

O ator Ken Kaneko foi homenageado durante o evento. Foto: Henrique Minatogawa

 

Mobilização – Primeira oriental a fazer um papel numa novela no “horário nobre” da Globo, Roda de Fogo (1986), dirigida por Lauro César Muniz e que tinha no elenco Tarcisio Meira, Bruna Lombardi, Osmar Prado e Renata Sorrah, entre outros, Cristina Sano conta que o encontro foi tão produtivo que o grupo já está pensando em marcar um novo bate-papo. “Infelizmente, só tínhamos uma hora e ela passou voando”, disse Cristina, explicando que a plateia, formada por cerca de 70 pessoas, entre artistas, jornalistas e outros profissionais, aplaudiu bastante a leitura do Manifesto. “Também eu fiquei bastante emocionada”, diz Cristina, destacando que “estamos ajudando a mudar o paradigma de que o oriental é discreto e tímido”.

 

Alexandre Kishimoto, Paula Kim, Sandro de Andrade e Yudi Rafael. Foto: Henrique Minatogawa

Alexandre Kishimoto, Paula Kim, Sandro de Andrade e Yudi Rafael. Foto: Henrique Minatogawa

 

Para a atriz, apesar do tempo escasso, o Coletivo conseguiu passar seu recado. Tivemos um boom no momento certo, mas foi tudo muito espontâneo, nem assessor de imprensa nós temos”, conta Cristina, acrescentando que “o mais importante foi a união da comunidade nikkei”. “E aí não só os atores, mas todos entenderam a causa e isso está sendo bastante significativo”, disse Cristina, revelando que assistiu ao primeiro capítulo da novela das seis, “Sol Nascente”, que reascendeu toda a polêmica.

 

Elliane Higa leu o manifesto. Foto: Henrique Minatogawa

Elliane Higa leu o manifesto. Foto: Henrique Minatogawa

 

Respeito – Além dos “absurdos” já apontados pelo Coletivo, o principal, é claro, colocar atores não descendentes para interpretar personagens orientais, ela apontou uma série de “clichês”, como “andar de quimono no dia a dia”. “Nada contra a Globo muito menos contra os atores. Mas onde está a integração? Nós nascemos aqui, merecíamos mais respeito”, diz Cristina, que atuou em diversas novelas na própria Globo como Bebê a Bordo (1988), Pé na Jaca (2006) e Morde & Assopra (2011). Não bastasse, explica Cristina, quando jovem, o personagem Kazuo Tanaka – interpretado por Luis Melo – é nikkei. “E depois não é mais. É subestimar a inteligência do telespectador”, afirma Cristina, lembrando que o Coletivo Oriente-se “não sugeriu nenhum tipo de boicote”.

 

Coletivo Oriente-se busca patrocinadores para alavancar projeto. Foto: divulgação

Coletivo Oriente-se busca patrocinadores para alavancar projeto. Foto: divulgação

 

Patrocínio – Para ela, aliás, o projeto “tomaria um rumo independente da novela”. “Muito antes já falávamos em falta de representatividade. Nosso objetivo sempre foi o de tornar o Coletivo autossustentável e para isso precisamos de patrocinadores para ampliarmos o projeto. Quanto mais os atores nikkeis aparecerem na mídia, mais isso será normal”, diz Cristina, para quem a novela em nada aumentou a responsabilidade do grupo. “O Coletivo já nasceu com esta responsabilidade. As pessoas que compõem o Coletivo já tem uma longa estrada e o controle de qualidade é muito rígido”, explica.

 

ALDO SHIGUTI

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Redator-chefe
ashiguti@uol.com.br
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    Confira os vídeos gravados pelo Coletivo Oriente-se

     

     

    Coletivo Oriente-se lança canal e quer conquistar espaço ‘com trabalho’. Foto: divulgação.

    Marylin. Foto: divulgação.

    MARYLIN

    Roteiro de Cristina Sano

    Direção: Daniel Lupo

    Direção de fotografia

    Captação de som

    Elenco: Érica Suzuki, Ligia Yamaguti, Tame Louise, Marcos Miura, e Yoshida Jorge Filho

    Preparação de atores: Cristina Sano – Keila Fuke

    Direção de movimento: Keila Fuke

    Maquiadoras: Ana Carvalho e Gabrise Fiordelisio

    Edição: Daniel Lupo

    Produção: Coletivo Oriente-se e Seu Menino Filmes

    Apoio: Seu menino filmes / Centro Cultural b_arco

     

     

     

     

    Cena do episódio “Velório”, com Cristina Sano, Keila Fuke, Carla Passos, Gilberto Kido e Edson Kameda. Foto: divulgação

    Cena do episódio “Velório”, com Cristina Sano, Keila Fuke, Carla Passos, Gilberto Kido e Edson Kameda. Foto: divulgação

    NEM MORTO

    Roteiro de Cristina Sano e Paula Kim

    Sinopse: No velório do marido, a esposa descobre suas traições.

