CULTURA INDÍGENA: Produtor nikkei retrata vida de índios urbanos na periferia de SP

Pode-se dizer que o ano de 2015 não teve crise para o produtor nikkei Pedro Watanabe, ganhador de vários prêmios na Europa e na China com o documentário “Som das Folhas”. A obra faz parte do projeto Soundhunters é uma plataforma interativa online e recentemente foi traduzida para o português, retrata de forma singela a vida de indígenas urbanos, na periferia de São Paulo que tentam manter suas tradições e seus sons. O encontro da multi-instrumentista norte-americana radicada em Berlim, Simonne Jones, com lideranças e anciãos Guaranis que lutam para manter viva a língua e a cultura indígena milenar.

 

Projeto tem quatro filmes curtos, com duração de 15 minutos e cada um se passa em lugares diferentes (Foto: divulgação)

Projeto tem quatro filmes curtos, com duração de 15 minutos e cada um se passa em lugares diferentes (Foto: divulgação)

 

Pedro conta a reportagem do Jornal Nippak como e quando surgiu a ideia do documentário. “Em agosto de 2013 recebi um e-mail do François Le Gall, um dos produtores, com o esboço do projeto Soundhunters. Nós já tínhamos trabalhado juntos em um outro projeto. O tema me encantou logo nas primeiras páginas”, conta. “Eles queriam fazer um webdocumentário composto de quatro curtas, em quatro megalópoles mundiais, com quatro caçadores de sons que iriam de encontro à línguas não-oficiais que se inventam, se reinventam ou que resistem dentro do caos urbano. No caso de São Paulo eles tinham ouvido falar dos Guarani Mbya, que vivem em aldeias localizadas na região extremo sul (Parelheiros e Marsilac) e na zona Oeste, perto do Pico do Jaraguá. A ideia era que eu escrevesse um projeto com esse tema, o que fiz junto com um parceiro, o Lucas Bonolo. Apresentamos em dezembro de 2013 e em janeiro de 2014 tivemos a notícia que nosso projeto tinha sido aprovado em uma importante comissão europeia”, comenta o produtor.

“O filme retrata os costumes, as reuniões dos caciques, as danças, as músicas e os sons, uma linguagem da natureza pura  que se misturam em zona urbana. Vários Guaranis  aparecem no filme, mas os principais são duas jovens lideranças, a Jera e o David (Karai Popygua), além dos três anciãos, ou nhaneramõi kuery, como dizemos em guarani”, afirma Watanabe.

De acordo com o produtor,  sua fonte inspiradora está entre os chamados cineastas do real, e grande fã do trabalho do Chris Marker, do Werner Herzog, do Eduardo Coutinho e do Léon Hirszman, só para citar alguns porque a lista é longa. Entre os cineastas japoneses na ativa, Watanabe menciona gostar da Naomi Kawase. Durante o processo do Som das Folhas, Watanabe assistiu e ficou muito tocado por um de seus últimos filmes, o Still Water, que fala justamente de ancestralidade, xamanismo e da unidade entre o ser humano e a natureza, conceitos que contrastam muito com a imagem do Japão ultra-moderno e tecnológico que a maioria das pessoas no Brasil tem. Entre os que já se foram, óbvio que ele cita uma admiração imensa pelos mestres Akira Kurosawa, Nagisa Oshima e pelo Yasujiro Ozu.

 

Preconceitos – O projeto Soundhunters tem quatro filmes curtos, com duração média de 15 minutos, e cada um se passa em uma cidade com  artistas diferentes. São eles: Daedelus, em Berlim; Luke Vibert, em Nova York; Mikael Seifu, em Lagos e claro Simonne Jones, em São Paulo. Segundo ele, o seu maior desafio ao tratar tal tema é saber escutar o que eles mesmo tem a dizer sobre sua própria história e saber descartar quase tudo o que o senso comum diz sobre o modo de vida desses povos. É um outro jeito de olhar para o mundo e um outro jeito de se enxergar no mundo. Nenhuma cultura viva está parada no tempo.

“Existem muitas ideias erradas e preconceitos que nos são transmitidos desde a escola até a idade adulta sobre as culturas indígenas. Não cabe a nós dizer o que é ser indígena, mas sim aprender com a sabedoria deles que é complexa e tem conceitos filosóficos muito desenvolvidos e quase inalcançáveis para os não-indígenas. Não é das tarefas mais fáceis, mas é o que nós e a Simonne tentamos fazer ao longo de todo o processo desse projeto”, adverte Pedro.

 

Pedro Watanabe: “Existem muitas ideias erradas” (Foto: divulgação)

Pedro Watanabe: “Existem muitas ideias erradas” (Foto: divulgação)

 

Prêmios – Esse não é o primeiro trabalho do produtor, os principais projetos autorais que participou até agora, além do Som das Folhas, são o webdocumentário Défense d’Afficher, o qual dirigiu um ensaio documental sobre uma intervenção do street artista Alexandre Orion em São Paulo em 2011, e o filme La Trocha, de Lionel Rossini, de 2013. Ele foi um dos responsáveis pela montagem. “Esse último também tem temática indígena, com dois jovens uitoto que fazem uma viagem entre a Colômbia e o Peru rumo à terra de origem deles, chamada La Chorrera”, completa Watanabe.

Desde janeiro do ano passado, o projeto Soundhunters já passou por diversos festivais mundo afora e ganhou alguns prêmios: o Fipa de Ouro, na categoria Smart Fipa, no Festival Internacional de Programas Audiovisuais, em Biarritz, na França, o grande prêmio e o prêmio inovação no Festival de Chengdu, na China, e mais recentemente recebeu o prêmio do júri da redação do Courrier International no contexto do mês do filme documentário. Além disso o projeto também fez parte da seleção oficial do Prêmio Europa, em Berlim.

 

LUCI JUDICE YIZIMA

LUCI JUDICE YIZIMA

Jornalista e Fotógrafa
lucijornalismo@hotmail.com
LUCI JUDICE YIZIMA

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