COMUNIDADE: Ikesaki, ‘o prefeito da Liberdade’, recebe homenagem da Câmara Municipal de São Paulo

“Estou bastante feliz e orgulhosa”. O depoimento de dona Michiyo, casada com o empresário Hirofumi Ikesaki, mais soa como uma declaração carinhosa após 52 anos de convivência, mas mostra bem a importância da família na vida do empresário, que de um supermercado de produtos de beleza construiu um império de cosméticos.  Sua história se confunde com a de tantos outros imigrantes japoneses que aqui chegaram e fincaram raízes.

Uma trajetória, enfim, reconhecida pela comunidade nikkei e pela sociedade brasileira que, na fria noite desta segunda-feira (14), lotaram o Plenário 1º de Maio da Câmara Municipal de São Paulo para prestar uma homenagem ao pai de família, ao cidadão, ao empresário e ao presidente da Acal (Associação Cultural e Assistencial da Liberdade), Hirofumi Ikesaki com a entrega da Medalha Anchieta e Diploma de Gratidão.

Victor, Ikesaki e Dona Michiyo (foto: Aldo Shiguti)

 

A solenidade, uma iniciativa do vereador suplente Victor Kobayashi (PSD), reuniu algumas das principais lideranças da comunidade nipo-brasileira, além de autoridades japonesas, empresários, amigos, familiares e convidados.

Estiveram presentes o presidente do Bunkyo (Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social), Kihatiro Kita; o presidente do Kenren (Federação das Associações de Províncias do Japão no Brasil), Akinori Sonoda; o presidente do Enkyo (Beneficência Nipo-Brasileira de São Paulo), Yoshiharu Kikuchi; o presidente honorário do Bunkyo, professor Kokei Uehara; o presidente da Associação Cultural Nipo-Brasileira de Registro, Kuniei Kaneko; o presidente da Fenivar (Federação das Entidades Nikkeis do Vale do Ribeira) e da Uces (União Cultural e Esportiva Sudoeste), Toshiaki Yamamura; o presidente do Ikoi-no-Sono (Assistência Social D. José Gaspar), Reimei Yoshioka; o presidente da UPK (União Paulista de Karaokê), Toshio Yamao; o presidente do Conseg Liberdade (Conselho Comunitário de Segurança da Liberdade), Akio Ogawa; e o assessor parlamentar da Secretaria de Logística e Transportes do Departamento de Estradas de Rodagem, Fernando Hiromoti Maruyama, entre outros.

O vereador José Police Neto (PSD), presidiu a mesa de trabalho que reuniu ainda o proponente da homenagem, Victor Kobayashi; o cônsul adjunto do Japão em São Paulo, Masahiko Kobayashi; o deputado federal suplente Walter Ihoshi (PSD-SP); o chefe de Gabinete da Subprefeitura da Sé, José Carlos da Veiga; o presidente do Bunkyo, Kihatiro Kita; o presidente do Conselho Deliberativo do Sebrae-SP, Alencar Burti; o presidente da Câmara Municipal de São Bernardo do Campo, vereador Hiroyuki Minami; e o ex-deputado federal William Woo.

Além da esposa, dona Michiyo, compareceram ainda os cinco filhos do casal (Carlos Takashi, Suzi Hitomi, Márcia Yumi, Ricardo Jô e Roberto Jun) e os 12 netos.

 

Líder e empreendedor – Cumprindo a “liturgia da origem da propositura”, Police Neto transferiu a presidência da mesa a Victor Kobayashi, não sem antes “dar um abraço a todas as famílias nipo-brasileiras”. Em seguida, foi exibido um vídeo contando sua trajetória, intercalado com depoimentos da esposa, dona Michiyo, dos filhos e de algumas pessoas que o acompanharam, como o ex-presidente do Bunkyo, Atushi Yamauchi.

Hirofumi Ikesaki e Victor Kobayashi (foto: Aldo Shiguti)

 

Abrindo a série de discursos, o presidente do Bunkyo disse que “sempre é motivo de orgulho toda vez que o nome de Hirofumi Ikesaki é indicado para receber uma homenagem”. Kihatiro Kita observou que o homenageado tem se destacado pelo “espírito empreendedor”, “construiu uma sólida empresa de cosméticos, tem exercido forte liderança no bairro da Liberdade e tem contribuído com as campanhas financeiras do Bunkyo”.

