ECONOMIA: Proibidas de demitir, empresas japonesas mandam trabalhador para ‘sala do tédio’

Por The New York Times 

 

O emprego vitalício tem sido norma há muito tempo e as dispensas em larga escala continuam sendo um tabu social no Japão

 

Shusaku Tani, 51 anos, é funcionário da Sony, mas, na verdade, não trabalha.

Durante mais de dois anos, ele vem a uma sala pequena, senta-se e passa o tempo lendo jornais, navegando na internet e estudando livros didáticos de engenharia que desencavou da época de faculdade. Tani preenche um relatório sobre suas atividades ao final de cada dia.

 

Miwako Sato, que entrou na Sony após deixar o colégio em 1974, em um sindicado em frente ao centro tecnológico da empresa em Tagajo, Japão (Foto: The New York Times)

 

Empregadora de Tani há 32 anos, a Sony Corp. lhe designou essa sala porque não pode se livrar dele. A Sony cortou seu posto no Centro de Tecnologia Sony em Sendai, que em melhores épocas produziu fitas magnéticas para vídeos e cassetes. Porém, Tani, se recusou a aceitar a proposta de aposentadoria antecipada oferecida pela Sony no final de 2010; a escolha é dele segundo a lei trabalhista japonesa.

Assim, ele fica sentado na chamada “sala da busca”. Ele passa os dias lá, com aproximadamente outros 40 resistentes. “Não vou sair”, disse Tani. “As empresas não deveriam agir assim. É desumano.”

O impasse entre os trabalhadores e a gerência da fábrica de Sendai ressalta uma batalha em processo de intensificação quanto às práticas de contratação e dispensa no Japão, onde o emprego vitalício tem sido a norma há muito tempo e as dispensas em larga escala continuam sendo um tabu social, pelo menos nas maiores companhias japonesas.

A Sony quer mudar isso, bem como o primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe. Enquanto a recuperação econômica japonesa começa a acelerar, reduzir as restrições para as empresas se tornou ainda mais importante para os planos econômicos de Abe. Ele quer afrouxar as rígidas regras sobre demissões de empregados em tempo integral.

Segundo os economistas, tornar flexível o mercado de trabalho japonês ajudaria a empresas em dificuldades a enxugar a mão de obra inchada e competir na economia global. Menos restrições nas dispensas facilitaria para a Sony deixar negócios tradicionais infestados de perdas e concentrar os recursos em áreas mais promissores e inovadores.

“Tenho um desejo só para o setor eletrônico do Japão, a reforma trabalhista”, afirmou Atul Goyal, analista de tecnologia da Jefferies & Co.

A Sony afirmou que não estava fazendo nada errado em colocar os funcionários no que chama de Salas de Design de Carreira. Os empregados são orientados a encontrar novos postos no grupo Sony ou em outra empresa. A empresa também disse que oferecia aos trabalhadores pacotes generosos de aposentadoria antecipada. Em 2010, ela prometeu verbas rescisórias equivalentes a 54 salários. Contudo, a verdadeira função das salas é fazer os empregados se sentirem esquecidos e inúteis – e, por fim, tão entediados e envergonhados que simplesmente peçam as contas.

Companhia imensa com mais de 146 mil funcionários, a Sony está sob pressão. Ela foi superada por concorrentes mais ágeis e seus executivos estão tentando refazer a empresa. Consertar a Sony é especialmente crítico depois que ela esnobou a proposta do investidor e ativista norte-americano Daniel S. Loeb de vender sua divisão de entretenimento. As ações caíram quase 10% desde que a empresa rejeitou a proposta no começo de agosto.

 

Além das causas trabalhistas

Para os críticos, além das mudanças trabalhistas, existe algo mais importante em jogo. Eles advertem que facilitar o corte de empregos destruiria o tecido social japonês em prol dos ganhos empresariais, causando desemprego em massa e acentuando a desigualdade de renda. Para um país que há muito tempo se orgulha da estabilidade e renda relativamente justa, tal mudança seria inaceitável.

“O Japão não deveria tentar ser esse tipo de país”, declarou Takaaki Matsuda, que dirige a divisão de Sendai do sindicato de trabalhadores da Sony.

