COMUNIDADE: Com inauguração prevista para maio, Japan House deve se tornar autossustentável a partir de 2019

Aos poucos, uma construção logo no comecinho da Avenida Paulista – um dos principais centros financeiros do país e símbolo da capital paulista – passa a dividir a atenção de quem passa pelo local. Em meio a prédios imponentes e a correria do dia a dia dos sempre apressados paulistanos, a Japan House vai ganhando espaço. A obra surpreende logo de cara, ou melhor, através de sua fachada que deve ficar pronta até o final desta semana. A obra está sendo executada por uma equipe de cinco artesãos especializados na arte de encaixes de madeira Hinoki. A proposta é do arquiteto japonês Kengo Kuma, idealizador do projeto em parceria com o escritório paulistano FGMF Arquitetos. Na terça-feira (17), quando a reportagem do Jornal Nippak esteve no local, os funcionários davam os último retoques. Com inauguração prevista para maio de 2017, a Japan House São Paulo combinará arte, cultura, tecnologia e gastronomia em um espaço que trará à capital paulista um novo olhar sobre o Japão contemporâneo.

 

Com ideias de sustentabilidade, Japan House será inaugurada em maio. Foto: Jiro Mochizuki

 

Para falar um pouco mais sobre como estão os preparativos para a inauguração, que deve ter a presença de um artista de “renome internacional”, o Jornal Nippak entrevistou a presidente da Japan House São Paulo, Ângela Hirata, e o cônsul geral do Japão em São Paulo, Takahiro Nakamae:

 

A partir da esq.: Takahiro Nakamae (cônsul geral), Hiroki Nakashima, Tomohiro Matsushita, Ângela
Hirata, Naoya Matsushita, Masanari Hara, Kentaro Taguchi e Hitomi Sekiguchi (cônsul adjunta). Foto: Jiro Mochizuki

 

J.N.: Como estão os preparativos para a inauguração da Japan House?

Ângela Hirata: A expectativa é grande e todos estão empenhados em fazer uma apresentação à altura porque, na verdade, como brasileira, sinto que São Paulo, o Brasil e a América do Sul estão recebendo um grande projeto do governo japonês. Acho que a Japan House vai marcar uma nova era sobre o que é realmente o Japão de hoje, o que é o Japão contemporâneo e o que é o Japão de fato. O Japão da forma que conhecemos, que nossos antepassados trouxeram, temos quie aceitar sempre com respeito. Mas esse nosso conhecimento que temos do Japão é limitado, conhecemos apenas uma pequena parte que veio com os imigrantes. Esse novo Japão, que nós não conhecemos é que o governo japonês está trazendo. Diria com toda sinceridade que, como brasileira descendente de japoneses, estamos abrindo uma porta para o mundo a partir do Brasil, que é o extremo oposto do Japão. Como os japoneses costumam falar, todos os dias e todos os momentos é ‘dokidoki’ na expectativa do negócio dar certo. E eu tenho certeza que dará até porque barreiras sempre existirão e elas são facilmente transponíveis.

 

J.N.: Que barreiras?

A.H.: De cultura, porque nós somos brasileiros. Então com a cara que a gente tem, temos que estudar muito mais sobre o Japão porque nós achamos que entendemos alguma coisa sobre o Japão mas na verdade não entendemos nada. E para mim é um grande aprendizado, uma grande faculdade da vida o que está acontecendo. É algo que não esperava e sou muito grata. Hoje vejo o quanto o Japão tem a nos passar. Então, não se trata somente de fazer essa casa, mas do seu conteúdo. Percebi que o Japão não está parado, está sempre em movimento. Existe a tradição, que eles respeitam muito, mas tem também a inovação e tem o futuro. E esse é o verdadeiro Japão que temos que estar sempre mostrando. Essa é a nossa missão, não só no Brasil como também em Londres e em Los Angeles.

 

J.N.: O próprio cônsul tem sempre enfatizado em todas as oportunidades que a proposta da Japan House é lançar um novo olhar sobre o Japão. Que Japão é esse?

