COMUNIDADE: Coletivo Oriente-se lança canal no YouTube e quer conquistar espaço nas artes cênicas ‘com trabalho’

Antes mesmo de estrear, “Sol Nascente”, a nova novela das seis da Globo – trama escrita por Walther Negrão, Suzana Pires e Júlio Fischer – já está dando o que falar. O “ibope”, no entanto, é por conta da decisão da emissora de escalar atores ocidentais para os papéis orientais no folhetim. Apesar de a Globo alegar que a novela “não é sobre o Japão” – conforme resposta enviada pela assessoria de imprensa à Folha de São Paulo e publicada no dia 8 de agosto – choveram críticas nas redes sociais. O Japão servirá de “pretexto” para colocar em cena a amizade entre Kazuo Tanaka, interpretado por Luis Melo, e os italianos Gaetano (Francisco Cuoco) e Geppina (Aracy Balabanian). Alice (Giovanna Antonelli), que ficará divididida entre Mario (Bruno Gagliasso) e Cesar (Rafael Cardoso), será uma órfã brasileira adotada por Tanaka.

 

Coletivo Oriente-se lança canal e quer conquistar espaço ‘com trabalho’. Foto: divulgação.

Coletivo Oriente-se lança canal e quer conquistar espaço ‘com trabalho’. Foto: divulgação.

 

Mesmo com a presença de nikkeis no elenco, a indignação também tomou conta de um grupo de atores de ascendência oriental, que decidiram se mobilizar e, no dia 1º de setembro, lançam um canal no YouTube com o objetivo de “mudar os parâmetros” não só na televisão como nas artes cênicas em geral.

Quem explica é a atriz Cristina Sano, a primeira oriental a fazer um papel numa novela no “horário nobre” da Globo, Roda de Fogo (1986), dirigida por Lauro César Muniz e que tinha no elenco Tarcisio Meira, Bruna Lombardi, Osmar Prado e Renata Sorrah, entre outros. “Passados 108 anos da imigração japonesa, os nikkeis vem ocupando papel de destaque em vários setores da sociedade brasileira, como na política, educação e na economia. No entanto, ainda existe uma barreira muito grande quando se fala em artes cênicas, talvez a última fronteira a ser superada”, diz Cristina, explicando que se sente uma “privilegiada” por nunca interpretar personagens estereotipados, que falasse errado ou andasse com uma máquina fotográfica a tiracolo.

 

Cena do episódio “Velório”, com Cristina Sano, Keila Fuke, Carla Passos, Gilberto Kido e Edson Kameda. Foto: divulgação

Cena do episódio “Velório”, com Cristina Sano, Keila Fuke, Carla Passos, Gilberto Kido e Edson Kameda. Foto: divulgação

 

“Mas não é isso que ocorre na maioria das vezes”, admite ela, que também atuou em Bebê a Bordo (1988), Pé na Jaca (2006) e Morde & Assopra (2011), entre outras novelas. De acordo com Cristina, a proposta do Coletivo Oriente-se não é o de protestar contra a Globo, mas mostrar, com trabalho, que os atores orientais também podem desempenhar qualquer papel na televisão. Inclusive de orientais.

 

“Sem Noção”, com Jucimara Canteiro e Marcos Miura, entre outros. Foto: divulgação.

“Sem Noção”, com Jucimara Canteiro e Marcos Miura, entre outros. Foto: divulgação.

 

Absurdo – “Nosso movimento será nosso próprio trabalho. A novela é um reflexo deste preconceito. Mas queremos deixar claro que colocar ocidentais para fazer papeis de orientais não só não nos  representa como  achamos um absurdo isso acontecer em pleno século 21. É algo muito grave. Se não tivéssemos atores, tudo bem. Mas não é o caso”, diz Cristina, afirmando que a televisão acaba disseminando valores deturpados. “São estereótipos que temos que mudar. Não me sinto representada com personagens caricaturizados”, diz ela. “Nasci e moro no Brasil. Não falo errado. Consegui fazer com que enxergassem o outro lado, ou seja, que a mesma cena que pedia que falasse com sotaque, poderia ser feita de uma outra forma”, diz Cristina, acrescentando que não é necessário esperar outros 108 anos para que haja uma mudança. “Mas um movimento teria que partir da comunidade. O nosso intuito é mostrar que não concordamos com isso”, reforça Cristina.

 

Ensaio do Nucleo Hana, do projeto Travessias em Conflito. Foto: Arquivo

Ensaio do Nucleo Hana, do projeto Travessias em Conflito. Foto: Arquivo

 

Travessia – Segundo ela, o Coletivo não é restrito a descendentes de japoneses. “Hoje, representamos cerca de 250 atores nikkeis, chineses, taiwaneses…”, conta a atriz, uma das representantes do Coletivo ao lado dos também atores Marcos Miura (o Shiro, de Morde & Assopra) e Ligia Yamaguti.

Na verdade, lembra Cristina, antes do Coletivo Oriente-se já havia um trabalho nesse sentido com o projeto Travessias em Conflito – O lado B da imigração japonesa no Brasil. Dirigido por Alice K. (Grupo Ponkã), o projeto consistia em promover palestras, filmes e debates; leituras dramatizadas e apresentação de peças teatrais com foco nas questões e conflitos vividos pelos imigrantes japoneses e seus descendentes no país.