Seria uma alteração radical. Uma combinação de emprego vitalício, salário baseado no tempo de casa e lealdade intensa do empregado à firma foi a fórmula que teria levado ao milagre econômico japonês do pós-guerra, enquanto estabilidade e crescimento andavam de mãos dadas. Porém, quando a economia japonesa tropeçou no começo da década de 1990, as empresas viram que as práticas trabalhistas rígidas tornavam impraticável o enxugamento.

Em vez disso, os trabalhadores não necessários ficavam com pouca coisa a fazer além de olhar pela janela, dando origem ao termo “madogiwa zoku”, a “tribo sentada à janela”.

Os defensores da modificação trabalhista assinalam que as proteções rígidas para os trabalhadores levaram as empresas a fazer grandes cortes na contratação, reduzindo as oportunidades para um grande número de jovens japoneses. A Sony contratou 160 universitários recém-formados neste ano fiscal; em 1991, o número ficou em torno de mil.

As empresas também se adaptaram usando uma classe secundária de trabalhadores temporários ou de meio expediente que podem dispensar com maior facilidade. “Na verdade, as desigualdades ocultas já existem no Japão”, disse Fumio Ohtake, economista da Universidade de Osaka.

Mesmo assim, há quem tema que as mudanças de Abe sejam menos a favor do mercado e mais das empresas. O iene mais fraco propiciou a exportadores como a Sony uma oportunidade inesperada, embora ainda não se tenham visto aumentos substanciais nos salários, e muitos fabricantes continuam a transferir a produção para o exterior.

A fragilidade das mudanças trabalhistas forçou Abe a agir com cautela. Ele tirou o assunto da agenda política quando se concentrou nas eleições parlamentares em julho. Após uma grande vitória de seu partido, a proposta está de volta. Contudo, o novo plano somente facilitaria as demissões nas três maiores cidades japonesas.

As maiores empresas do Japão parecem imitar a Sony na tentativa de enxotar os trabalhadores. A imprensa local noticia que muitas delas, incluindo Panasonic Corp., NEC Corp. e Toshiba Corp., empregam a “oidashibeya” (sala de busca) e táticas semelhantes. Em maio, o jornal “Asahi Shimbun” informou que um funcionário da Panasonic devia passar o dia em uma sala olhando monitores em busca de irregularidades. No ano passado, um tribunal de Tóquio determinou à Benesse Corp., empresa de serviços educativos, a reintegração de uma funcionária a qual alegou ter sido designada a tarefas servis e degradantes depois de se recusar a sair.

A Panasonic não foi encontrada para comentar durante seu período de férias de verão. Já a Benesse declarou ter revisado as práticas trabalhistas.

Embora os detalhes dos planos do governo ainda estejam sendo determinados, os gerentes de Tani na Sony estão ampliando a aposta. A partir de agosto, a companhia determinou que ele trabalhasse em turnos de 12 horas em uma linha de montagem na fábrica de Toyosato, a mais de uma hora de distância de caro. Ele disse que aceitará a decisão.

Para Miwako Sato, que entrou na Sony logo após terminar o ensino médio em 1974, as mudanças são uma traição ao contrato social aceito por todos no Japão. Ela cumpria turnos de 12 horas na fábrica de Sendai, trabalhando com rolos enormes de filme magnético, e viu a empregadora se transformar em uma potência global dos eletrônicos.

Entretanto, a tecnologia foi aprimorada e a Sony era cada vez mais afetada por rivais ágeis. Em 2003, a fábrica ofereceu o primeiro de vários programas de aposentadoria antecipada.

Há dois anos, um tsunami destrutivo varreu a fábrica, fazendo os trabalhadores subirem correndo no telhado. Os danos levaram a Sony a transferir as operações de baterias e equipamentos ópticos. Posteriormente, ela vendeu a divisão de produtos químicos, eliminando mais empregos na unidade.

Em fevereiro, faltando apenas dois anos para a aposentadoria de Sato, um gerente trouxe notícias contundentes: “Seu cargo não existe mais.” Ela se recusou a se demitir, e foi despachada para a sala de busca. Nela, fez um curso online de enfermagem para idosos, mas não saiu. Desde julho, Sato foi encarregada de digitar dados.

O sindicato da Sony estima que o número de funcionários da fábrica tenha a metade do tamanho de três anos atrás. De acordo com Sato, no auge da fábrica, os trabalhadores chamavam a empresa de Sony Maru (navio Sony). “Todos estavam a bordo, com nossos destinos unidos”, disse. “Isso acabou.”

 

Fonte: www. ig.com.br

 

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