Walter Ihoshi parabenizou a iniciativa do vereador Victor Kobayashi e lembrou que teve oportunidade não só de conhecer como também de conviver com os filhos do homenageado, “que seguem a cartilha do pai”.

Ihoshi destacou a “luta de um imigrante que transformou uma pequena loja em um grande conglomerado”. “O Ikesaki nasceu para ser líder e ser empreendedor. Criou a maior feira de cosméticos da América Latina e a segunda maior do mundo no gênero, a Beauty Fair”, disse o parlamentar, acrescentando que “além de conhecer a cabeça das mulheres, Ikesaki desenvolve um trabalho comunitário em prol do bairro da Liberdade através da Acal, conferindo à região central de São Paulo uma característica oriental”.

Em tom de brincadeira, alertou o coronel José Carlos da Veiga que, se o bairro da Liberdade tivesse uma Subprefeitura, “o Ikesaki seria o subprefeito”. “Ele já é o prefeito da Liberdade dada a sua liderança e por transformar o bairro no que é hoje, um cartão postal da cidade de São Paulo”, disse Ihoshi.

O ex-deputado federal William Woo destacou que “o homenageado é um daqueles líderes que a gente conhece pelas atitudes e não pelas palavras” enquanto o Chefe de Gabinete da Subprefeitura da Sé, José Carlos da Veiga foi “portador do abraço do prefeito Kassab”. “Conheci o Ikesaki recentemente e a Prefeitura não poderia se privar de participar de um momento tão importante como esse para a comunidade nikkei, que tanto honra a cidade de São Paulo”.

“Toda essa pujança, reconhecimento corroborado pelas inúmeras mensagens de autoridades citadas pelo cerimonial, está alicerçada em sua família, pois não existe desenvolvimento de um ser humano sem a sustentação de uma família”, discursou Veiga.

Hiyoyuki Minami, que presidia uma sessão na Câmara Municipal de São Bernardo do Campo e interrompeu o trabalho para participar da cerimônia na Casa paulistana, pediu uma salva de palmas para o ex-deputado federal Paulo Kobayashi, que faleceu em 2005. Minami lembrou que, graças a ajuda de Paulo Kobayashi, o município de São Bernardo do Campo conseguiu financiamento da Jica [Japan International Cooperation Agency] para a recuperação da represa Billings. Sobre o homenageado, disse que “nunca é tarde para um poder legislativo reconhecer o valor de uma pessoa como o Ikesaki” e o chamou de “um dos últimos samurais”.

 

Autoridades e personalidades que compuseram a Mesa (foto: Aldo Shiguti)

 

Relações bilaterais – O cônsul adjunto Masahiko Kobayashi lembrou que este ano comemora-se o 117º aniversário da assinatura do Tratado de Amizade, Comércio e Navegação entre o Japão e o Brasil e os 104 anos da chegada do primeiro navio de imigrantes japoneses ao Brasil.

“Ao longo destes longos anos, sempre foram realizados intercâmbios culturais entre os dois povos, o que formou um alicerce mais sólido nas relações entre os dois países. Hoje, estamos fortalecendo nossas relações de cooperações em outras esferas, como na questão do meio ambiente, conversando para o sucesso da Rio + 20, a reforma do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas e a não proliferação de armas nucleares. Acredito que este tipo de relacionamento só é possível porque existem entendimento entre as nações e confiança mútua construídos ao longo da história. Confiança como a que o governo japonês depositou em Hirofumi Ikesaki ao condecorá-lo com a Ordem do Sol Nascente. Hoje, certamente, ele está acrescentando mais uma página gloriosa em sua vida”, explicou Masahiko Kobayashi.

Discursando em nome da família, Roberto Jun, o caçula do clã Ikesaki, disse que “o pai sempre foi exemplo de homem que não tem limites” e que os filhos sabem da responsabilidade de dar continuidade às obras iniciadas pelo pai, mas afirmou que “os cinco filhos juntos não dão meio Ikesaki sozinho”.