Takahiro Nakamae: Isso tem muito a ver com o porque da Japan House estar em São Paulo, Londres e Los Angeles. São Paulo é o centro econômico e cultural não só do Brasil mas também de toda a América do Sul. A divulgação da cultura, da história e de todos os encantos do Japão contemporâneo ganham uma dimensão maior aqui. Por outro lado, em São Paulo vive a maior comunidade japonesa fora do Japão. Ou seja, aqui tem um alicerce, uma base muto forte e rica de apresentação da cultura japonesa. É sobre essa base que a Japan House tem a missão de apresentar, como bem disse a Ângela Hirata, o Japão contemporâneo, o Japão ainda desconhecido, o Japão sem estereótipos. Felizmente, contamos com uma equipe excelente com a Ângela Hirata como presidente e o Marcello Dantas como curador. Tenho certeza que a Japan House vai ter a capacidade de apresentar uma grande variedade da cultura, história, sociedade, tecnologia, indústria,  encantos turísticos e regionais do Japão. Além disso, como cônsul geral, tenho uma expectativa que a Japan House tenha um efeito muito positivo para aumentar o interesse dos paulistanos, especialmente daqueles que não  frequentam o Bairro Oriental possam ter uma oportunidade de conhecer e aprofundar os seus conhecimentos sobre o Japão e, consequentemente, que o interesse sobre o país também aumente.

Um bom exemplo podemos observar na arquitetura desta construção. O que vemos aqui é uma arquitetura totalmente contemporânea projetada pelo renomado arquiteto Kengo Kuma. Mas nós sabemos que essa arquitetura tem uma base da tradição arquitetônica japonesa. A fachada de hinoki utiliza a técnica tradicional de encaixe de madeira também utilizada no Pavilhão Japonês, no Parque do Ibirapuera. Então, uma descoberta fascinante para os visitantes da Japan House será observar que o Japão de hoje tem todos esses apectos e também a mesma origem que é apresentada da forma tradicional na Liberdade.

 

O cônsul geral Takahiro Nakamae e a presidente da Japan House São Paulo, Ângela Hirata. Foto: Jiro Mochizuki

 

J.N.: Então à primeira vista a ideia é causar impacto nos visitantes?

A.H.: Causar impacto e demonstrar o que é o Japão de hoje. Como o cônsul disse, existe sim um aspecto tradicional porque sem a tradição não existe a sequência. O Japão sequencial não parou por qualquer motivo parou porque os imigrantes já se foram e as novas gerações já não tem muita proximidade com o Japão, o que causa um distanciamento. Então daqui 20, 30 anos nós vamos identificar quem é descendente de japoneses apenas pelo sobrenome porque a nossa fisionomia também vai mudar. Acredito que o governo japonês teve a ideia de criar a Japan House no momento certo não só para levar cultura mas também porque tem algo a ver com tecnologia e uma coisa que se chama sustentabilidade baseada na cultura.

Aí vem uma série de coisas como o business que vai  se juntando até criar um círculo virtuoso do Brasil para a América do Sul e este, por sua vez, com a América do Norte, que tem uma base em Los Angeles, e futuramente Londres também estará integrada. Se pararmos para pensar você percebe que é uma coisa muito grande. Por isso é importante que o brasileiro entenda o valor do trabalho que o governo japonês está nos presenteando. Será algo capaz de criar um círculo vistuoso de sustentabilidade, econômico, de business e de paz porque onde não tem paz é por que falta sustentabilidade. A Japan House não é apenas um presente que o Japão deu. O Japão forneceu a ferramenta para a gente se unir. Imagina esse projeto daqui 20, 30 anos levado com seriedade. Pode acabar até com a guerra. Acho que tem muito a ver com o que o premiê [Shinzo] Abe disse quando esteve no Brasil: ‘progredir juntos, liderar juntos e inspirar juntos’. Isso é o início de tudo.

 

J.N.: A Japan House de Londres também estava programada para ser inaugurada praticamente no mesmo mês que a de São Paulo, ou seja, em março, mas o cronograma acabou sofrendo uma mudança. Porque?

 T.N.: Mudou por uma questão de ajuste de disponibilidade de tempo das autoridades e de vários convidados, como artistas que vão participar da cerimônia.

 

J.N.: As obras chegaram a preocupar?

A.H.: Só no sentido de receber todos os materiais enviados pelo Japão sem nenhum dano.

 

T.N.: Nossa expectativa é terminar a obra até o final deste mês ou até a primeira semana de fevereiro. A previsão é mudar a Secretaria da Japan House para cá para que possam trabalhar visando os preparativos.

 

A.H.: Até meados de fevereiro já vamos estar trabalhando aqui.

 

T.N.: E entre o final de março e início de abril o escritório da Fundação Japão também vai mudar para cá

 

J.N.: A previsão era que até o primeiro semestre as três Japan Houses estivessem em funcionamento…

A.H.: Eu não posso falar pelas outras mas estou rezando para que isso aconteça, de coração.