“A ideia era mostrar o outro lado da imigração japonesa, o que aconteceu com os nipo-brasileiros”, diz Cristina, lembrando que, além dela, faziam parte do projeto Henrique Kimura, Ricardo Oshiro, Rogério Nagai, Ulisses Sakurai, Ligya Yamaguti, Celine Miyuki e Paulo Cesar Campos.

“Depois disso ficamos um tempo parados até que a Keila Fuke propôs que fizéssemos um trabalho juntos e a partir de um grupo criado no Wahtsapp por Rogério Nagai mobilizamos o Coletivo”, explica ela, afirmando que alguns diretores acabaram embarcando no projeto.

 

Cena do episódio “Nadir”, Com Ligia Yamaguti e Maya Hasegawa. Foto: divulgação.

Cena do episódio “Nadir”, Com Ligia Yamaguti e Maya Hasegawa. Foto: divulgação.

 

Frenético – Segundo Cristina, a ideia é lançar um vídeo por semana, com duração de 1 a 3 minutos. Todos os trabalhos terão roteiro e atores do Coletivo sempre com temas “pertinentes” à causa da diversidade. Em média, cerca de 25 profissionais participam das gravações. Por enquanto, há cinco vídeos gravados: “Marylins”, “Velório”, “Nadir” e “Sem Noção”. O primeiro que irá ar será o de Apresentação. Com roteiro de  Cristina Sano e colaboração de Carlos Takeshi, a produção, como o próprio nome sugere, apresenta o que o grupo pertende para o Coletivo.

“Estamos trabalhando em ritmo frenético. Produzir um vídeo é muito difícil e, ao mesmo tempo, está sendo muito rico, com todo mundo fazendo um pouco de tudo”, diz Cristina, acrescentando que futuramente a ideia é tornar o projeto autosustentável. “É isso que está faltando no Brasil, um campo de trabalho para os atores orientais”, destaca.

 

ALDO SHIGUTI

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Redator-chefe
ashiguti@uol.com.br
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    Para acompanhar o trabalho do Coletivo:

    E-mail: coletivoorientese@gmail.com

    Facebook: www.facebook.com/ColetivoOrienteSe

    YouTube: www.youtube.com/ColetivoOrientese

    Instagram: www.instagram.com/coletivoorientese

    Twitter: www.twitter.com/_orientese

     

     

    Confira os vídeos gravados pelo Coletivo Oriente-se

    MARYLINS

    Roteiro de Cristina Sano

    Sinopse: 3 orientais posam como Marylin Monroe num estúdio fotográfico.

    Direção – Daniel Lupo

    Direção de fotografia

    Captação de som

    Elenco: Érica Suzuki, Ligia Yamaguti, Tame Louise, Marcos Miura, e Yoshida Jorge Filho

    Preparação de atores: Cristina Sano – Keila Fuke

    Direção de movimento: Keila Fuke

    Maquiadoras: Ana Carvalho e Gabrise Fiordelisio

    Edição: Daniel Lupo

    Produção: Coletivo Oriente-se e  Seu Menino Filmes

    Apoio: Seu menino filmes  / Centro Cultural b_arco

     

    VELÓRIO

    Roteiro de Cristina Sano e Paula Kim

    Sinopse: No velório do marido, a esposa descobre suas traições.

    Direção – Paula Kim

    Direção de fotografia – João Alexandre Scartezzini

    Captação de som – Allan Sturki

    Elenco: Keila Fuke, Cristina Sano, Edson Kameda, Gilberto Kido, Carla Passos

    Produção: Megumi kawauchi, Cássia Tiemi, Edson Kameda, Gilberto Kido, Keila Fuke, Cristina Sano

     

     

    NADIR

    Roteiro de Cristina Sano e Pablo Pinheiro, baseado no conto homônimo de Daniel Viana (Guardanapos Poéticos)

    Sinopse: A partir de um bilhete deixado pela empregada doméstica, descortinam-se as relações com o  trabalho e a morte.

    Diretor: Pablo Pinheiro

    Fotografia: Nelson Kao

    Direção de Arte: Gabriela Inui

    Assistencia de direção: Carla Passos

    Assistência de Fotografia: Caio Pde Souza

    Elenco: Ligia Yamaguti,  Maya Hasegawa e Pedro Pinheiro

    Som direto: Rene Brasil

    Edição: Pablo Pinheiro

    Produção: Coletivo Oriente-se

     

     

    SEM NOÇÃO

    Roteiro de Marcos Miura, Sandro de Andrade

    A atendente de uma academia  consegue afugentar vários clientes.

    Direção: Sandro De Andrade

    Assistente de direção: Alzenir Junior

    Diretor de fotografia: Adriano Liano

    Áudio e edição: Giovanni Mattei

    Elenco: Eliane Higa, Jucimara Canteiro, Marcos Miura, Rogério Nagai

    Coordenação de produção: Marcos Miura

    Produção: Cássia Tiemi, Érica Suzuki

     

     

     

     

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