COMUNIDADE: Hospital Santa Cruz completa 75 anos de fundação de olho no futuro

 

Inaugurado em 29 de abril de 1939, portanto, há 75 anos, a história do Hospital Santa Cruz se confunde com a própria saga da imigração japonesa no Brasil, que completou 106 anos no dia 18 de junho.

Construído com ajuda do governo, do povo japonês e até da Casa Imperial Japonesa com o objetivo de oferecer assistência médica aos pioneiros que contraíam inúmeras doenças – como malária, verminose e tuberculose – e tinham dificuldades de comunicação, o Santa Cruz é hoje a mais antiga instituição de cooperação nipo-brasileira.

 

Hospital Santa Cruz completa 75 anos de fundação de olho no futuro (foto: divulgação)

 

Considerado um marco de intercâmbio entre os dois países na área da saúde, o Santa Cruz é conhecido até hoje como “hospital japonês”, vínculo que a atual diretoria, comandada por Renato Ishikawa, ostenta com orgulho.

Apesar de contar com mais de 80% de clientes não descendentes, o Santa Cruz ganhou notoriedade e é reconhecido pelo atendimento humanizado e especializado, com profissionais preparados para prestar atendimento em japonês.

“O atendimento humanizado, que vem de um sorriso, uma palavra amável, de uma atenção a mais, é nosso maior legado”, destaca Ishikawa, que assumiu a presidência da instituição em meio a uma grave crise com uma dívida monstruosa, denúncias de irregularidades e uma queda de braço entre a antiga diretoria e o corpo clínico.

Hoje, se os problemas não foram totalmente sanados – a dívida ainda persiste – Ishikawa tem motivos para comemorar. “Tenho a satisfação de afirmar que estamos conseguindo gradativamente resgatar a credibilidade dos colaboradores, médicos, enfermeiros, pessoal administrativo e gestores, como também da comunidade nipo-brasileira”, assegura o presidente, acrescentando que, “agora que conseguimos detectar os problemas, estamos em condições de controlá-los e administrar o nosso futuro”.

Confira a entrevista concedida por Renato Ishikawa ao Jornal Nippak, em que o presidente do Santa Cruz fala um pouco sobre a história e revela planos para o futuro.

(Aldo Shiguti)

 

 

Jornal Nippak: Na sua opinião, o que, exatamente, a comunidade nipo-brasileira tem para comemorar?

Renato Ishikawa: O Brasil teve a capacidade de acolher o maior número de emigrantes japoneses no mundo, propiciando aos seus familiares o mérito de integrarem-se à sociedade brasileira ao mesmo tempo em que preservaram vivos valores e comportamentos típicos dos japoneses, que eu, como descendente de segunda geração, tenho o orgulho de citar, como a união e solidariedade em prol de alguma causa. E essa mobilização, essa sinergia, sempre feita de forma ordenada, se concretizou com grandes realizações.  A mais antiga instituição e fruto da cooperação de toda a comunidade e com o apoio do Japão é o Hospital Santa Cruz, que comemora este ano 75 anos de atividades. O Hospital faz parte de forma relevante da história da imigração japonesa no Brasil.

JN: E o que, exatamente, o Hospital Santa Cruz tem para comemorar nos seus 75 anos de atividades?

R.I: Tenho a satisfação de afirmar que estamos conseguindo gradativamente resgatar a credibilidade dos colaboradores, médicos, enfermeiros, pessoal administrativo e gestores, como também da comunidade nipo-brasileira. Aos celebrarmos unidos os 75 anos, estamos prontos para nos aprimorarmos todos os dias para aprender, mudar, criar e ousar, para que possamos atingir a nossa meta, que é prestar o melhor serviço de saúde, com excelência no atendimento.

JN: Por falar nisso, o hospital foi construído com o objetivo de prestar atendimento médico aos pioneiros numa época em que a comunicação era difícil. Hoje, qual a missão do Santa Cruz em relação à comunidade?

R.I: Mantemos o maior legado deixado pelos fundadores, que se cotizaram para levantar recursos para fundar o Nihon Biyoin, o Hospital Japonês, em São Paulo, e deixaram a filosofia de oferecer um serviço humanizado, em que as pessoas, os nossos colaboradores fazem a diferença. Está preservado e é valorizado o nosso maior patrimônio, o atendimento humanizado, que vem de um sorriso, uma palavra amável, de uma atenção a mais. Hoje, menos da metade da nossa clientela é de japoneses e nipônicos, mas mesmo assim fazemos questão de manter pessoal bilíngue e até uma dieta à base da culinária japonesa.

JN: O que a diretoria está fazendo e pretende fazer para aproximar ainda mais a instituição com a comunidade nipo-brasileira?

