COMUNIDADE: Ubatuba pode ganhar marco em homenagem aos imigrantes japoneses presos na Ilha de Anchieta

 

Considerada um paraíso ecológico do Litoral Norte paulista e um dos mais procurados pelos turistas do Brasil, o município de Ubatuba pode ganhar, em breve, um monumento em homenagem aos homenagem aos 172 imigrantes japoneses encarcerados no presídio da Ilha de Anchieta durante o regime militar. Trata-se de um episódio pouco conhecido da história da imigração japonesa e que foi retratado no documentário “Yami no Ichinichi – O Crime que abalou a Colônia Japonesa no Brasil”, dirigido por Mario Jun Okuhara, e revelado pela Comissão Estadual da Verdade “Rubens Paiva” em 2013.

 

As ruínas do antigo presídio da Ilha de Anchieta estão abertas para visitação pública (Foto: divulgação)

As ruínas do antigo presídio da Ilha de Anchieta estão abertas para visitação pública (Foto: divulgação)

 

Um primeiro passo para a criação de um memorial foi dado no último dia 2, quando uma comitiva composta pelo prefeito de Ubatuba, Maurício Moromizato (PT), pelo secretário Municipal de Turismo de Ubatuba, João Corbisier; pelo secretário Municipal de Segurança de Ubatuba, Arthur D’Angelo; pelo deputado estadual Adriano Diogo (PT) – que também preside a Comissão Estadual da Verdade “Rubens Paiva” da Assembleia paulista –; Oshiro Sanenari (represen-tante da Secretaria  do Meio Ambiente do Estado de São Paulo); Ronaldo Simões (do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo), Edna Onodera (proprietária da rede de estética Onodera), Mario Okuhara (idealizador do Projeto Abrangências) e Israel Kislansky (escultor e especialista em bronze) visitaram o Parque Estadual da Ilha de Anchieta.

“Foi uma visita técnica que serviu para fazermos um levantamento inicial e colhermos subsídios para o projeto”, explicou Mario Jun, que em 2008 ficou uma semana na ilha para as gravações do documentário.

 

Comitiva esteve no local no último dia 2 para uma visita técnica (Foto: divulgação)

Comitiva esteve no local no último dia 2 para uma visita técnica (Foto: divulgação)

 

Segundo ele, que luta por um pedido de desculpas do governo brasileiro, a ideia sensibilizou o prefeito. “Fui (à ilha de Anchieta) e voltei aprendendo”, admitiu Mauricio Moromizato à reportagem do Jornal Nippak. “Sempre olhei a ilha do ponto de vista de um político”, disse o prefeito, lembrando que hoje a gestão do Parque Estadual é ambiental, “de preservação e não de desenvolvimento”. “A visita abriu novos horizontes”, disse Moromizato, afirmando que “conhecia bem pouco sobre o episódio da Shindo Renmei”.

Segundo ele, com a cons-trução de um marco na Ilha de Anchieta, a ideia é resgatar uma parte real da história que veio à tona com a Comissão de Verdade, que investiga casos de torturas e mortes de imigrantes japoneses entre 1946 e 1947. “Não se trata de folclore, e sim jogar luz sobre um aspecto real”, disse o prefeito, garantindo que pretende levar o projeto adiante.

“O marco será uma celebração da paz, uma reconciliação sobre o que aconteceu”, justifica Moromizato, acrescentando que espera envolver também membros do “Filhos da Ilha”, movimento que reúne sobreviventes e e familiares da rebelião ocorrida no presdídio da Ilha de Anchieta em 1952 e que ficou conhecido como “O Dia do Levante”.

De acordo com o prefeito, trata-se de um projeto que pode beneficiar todo o município. “Ubatuba já foi um centro de colonização histórica, como São Luiz do Parai-tinga, mas hoje temos alguns pontos isolados. Uma coisa que aprendi como prefeito é que a história só tem valor se preservarmos o original, reconstruir não tem valor”, destacou Moromizato, explicando que atualmente as ruínas do Parque Estadual da Ilha de Anchieta estão abertas à visitação pública, mas o local não tem estrutura para receber turistas. “O único restaurante que tinha foi fechado”, disse ele, afirmando que, “para a cidade, o impacto será secundário”.