Alencar Burti revelou que sempre teve na figura do homenageado um “símbolo”. “Mas muito mais que suas empresas, seu verdadeiro patrimônio é a família. O Brasil deve muito a ele. Felizmente a Câmara Municipal de São Paulo acordou para prestar esta justa homenagem”, disse Burti.

A família Ikesaki reunida para a homenagem ao patriarca do clã (foto: Aldo Shiguti)

 

 

Parceria – Encerrando a série de discursos, o autor da homenagem manifestou sua satisfação ao conceder a honraria. “A história do Ikesaki se confunde com a minha própria história na política. Quando meu pai elegeu-se deputado federal, passava metade do tempo em Brasília e acabou pedindo para que eu o representasse nos eventos da comunidade nikkei. Foi quando tive a oportunidade de conhecer o Hirofumi Ikesaki. Tudo que conheço sobre o bairro da Liberdade foi ele que me ensinou. De uns anos para cá, desenvolvemos algumas parcerias em prol do bairro, como a revitalização da Praça da Liberdade”, disse Kobayashi, que destacou ainda a Beauty Fair.

O filho caçula Roberto Jun discursa em nome da família (foto: Aldo Shiguti)

 

“É uma honra poder homenagear uma pessoa como o Ikesaki. Não só por sua atuação no setor de cosmético e beleza como também no trabalho que ele desenvolve para a preservação e divulgação da cultura japonesa”, observou Kobayashi, lembrando que a ideia de homenagear o presidente da Acal surgiu durante os 31 dias que ocupou uma cadeira na Câmara Municipal de São Paulo.

(Aldo Shiguti)

 

 

Leia o discurso de agradecimento de Hirofumi Ikesaki

Estou muito feliz e lisonjeado por este momento muito importante da minha vida.

Há muito tempo, o saudoso amigo e grande político Paulo Kobayashi, já tinha me indicado para receber este maior título paulistano, eu agradeci, mas recusei por haver muitas pessoas mais importantes na comunidade e que mereciam recebê-lo antes de mim.

O homenageado discursa no Plenário 1º de Maio (foto: Aldo Shiguti)

 

Paulo Kobayashi foi o único político nikkei que presidiu a Câmara Municipal de São Paulo e a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, e cumpriu sete mandatos parlamentares: 2 vezes deputado federal, 3 vezes deputado estadual e 2 vezes vereador, sempre se destacando como parlamentar de excelentes resultados, um orgulho para a nossa comunidade nipo-brasileira.

Hoje, recebo de coração esta grande homenagem, oferecida pelo seu filho, vereador Victor Kobayashi, que considero sucessor de seu pai, que dá prosseguimento ao seu legado.

Agradeço ao Victor, grande político atuante que vem efetuando relevantes serviços na comunidade nipo-brasileira, e presto minha homenagem ao saudoso Paulo Kobayashi.

Eu nasci na Província de Kumamoto, no Japão, e com cinco anos vim para o Brasil. Quando adulto, naturalizei-me brasileiro, me casei com Michiyo Ikesaki, temos cinco filhos e 12 netos, todos brasileiros, com muito orgulho.

Sou filho de imigrante e fomos designados para trabalhar no cafezal no município de Lins, no Estado de São Paulo. A família cumpriu respeitosamente os deveres da imigração.

Meu pai adquiriu vasta extensão de terras no município de Bastos, cultivou cafezal e dedicou uma grande parte da área para plantio de algodão e o restante para criação de gado.

Ali eu cresci e fiz o curso fundamental, trabalhando com a família na agricultura.

Em 1974, viemos para São Paulo. Como eu tinha mais facilidade em português, tornei-me responsável pelo andamento dos negócios da família.

Durante e após o término da 2ª Guerra Mundial, sofremos muito preconceito racial por pertencermos à nação adversária do Brasil.

Talvez por esse preconceito, os japoneses que vieram do interior para São Paulo tinham dificuldades em trabalhar em vário setores. Inicialmente achavam que teriam mais facilidade e confiança se optassem em se estabelecer em alguns ramos específicos, como tinturaria, quitanda e pastelaria.

Nós entramos como aprendizes de tinturaria. Trabalhava durante o dia e estudava à noite.

Em pouco tempo nos tornamos proprietários dessa tinturaria.