R.I: O Hospital nasceu com a marca da cooperação nipo-brasileira. O governo japonês, as empresas e até o Imperador contribuíram para que o Hospital fosse dotado com o que de melhor existia na época em que foi inaugurado.  Reconheço que houve um período de distanciamento com essas raízes, mas um dos meus objetivos, como presidente do Hospital, é reacender essa chama, voltar os olhos da comunidade e do Japão para o Hospital. Tenho participado das mais importantes reuniões e eventos organizados pela comunidade e como resultado, já recebemos reconhecimento e doações, como as efetuadas pela Fundação Kunito Miyasaka. Todos os recursos recebidos revertem em bens e equipamentos para o Hospital. E fazemos questão de mostrar ao doador, fisicamente, as aquisições. Estamos fazendo, também, gestões bilaterais para conscientizar os japoneses da nossa existência, da nossa importância histórica e, naturalmente, contar novamente com a contribuição deles, seja em cooperação tecnológica, em intercâmbio de profissionais ou mesmo em investimentos diretos.

JN: O sr assumiu a presidência do hospital em meio a denúncias de irregularidades, dívida monstruosa e divergências com o corpo clínico. O que fez para contornar a situação?

R.I: A minha primeira atitude foi me inteirar de toda a situação real da administração, das contas, do pessoal operacional e gerencial e a partir daí pude imprimir o meu estilo pessoal de administrar. Gosto de trabalhar com transparência total e com fixação de metas claras e factíveis, que são elaboradas de forma participativa, e divulgadas para que todos saibam onde queremos chegar, e como.  Dou muita importância também à Gestão de Pessoas, acompanho e cobro de todos os gerentes a atenção  e preocupação com as Pessoas, colaboradores, médicos, parceiros. E, por entender que o fator mais importante na administração são as Pessoas, fui ouvir todas as partes, para apaziguar e contornar as divergências e elaboramos um plano de recuperação, de retomada, para oferecer aos nossos profissionais, particularmente aos médicos, condições para que eles possam atender os seus clientes com segurança e conforto.

JN: Uma de suas prioridades era aumentar a receita do hospital, que era de R$ 150 milhões/ano para R$ 180 milhões/ano, ou seja, R$ 15 milhões por mês. Essa meta foi atingida?

R.I: Quase chegamos lá. Fechamos 2013 com faturamento de R$ 166 milhões, 10,5% mais do que no ano anterior, com superávit de R$ 1,4 milhão. O mais importante é que EBTDA, que é o resultado operacional antes dos juros, impostos e depreciação, ficou em R$ 10,3 milhões, ante R$ 8,8 milhões em 2012. Estamos lutando para, este ano, atingir faturamento médio mensal de R$ 16 milhões, totalizando R$ 192 milhões.

JN: Além da questão financeira, que outras providências foram e estão sendo adotadas?

R.I: O resultado financeiro, que considero positivo, é o reflexo das ações que promovemos para o aumento da produtividade, como a revisão de processos internos; estímulo e ampliação de parcerias com novas equipes médicas, instituições e convênios de saúde; revisão de contratos com fornecedores e prestadores de serviços e; renegociação do perfil da dívida. Investimos R$ 2,2 milhões na aquisição de equipamentos médico-hospitalares, obras de melhoria no centro cirúrgico e UTIs e implementação do plano de reforma de todos os quartos para internação.

JN: Quais os projetos para o futuro?

R.I: Futuro. Essa é a nossa palavra-chave. Agora que conseguimos detectar os problemas, estamos em condições de controlá-los e administrar o nosso futuro.  A nossa pergunta foi: como queremos que o Hospital fique daqui a dez anos? Buscamos respostas com os nossos médicos e colaboradores, e com a ajuda de uma grande consultora especializada em administração hospitalar, vamos primeiro detectar até onde e o que é possível se fazer, qual o perfil desejável e como vamos nos tornar um hospital referência. Considero que esse é o primeiro passo que vamos dar e que marcará os 75 anos de atividades como o ano em que começou a grande virada do Hospital Santa Cruz.

(Aldo Shiguti)

 

 

DEPOIMENTOS

Ao comemorar 75 anos de fundação, o Hospital Santa Cruz ocupa hoje papel de destaque no cenário nacional. Confira os depoimentos de personalidades que atestam a importância da instituição:

 

 

“Gostaria de parabenizar o Hospital Santa Cruz pela sua rica trajetória de 75 anos de fundação, e desejar muitos sucessos no seu atendimento médico hospitalar em prol de toda a comunidade. Agradeço pela gentil atenção e excelente competência com que sempre fui recebido neste Hospital”.

 (Noriteru Fukushima, Cônsul Geral do Japão em São Paulo)

 

 

“Frequento há vários anos o Hospital Santa Cruz e tenho sempre recebido a maior atenção e o mais competente tratamento. Ao completar 75 anos é meu desejo que ele mantenha os bons serviços e que eu e minha família possamos continuar a utilizá-los”.

(Antonio Delfim Netto, economista e professor)

 

 

“No longo caminho vivido pelos imigrantes japoneses no Brasil, a existência do Hospital Santa Cruz tem uma representação das mais significativas, que revela a força de sua atuação”.

(Kihatiro Kita, presidente da Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social)

 

 

“É uma grande satisfação agregar o apoio da Fundação Kunito Miyasaka aos esforços do Hospital Santa Cruz em prol da comunidade nipo-brasileira. Os serviços de excelência prestados há 75 anos na área médico-hospitalar demonstram que dedicação e espírito comunitário constroem um mundo melhor para todos”.

(Marcelo Antonio Muriel, presidente do Conselho Curador da Fundação Kunito Miyasaka)

 

 

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