 

O prefeito de Ubatuba, Mauricio Moromizato: “Referência mundial” (Foto: Aldo Shiguti)

O prefeito de Ubatuba, Mauricio Moromizato: “Referência mundial” (Foto: Aldo Shiguti)

 

Valor infinito – “O principal será em termos de referência não só para a comunidade nipo-brasileira como também para o país. Será um monumento com caráter sociológico e que terá impacto na relação entre o Brasil e o Japão”, conta Moromizato, explicando que a presença japonesa em Ubatuba teve início em 1958, com a chegada da família Omezo. “

Membro fundador da Associação Nipo-Brasileira de Ubatuba, que hoje reúne cerca de 100 famílias nikkeis, Moromizato destaca que é importante que haja “consenso” entre a comunidade e espera apoio para alanvacar o projeto. “O Brasil é uma grande mistura de povos e tem a maior concentração de japoneses fora do Japão. Para mim, enquanto prefeito, sem dúvida será um marco importante. Mas para mim, enquanto cidadão, o valor da obra será infinita”, garantiu.

(Aldo Shiguti)

 


 

 

 

A ilha-prisão de onde é impossível escapar

 

Ilha de Anchieta, no município de Ubatuba, um dos passeios mais procrados pelos turistas (Foto: divulgação)

Ilha de Anchieta, no município de Ubatuba, um dos passeios mais procrados pelos turistas (Foto: divulgação)

 

Entre a ilha e a cidade mais próxima que é Ubatuba há uma corrente marítima muito rápida, sendo impossível chegar vivo em caso de fuga do presídio que foi construído na pequena ilha. E durante o regime do presidente Getúlio Vargas (a partir de 1930), era para lá que eram mandados os criminosos de alta periculosidade e presos políticos de todas as partes do país.

A partir de 1946, durante três anos, 170 imigrantes japoneses estiveram confinados nessa ilha-prisão. Na época, houve conflitos entre os nikkeis envolvendo os “kachi-gumi”, que acreditavam na vitória do Japão e os “make-gumi”, que reconheciam a rendição japonesa na Segunda Guerra Mundial, chegando até a ocorrer assassinatos. E dentre os vitoristas mais fervorosos havia a Shindo-Renmei, Liga do Caminho dos Súditos.

Cerca de dez pessoas que participaram efetivamente de assassinatos foram enviadas à ilha, como foi o caso de Tokuichi Hidaka, da ala extremista. Mas a grande maioria, constituída de dirigentes da sede da Shindo Renmei ou das filiais de cada localidade do Estado de São Paulo, foi submetida a interrogatórios pela Delegacia de Ordem Política e Social (atual DOPS). Como parte do processo, eles tiveram que pisotear o retrato do Imperador ou a bandeira do Japão como prova de negação dos valores japoneses, a exemplo do “Fumi-e” imposto aos cristãos do Japão (1628 a 1857), em que tinham que pisotear a imagem de Jesus Cristo como prova de rejeição do cristianismo.

Somente pelo fato de possuírem extremistas na família, muitos foram presos e torturados ou pela Polícia de Ordem Política ou no presídio da Ilha Anchieta e, por conta disto, passaram a sofrer de distúrbios mentais e acabaram suicidando-se por envenenamento, como foi o caso de Fukuo Ikeda.

Na ilha, os japoneses ganharam a confiança dos funcionários do presídio e tiveram permissão para comemorar o “Tenchosetsu” (aniversário do Imperador do Japão) e também realizaram o “Undokai” (gincana poliesportiva). Dentre as modalidades, havia até a “Fuga da cadeia” (Jornal Nikkey de 14/05/2014, Tokuichi Hidaka: História do exílio=encarceramento no presídio da Ilha Anchieta, capítulo nº11).

Atendendo aos pedidos dos presos brasileiros, foi até realizado um torneio mortal com cinco lutadores (o que chamam hoje de competição de artes marciais mistas), onde, segundo histórias da época, o lado japonês saiu vitorioso graças à participação de um grande mestre de judô (Hidaka, capítulo nº 12).

Havia uma espécie de cela secreta, sem janela, totalmente escura, com espaço para uma pessoa apenas, onde era colocado todo aquele que mostrasse resistência. “De lá um negro saía roxo” (Hidaka, capítulo nº 9). Um castigo era dado com um chicote especial feito do órgão reprodutor do boi: “Mais de dez chicotadas causavam danos mentais ou levavam à morte”.

 

(Extraído do site Discover Nikkei a partir de tradução de matéria do jornalista Masayuki Fukukasawa do Nikkey Shimbun)

 

 

 

 

 

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