 

JN.: O investimento inicial era de US$ 30 mi até 2019. Esse valor foi alterado e como essa quantia será distribuída no projeto?

A.H.: O valor permanece o mesmo. Mas de qualquer forma temos que ser autossustentável daqui para frente. Temos muito trabalho a fazer.

 

T.N.: Temos um orçamento de US$ 30  mi do governo japonês até março de 2019. Dai para diante, a continuação da Japan Hoouse vai depender do comportamento da mesma durante esse período. O governo japonês e o consórcio das empresas da qual a senhora Ângela é uma parte, concordam sobre alguns índices, como por exemplo, o número de visitantes e a performance. Daí não termos comprado esse prédio. O propósito da Japan House não é ser uma sala de exposições. O essencial da Japan House é o que vamos apresentar dentro dessa casa. Vamos ter palestras, exposições, lojas, restaurantes, eventos e colaborações de empresas japonesas. Mas não se trata somente do aspecto cultural, tem também os apectos comerciais, turísticos e sociais. Até março de 2019 vamos medir todo esse comportamento e Tóquio vai decidir se vai continuar ou não. Mas tenho plena certeza que vai permanecer porque com uma equipe tão excelente não é possível o projeto não dar certo.

 

Fachada deve ser “apresentada oficialmente” na próxima semana. Foto: Jiro Mochizuki

 

J.N. E as três Japan Houses terão programações independentes ou haverá uma programação comum?

A.H.: Cada Japan House terá seu próprio curador com uma programação própria, mas pode haver uma programação comum porque temos um coordenador internacional que é o [designer] Hara Kenya. Pode ser também que, através de conversas entre os curadores, surja interesse de trazer o mesmo produto que encaixe nas três.

 

T.N.: Através do procedimento de concorrência aberta, o senhor Kenya Hara juntamente com o Ministério dos Negócios Estrangeiros selecionarão três projetos que serão itinerantes. Por outro lado, temos a Japan House que terá seu próprio programa elaborado pelo Marcello Dantas. Desta forma, em São Paulo teremos o programa exclusivo elaborado pelo curador e também a programação itinerante elaborada por Tóquio.

 

J.N.: Quanto ao funcionamento, será de terça a domingo e as atividades serão gratuitas?

A.H.: Sim, segunda-feira não abrirá e será cobrado ingressos para alguns eventos, mas a entrada para o espaço é gratuita.

 

J.N.: Para o senhor, é um sonho ver a Japan House em funcionamento?

T.N.: Tenho dois sonhos em relação a Japan House. Primeiro, que a Japan House dê sua contribuição para mostrar o Japão de hoje e sirva de ponte não só entre o Brasil e o Japão mas também entre os brasileiros e os nipo-brasileiros. Segundo, espero que a Japan House contribua para uma maior integração entre a comunidade nipo-brasileira, especialmente dos jovens. Particularmente os jovens que hoje não participam das atividades da comunidade. Espero que a Japan House possa contribuir para atrair ou fazer com que os sanseis e yonseis tenham consciência de sua origem. Como disse antes, ao observarem que na Japan House existe algo a ver com o que eles observam na Internet ou nos mangás e se eles perceberem que isso tem a mesma origem com o que seus avós um dia viram na Liberdade e de alguma forma isso despertar sua identidade como nipo-brasileiros e, com determinação e orgulho de sua origem contribuir como excelente brasileiro que são, já será ótimo.

A Japan House quer a continuidade, uma maior integridade da comunidade nipo-brasileira com a sociedade brasileira e para isso é muito importante que os jovens se deem conta de sua origem de uma maneira positiva.

Sempre venho expressando que meu desejo é que os novos nipo-brasileiros cresçam como excelentes brasileiros e que trabalhem para um melhor desevolvimento do Brasil como nipo-brasileiros, com orgulho de sua origem e de seus antepssados.

 

J.N. Então, o que posso falar é que, assim como eu, muitos brasileiros – descendentes ou não –  também devem estar curiosos para saber como será a Japan House…

 A.H.: Imagina a nossa responsabilidade. Outra coisa muito importante. Tem muita gente falando: “eu gosto do Japão’ e ‘eu adoro o Japão’. Mas não sabemos o que significa esse adorar e esse gostar. Se é o Japão comida, o Japão tecnologia ou o Japão mangá: Mas o gostar do Japão já é um começo para que possamos criar um novo público interessada no Japão.

 

 

ALDO SHIGUTI

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Redator-chefe
ashiguti@uol.com.br
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