    Direção: Paula Kim

    Direção de fotografia: João Alexandre Scartezzini

    Captação de som: Allan Sturki

    Maquiagem: Ana Carvalho

    Elenco: Keila Fuke, Cristina Sano, Edson Kameda, Gilberto Kido, Carla Passos

    Produção: Megumi kawauchi, Cássia Tiemi, Edson Kameda, Gilberto Kido, Keila Fuke, Cristina Sano

    Making Off: Keter Reis

     

     

     

    Cena do episódio “Nadir”, Com Ligia Yamaguti e Maya Hasegawa. Foto: divulgação.

    Cena do episódio “Nadir”, Com Ligia Yamaguti e Maya Hasegawa. Foto: divulgação.

    NADIR

    Roteiro de Cristina Sano e Pablo Pinheiro, baseado no conto homônimo de Daniel Viana (Guardanapos Poéticos)

    Sinopse: A partir de um bilhete deixado pela empregada doméstica, descortinam-se as relações com o trabalho e a morte.

    Diretor: Pablo Pinheiro

    Fotografia: Nelson Kao

    Dir. de Arte: Gabriela Inui

    Assistencia de direção: Carla Passos

    Assistência de Fotografia: Caio Pde Souza

    Elenco: Ligia Yamaguti, Maya Hasegawa e Pedro Pinheiro

    Som direto: Rene Brasil

    Edição: Pablo Pinheiro

    Produção: Coletivo Oriente-se

     

     

     

    “Sem Noção”, com Jucimara Canteiro e Marcos Miura, entre outros. Foto: divulgação.

    “Sem Noção”, com Jucimara Canteiro e Marcos Miura, entre outros. Foto: divulgação.

    SEM NOÇÃO

    Roteiro de Marcos Miura, Sandro de Andrade

    A atendente de uma academia consegue afugentar vários clientes.

    Direção: Sandro De Andrade

    Assistente de direção: Alzenir Junior

    Diretor de fotografia: Adriano Liano

    Áudio e edição: Giovanni Mattei

    Elenco: Eliane Higa, Jucimara Canteiro, Marcos Miura, Rogério Nagai

    Coordenação de produção: Marcos Miura

    Produção: Cássia Tiemi, Érica Suzuki

     

     

     

    INDECISÕES

    Direção: Sandro de Andrade

    Roteiro: Marcos Miura

    Elenco: Cássia Tiemi e Gilberto Kido

    Direção de Fotografia: Adriano Liano

    Som: Giovanni Mattei

    Assit. de Dir.: Alzenir dos Santos

     

     

     

     

     


     

     

    Manifesto do Coletivo Oriente-se no Brasil pela Igualdade Étnica

     

    Nós, artistas e profissionais das artes com ascendência oriental, seja japonesa, chinesa ou coreana, reivindicamos por igualdade no tratamento justo a todos os cidadãos, repugnando práticas de discriminação étnica que ocorre em algumas produções de audiovisual que retratam o oriental de forma estereotipada, preconceituosa e distorcida da realidade. Em especial para produções populares de rede aberta como novelas, seriados e comerciais que, atingem a maioria da parcela dos cidadãos brasileiros, influenciam diretamente a sociedade promovendo às vezes, o conceito deturpado e negativo, denegrindo a imagem dos orientais e educando as novas gerações com a visão preconceituosa contra a nossa comunidade. 

    Somos parte integrante da sociedade brasileira, nascemos, vivemos e contribuímos com muito trabalho para o enriquecimento e desenvolvimento de nossa nação. Ter a presença de atores e artistas orientais em produções de audiovisual em papéis não estereotipados e de forma respeitosa, é o mínimo e o justo que a comunidade oriental brasileira merece em retribuição e gratidão por mais de um século de história em terras brasileiras. Somos brasileiros e exigimos respeito para com todos, independentemente de sua ascendência. A diversidade étnica, social e/ou de gênero é fundamental e necessária para o crescimento de qualquer cidadão. 

    Entendemos que, frente às desigualdades existentes, não basta rejeitar as práticas de discriminação, mas sim realizar ações que possam corrigir distorções e aproximar indivíduos. É responsabilidade de cada um de nós brasileiros, promover a igualdade no cotidiano, através de nossos atos, trabalhos e postura. É de extrema importância que os profissionais que atuam diretamente na concepção e produção de obras de audiovisual, tenham a consciência de que a sua criação pode influenciar positivamente a nossa sociedade e difundir a diversidade. Cabe também a nós, artistas orientais brasileiros, fomentar a imagem positiva de nossa comunidade, através de nosso trabalho artístico, para que as futuras gerações possam se olhar com a autoestima de um cidadão brasileiro pertencente a esta nação. 

    São Paulo, 31 DE AGOSTO DE 2016

     

     

     

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    One Comment

    1. Procedente, coerente e importante a iniciativa do Coletivo Oriente-se. Nesse momento de cisões bipolares, é importante alertar a sociedade para a necessidade e importância da diversidade de forma geral. Tomara que haja empresários com visão de futuro para vislumbrar que esse é o momento oportuno de colaborar para uma visão de mundo mais inclusiva e solidária. Parabéns e boa sorte.

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