Aos poucos, e com muito esforço, a vida social da comunidade nikkei foi melhorando e as mulheres começavam a freqüentar os institutos de beleza para se cuidar paras festas, casamentos e batizados.

Percebendo que o rendimento dos institutos de beleza era bem melhor que os da tinturaria, as mulheres estudavam para ser cabeleireiras e estabeleciam seus institutos mesmo improvisados nas salas de suas residências.

Com essas mudanças, optei por abrir uma loja de produtos para cabeleireiros e móveis para a instalação de institutos de beleza. Tinha muitas lojas grandes que vinham dominando o mercado, mas com minha trajetória e a maioria dos profissionais que eram antigos tintureiros ou descendentes já faziam essa mudança, vinham fazer orçamento e compravam comigo os móveis do instituto de beleza.

Não tinha nenhum dia em que não fizesse pelo menos três montagens completas de salão de beleza, além de todos os produtos necessários para o seus consumo.

Nada era fácil, com muita dedicação, esforço e coragem, trabalhávamos intensamente antevendo o futuro.

Com o intuito de crescer mais, com muito sacrifício, negociei a maior loja de cabeleireiros do setor, e em seguida maior indústria de móveis para salões de beleza, secadores e lavatórios, tornando-me assim o maior e mais conhecido fabricante e comerciante desse setor no País.

Para maior expansão, adquiri o imóvel na Rua Galvão Bueno e instalamos o primeiro supermercado de cosméticos. Por ser inédito no País, essa grande inovação chamou a atenção da população paulistana e também grande interesse das senhoras da alta sociedade.

Com o nosso convite, tivemos a presença da esposa do então governador Laudo Natel, a esposa do prefeito Figueiredo Ferraz, a consulesa do Japão, a secretária de Turismo e Fomento de São Paulo, presidentes de sindicatos e associações, entre outros. Todos ansiosos para conhecer essa nova modalidade de estabelecimento.

A cerimônia de inauguração foi um sucesso extraordinário, com a presença de notáveis senhoras da sociedade brasileira. Tivemos cobertura da mídia, no rádio, televisão, jornais e revistas. Foi o grande destaque nesse período.

E assim com o decorrer dos anos fomos nos estabelecendo nesse setor. Hoje atuamos com sete empresas, no comércio, na indústria, no atacado e nos serviços.

Em 2005 inauguramos o que é hoje a maior Feira de Cosméticos e Beleza da América Latina, a Beauty Fair.

Na sétima edição, em 2011, a Beauty Fair passou da terceira para a segunda maior feira de beleza do mundo, pela sofisticação e volume de negócios que promove para o setor de beleza.

A missão do nosso grupo é prover o desenvolvimento a todos os elos da cadeia de beleza, contribuindo para o progresso do país e bem-estar das pessoas.

Somos exportadores de diversos produtos fabricados por nós, indústria brasileira, para mais de 30 países do mundo.

Na minha trajetória, tenho realizado vários trabalhos pela comunidade, pelo Rotary Clube Liberdade, pela Acal e pelo Conseg Liberdade, onde fui fundador e presidente.

Recebi algumas homenagens e títulos, como a condecoração da Ordem do Sol Nascente, título honroso do Palácio Imperial do Japão, entre outros, e hoje estou recebendo, com muito orgulho, este máximo título paulistano, a Medalha Anchieta e Diploma de Gratidão da Cidade de São Paulo. E mais uma vez agradeço ao Victor Kobayashi.

Hoje é um dia inesquecível, receber esta grande honraria na presença maciça de todos os convidados presentes.

Esta medalha não pertence somente a mim, mas pelo esforço, dedicação e compreensão, pertence à minha família, à minha mulher, Michiyo, e aos meus filhos, Carlos Takashi, Suzi Hitomi, Márcia Yumi, Ricardo Jô e Roberto Jun. E também a todas as pessoas que estiveram lado a lado comigo nas batalhas, nos momentos bons e nos momentos difíceis, principalmente.

Nosso trabalho é interminável, temos muito a construir e contribuir para o desenvolvimento de São Paulo e do nosso país.

Agradeço á Câmara Municipal de São Paulo e a todos que aqui vieram me prestigiar, apesar de terem outros importantes compromissos.

A todos, o meu muito obrigado.

 

(Aldo Shiguti)

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