COMUNIDADE: Para atual vice, sucessor de Kita deve ter ‘visão empresarial’ e ‘ser dono do seu tempo’

 

Cogitado para ser o sucessor de Kihatiro Kita na presidência do Bunkyo (Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social), o atual primeiro vice-presidente da entidade, Jorge Yamashita, negou ser candidato ao cargo. Em entrevista concedida com exclusividade ao Jornal Nippak no último dia 22, Yamashita disse que não tem o perfil ideal exigido para a função.

Segundo ele, os interessados à vaga devem ter “uma visão empresarial” e “ser dono do seu tempo”, já que o cargo, explica, exige dedicação em tempo integral. Ocupando cargo diretivo no Bunkyo desde 1991, Yamashita conta que, às vésperas de mais uma eleição, é normal que surjam especulações envolvendo seu nome. “Como primeiro vice-presidente, é natural que as pessoas imaginem esse tipo de situação. Mas não me sinto preparado para o cargo, que requer tempo disponível, o que não é o meu caso já que sou empregado de uma empresa”, disse Yamashita, afirmando que “nunca tive ambição para o cargo”.

 

Yamashita, Tomohisa, Fujimura, Lidia e Ninomiya (Foto: divulgação)

 

“Seria mais um desafio no sentido de preservar a cultura japonesa, mas sempre procurei contribuir, do meu jeito, para que isso ocorresse”, conta Yamashita, afirmando que o Bunkyo precisa ser austossustentável financeiramente, ou seja, não pode ficar dependendo de kifus (contribuições).

Yamashita, no entanto, considera que ainda é prematuro falar sobre sucessão. Para ele, os rumores se intensificaram nos últimos dias em função de sua ida à 53ª Convenção dos Nikkeis Residentes no Exterior (Kaigai Nikkeijin Taikai), realizada em Tóquio de 30 de outubro até o dia 1º de novembro, como representante do Bunkyo. “A viagem não teve vínculo nenhum com o tema sucessão. Era obrigação do Bunkyo, como entidade máxima da comunidade nipo-brasileira, enviar um representante”, justifica Yamashita, que esteve acompanhado de Masato Ninomiya, vice-presidente do Conselho Deliberativo do Bunkyo; Lidia Yamashita, vice-presidente da Comissão de Administração do Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil, e Mikihisa Motohashi, vice-presidente do Kenren (Federação das Associações de Províncias do Japão no Brasil).

Na agenda, além das atividades da Convenção, Yamashita encontrou-se com Osamu Fujimura, chefe de gabinete do primeiro-ministro Yoshihiko Noda, e com o governador de Kagoshima, entre outros compromissos.

Yamashita, que esteve presente na Convenção realizada em 2007, em São Paulo, uma das duas localidades, fora do Japão – a outra foi o Havaí – a sediar o evento, discursou pela primeira vez como representante oficial do Bunkyo.

Segundo ele, o tema central deste ano foi algo como “Vamos caminhar juntos para a reconstrução do Japão” e reuniu representantes da América Latina, Estados Unidos, Canadá, França, Holanda e de países asiáticos.

“Foi uma forma de os japoneses agradecerem pela ajuda recebida por ocasião da tragédia ocorrida em 11 de março de 2011 e de mostrar como está a recuperação das áreas atingidas”, conta Yamashita, lembrando que o primeiro dia da Convenção foi dedicado aos representantes das três províncias atingidas, Miyagui, Fukushima e Iwate.

Já no segundo dia, explica Yamashita, foram discutidas questões relativas às comunidades nikkeis no mundo, com temas relacionados à cultura, dekasseguis e os jovens nikkeis. O vice-presidente do Kenren apresentou aos japoneses a última edição do Festival do Japão, realizado em julho no Centro de Exposições Imigrantes, em São Paulo. “Eles ficaram bastante impressionados com a grandiosidade do evento”, disse Jorge Yamashita, que em sua fala solicitou para que os japoneses dêem um tratamento diferente ao que vem sendo dado em relação ao intercâmbio cultural entre os dois países.

“Japão e Brasil estão intensificando muito as relações comerciais e econômicas com a vinda de empresas japonesas para o Brasil, que está sendo muito visado por causa da realização da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016. Em função disso, solicitei que, tanto as empresas japonesas como o governo japonês, valorizem também uma postura de intercâmbio cultural além do aspecto comercial, como ocorre com a França, Alemanha e a Itália, entre outros países” explica Yamashita, que destaca, como conseqüência, um certo distanciamento na “essência” de algumas artes tradicionais, como o kabuki, por exemplo.

 

Para Jorge Yamashita, próximo presidente do Bunkyo deve ser dono de seu tempo. (Foto: Aldo Shiguti)

 

 

Dupla nacionalidade – Para Yamashita, depois de 104 anos de imigração, é preciso rever alguns conceitos sobre o que é importante em termos de preservação da cultura japonesa. “A verdadeira consolidação se faz através de aspectos clássicos, que se perpetuam e transcendem os regionalismos”, diz Yamashita, que se considera um “tradicionalista” e “a favor de uma evolução mais gradual”.

Outro assunto em destaque, conta o vice-presidente do Bunkyo, foi a questão da dupla nacionalidade, algo que preocupa, principalmente, os isseis, já que muitos tiveram que optar por uma nacionalidade e hoje se sentem discriminados em seu país de origem.

“Se estamos querendo uma globalização, as fronteiras acabam se tornando cada vez menos significativas. Compreendo quando falam sobre a necessidade de se buscar uma identificação, mas não vejo isso como convicção. Pode até parecer incoerência da minha parte”, justifica Yamashita, lembrando que o terceiro e último dia foi reservado à conclusão dos trabalhos e apresentações, incluindo de alunos de filhos de dekasseguis brasileiros.

Durante um dos intervalos da Convenção dos Nikkeis Residentes no Exterior, a comitiva brasileira foi recebida, em audiência, pelo ministro Osamu Fujimura, chefe de gabinete do primeiro-ministro Yoshihiko Noda. No encontro, Motohashi convidou um jovem de cada província japonesa atingida pela tragédia de 11 de março para participar da próxima edição do Festival do Japão. Na ocasião, também foi solicitada a ajuda do ministro para agilizar os procedimentos de isenção do visto de turista entre o Brasil e o Japão, uma medida considerada importante para incrementar o relacionamento entre esses países.

 

Expo 2020 – Durante o encontro, os representantes do Brasil também conseguiram chamar a atenção do ministro Fujimura para a candidatura de São Paulo como sede da Expo 2020, exposição mundial organizada pelo Bureau International des Exposition de Paris.

O vice-presidente Yamashita relatou sobre a recente audiência das entidades nipo-brasileiras com o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, quando ele discorreu sobre os esforços para trazer esse evento mundial para a cidade. “Trata-se de um evento extremamente importante para a comunidade nikkei pois o Japão estará participando não só através da exposição de produtos como também durante seis meses mostrará autêntica cultura japonesa”, disse Yamashita, lembrando de algumas coincidências entre os dois países.

“Em 2020 marca o cinqüentenário da Expo 70, quando o Japão deu um exemplo para o mundo. Anos antes o país havia sediado os Jogos Olímpicos de 1964, e nós estamos caminhando nesta direção, com a realização da Copa do Mundo e das Olimpíadas”, disse Yamashita, lembrando que o Japão tem direito a um voto na escolha do país sede.

“Foi uma viagem bastante proveitosa”, disse ele, que visitou o Japão depois de 14 anos e Kagoshima, terra de seus pais, depois de 41 anos – em 2013, a Associação Kaghoshima celebrará seu centenário de fundação.

(Aldo Shiguti)

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