COMUNIDADE: Para Adriano Diogo, com o fim da Copa não existe mais ‘motivação’ para ativista nikkei continuar preso

 

O deputado estadual Adriano Diogo (PT-SP), que preside a Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de São Paulo, quer sensibilizar a comunidade nipo-brasileira para o caso do estudante nikkei Fabio Hideki Harano, preso desde o dia 23 de junho no presídio de Tremembé (a 147 quilômetros da capital paulista). Técnico em farmácia da Faculdade de Medicina da USP, Fábio foi classificado como black bloc pelo secretário de Segurança Pública, Fernando Grella.

Segundo a Polícia Civil de São Paulo, ele praticava atos de vandalismo e portava explosivos durante manifestação contra a realização da Copa Mundo. Ainda de acordo com a Polícia Civil, no momento de sua prisão, Hideki estaria portando explosivos.  Inicialmente levado ao Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic), depois ao Centro de Detenção Provisória (CDP) de Pinheiros (onde seu cabelo foi cortado), no dia 25 de junho o estudante foi transferido para o presídio de Tremembé, onde estão presos de grande repercussão, como os irmãos Cravinhos, condenados pela morte dos pais de Suzane von Richthofen e Lindemberg Alves, que matou a ex-namorada Eloá Pimentel, de 15 anos.

 

O estudante nikkei Fabio Hideki Harano, preso desde o dia 23 de junho no presídio de Tremembé (a 147 quilômetros da capital paulista) (FOTO: divulgação)

 

 

Adriano Diogo, que visitou o jovem no dia 1º de julho, disse à reportagem do Jornal Nippak que, “com o fim da Copa do Mundo, não existe mais motivação para ele continuar preso”. “Como presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legilsativa fomos prestar solidariedade ao Fábio”, disse Adriano Diogo, afirmando que a prisão do nikkei foi “um absurdo” e “ilegal”.

Hideki Harano (foto: divulgação)

Hideki Harano (foto: divulgação)

 

Bode expiatório – “Sua prisão foi uma armação. Pegaram o Fábio para servir de bode expiatório, mas pegaram o cara errado”, critica o deputado, explicando que “o enquadraram numa quantidade grande de artigos, entre eles o de associação criminosa”. “Ele está preso com pessoas de altíssima periculosidade, mas posso garantir que se trata de um menino de excelente formação, uma pessoa do bem e um estudante brilhante”. “Estão cometendo uma tremenda injustiça”, garante Diogo.

 

 

Carta – No dia 3 de julho, a repórter do Nikkey Shimbun, Shiho Tanaka, esteve no presídio do Tremembé acompanhado do produtor Mario Jun Okuhara e de dois representantes do Movimento Nacional dos Direitos Humanos. O Jornal Nippak teve acesso a uma carta escrita por Fábio Hideki na prisão no dia da visita. Nela, o ativista alega que “não fez nada de errado, pois participar de manifestações de rua, usar equipamentos de proteção e resistir à prisão na defensiva, para fazer valer o direito de expressão pública, não é nenhum pouco de crime”.

“Estou sendo alvo de uma grande e suja perseguição política, não neguei revista, pois não tinha nada a esconder. Implantaram uma suposta bomba, que só fui ver no DEIC, horas depois de minha detenção”, diz um trecho da carta.

Fábio defini-se como “um trabalhador, um funcionário público e estudante da USP”. “Gosto de ler, de mangá, de tokusatsu (seriados japoneses de super-heróis), de heavy metal, de artes marciais, luta por um mundo melhor, justo e sem desumanidade”.

Fábio conclui afirmando que sabe da “importância de lutar”. “Pratico kendô e sei que só viver de maneira individualista não leva a um mundo melhor. Assim, participo sim de sindicato, apoio determinados movimentos sociais como o MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) e o MPL (Movimento Passe Livre). Sei que lutar, sem briga, nas ruas é importante, participo de manifestações sem partir para agressões. Tanto é que meus pais e meus avós sabem, com tranqüilidade, que não faço lutas erradas”.

 

 

 

Matéria no Nippak – Em 2007, Fábio Hideki estava entre os “curiosos” que participaram da ocupação da Reitoria da USP. Na época, então com 19 anos, Fábio cursava o terceiro ano de Engenharia Ambiental. Em entrevista à jornalista Cibele Hasegawa, do Jornal Nippak, Fábio Hideki disse que “estava no local para se informar”. “A cultura de greve que se tem é que é uma coisa de vagabundo. Limitam-se a se conformar com esse tipo de informação e assim são manipuladas. Por isso vim aqui para me informar, de curioso mesmo”, afirmou Fábio, embora a Poli (Escola Politécnica da USP), não tivesse aderido à greve

“Venho para fazer número e procuro contribuir com alguma coisa”, destacou o estudante. E acrescentou: “Antes de ser da Poli, sou estudante da USP e me preocupo com os rumos da universidade. É um passo para a privatização do PSDB [Partido Social da Democracia Brasileira]”. “Eu cresci com a idéia que o certo é a pessoa dizer ‘hai’ [sim] e obedecer. Mas descobri que o verdadeiro cidadão é aquele que coloca a ‘boca no trombone’ para reclamar quando preciso”, disse.

 

Para sempre – Segundo Adriano Diogo, Fábio Hideki pode ficar preso “para sempre”. “Ele foi pego, como exemplo. São presos para servir como reféns. Se ninguém fizer nada ele vai apodrecer na prisão”, diz o deputado, que se coloca à disposição da comunidade nipo-brasileira “para prestar esclarecimentos sobre a situação”. “Sei que os japoneses e seus descendentes são muito fechados, conservadores e se preocupam com a imagem. Mas o Fábio tem boa índole e é uma figura do bem”, afirma Adriano Diogo.

(Aldo Shiguti)

 

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One Comment

  1. Eu conheço o Fábio, e menino mais simples, gentil e altruísta não há. Ele é um exemplo de cidadão, de colega, de ser humano. Sinto sempre um aperto na garganta de pensar que uma pessoa como o Fábio esteja preso em um presídio junto dos mais perigosos bandidos, tudo por que ele exercia seu dever de cidadão.

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