ENTREVISTA CÔNSUL TAKAHIRO NAKAMAE: ‘Vou guardar com carinho cada dia que passei em São Paulo’, afirma cônsul Takahiro Nakamae

Corre nos bastidores que, de uns tempos para cá, a comunidade nipo-brasileira “tem dado sorte com os últimos cônsules”. Kazuaki Obe – que faleceu em 2014 – exerceu o cargo de cônsul em São Paulo de janeiro de 2009 até junho de 2012 e marcou sua passagem ao lado de sua esposa, Eiko, que conquistou a comunidade nipo-brasileira com sua simpatia. Seu sucessor, o cônsul-geral Noriteru Fukushima, assumiu o cargo no Brasil em julho de 2012, após ter sido ministro da Embaixada do Japão na Espanha (2010), cercado de expectativas. Não só desempenhou sua função como também entrou para a galeria dos “cônsules carismáticos”. Na sequência, veio o cônsul Takahiro Nakamae, que desde sua primeira entrevista ao Jornal Nippak, tão logo foi apresentado à comunidade nipo-brasileira do Estado de São Paulo em cerimônia realizada pelas entidades nikkeis no Bunkyo (Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social), deixou claro que a comunidade poderia ficar tranquila.

 

Cônsul Takahiro Nakamae posa diante de um quadro do artista plástico Yutaka Toyota. Foto: Aldo Shiguti

 

Passados dois anos desde que assumiu o cargo, Takahiro Nakamae está de malas prontas para o Japão, onde aguardará novas instruções do governo japonês. “Como funcionário público, onde me mandarem eu irei”, disse Nakamae na tarde desta quarta-feira, 21, durante entrevista concedida ao Jornal Nippak no Consulado Geral do Japão em São Paulo.

Durante esse tempo, visitou exatos 107 kaikans entre o interior de São Paulo e os Estados de Mato Grosso  e Mato Grosso do Sul. Lamenta, aliás, não ter conhecido Minas Gerais – o Consulado de São Paulo abrange também o Triângulo Mineiro – nem o Paraná. De Minas, por sinal, levará uma “descoberta”: o pão de queijo, cuja receita pegou na Internet. “Tentei fazer uma vez mas não deu certo porque, ao invés do queijo de Minas ralado, usei o tipo parmesão. Sem saber que ele já contém muito sal, usei a mesma quantidade de sal sugerida na receita. E aí já dá para imaginar o resultado”, disse ele, garantindo, porém, que obteve sucesso na segunda tentativa.

Em sua estada em São Paulo – o oitavo lugar que ele trabalha no exterior, incluindo Brasília, onde ficou um ano e nove meses, Takahiro Nakamae pegou as comemorações dos 120 Anos do Tratado de Amizade, Comércio e Navegação Brasil-Japão e a realização dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016, além da inauguração da Japan House São Paulo.

“Minha passagem por São Paulo foi muito frutífera. Trabalhamos muito com o apoio da comunidade japonesa em São Paulo e no interior e também agradeço muito à equipe do Consulado, que trabalhou arduamente comigo nesse período”, destacou Nakamae, acrescentando que, apesar de já ter trabalhado em outros países latino-americanos, ficou admirado com o tratamento dado pela sociedade brasileira à comunidade nikkei.

 

Takahiro Nakamae discursa durante abertura do 8º Japan Matsuri da Acenbo, em Osasco. Foto: Aldo Shiguti

 

“Aqui [em São Paulo] é muito diferente. Não só pelo tamanho e quantidade da comunidade mas também porque ouvi muito em São Paulo – e quase não ouvi em outros lugares – o fato de muitos brasileiros expressarem sua admiração pela comunidade nipo-brasileira. Em outros países, os japoneses também são conhecidos por suas virtudes, mas em São Paulo todos fazem questão de ressaltar a contribuição dos imigrantes e seus descendentes para o desenvolvimento da sociedade brasileira”, afirmou Nakamae, lembrando que, na cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos Rio 2016, chamou a atenção um grupo com trajes “representando claramente” o Japão.

“As pessoas que estavam no estádio reagiram com muitos aplausos e expressões de exclamações. Trata-se de uma homenagem transmitida para bilhões de telespectadores em todo o mundo. Então, o Brasil é esse país que organiza um evento histórico e uma pessoa pensa nisso sem hesitar”, observa Nakamae, que citou ainda a inauguração da Japan House São Paulo – primeira instalação do projeto global do governo japonês no mundo.

“Estavam presentes o prefeito da cidade de São Paulo, o governador do Estado de São Paulo e o presidente da República, algo extraordinário para a inauguração de um Centro Cultural de um país estrangeiro. Além disso, o prefeito, o governador e o presidente, em palavras diferentes, falaram do mesmo orgulho de poder contar com os japoneses e da influência da cultura japonesa para o país. Isso, vindo de políticos, é muito importante pois eles calculam as palavras que vão usar”, afirmou o cônsul, que fará sua última viagem como cônsul neste fim de semana, quando visitará a cidade de Preisdente Prudente.

No dia 3 de junho, durante sua visita a Osasco, onde participou da cerimônia de abertura do 8º Japan Matsuri da Acenbo (Associação Cultural e Esportiva Nipo-Brasileira de Osasco), Takahiro Nakamae mais uma vez deu demonstração de sua cordialidade e elegância ao atender o jornalista Cláudio Hori e a reportagem do Jornal Nippak em meio aos seus inúmeros compromissos que tinha no dia.

Confira os principais trechos:

 

P: Cônsul, esta é uma de suas últimas aparições na condição de cônsul geral do Japão em São Paulo já que o senhor está retornando a sua terra natal. Ficamos felizes em reencontrá-lo aqui e qual o seu balanço de sua estada aqui em São Paulo e a receptividade do público brasileiro?

Takahiro Nakamae: Assumi o cargo há dois anos, exatamente em junho de 2015. Ao longo desse tempo tive a oportunidade de visitar várias associações no interior e na Capital, onde pude participar de vários eventos, como o Japan Matsuri da Acenbo. Foram quase 120 encontros com a comunidade japonesa e a cada encontro ficava extremamente impressionado pela receptividade e calorosa acolhida da comunidade nipo-brasileira e a amabilidade com a qual fui recepcionado. Tenho que dizer que, através dessas oportunidades aprendi muito da cultura nikkei, do legado, do patrimônio cultural e histórico que a comunidade nikkei veio preservando e a cultura que a comunidade faz tanto esforço para divulgar. Esse esfoço é algo incomparável e único.

Nesses dois anos, tivemos muitos eventos. Quando assumi o cargo, em 2015, celebramos os 120 anos das relações diplomáticas entre o Japão e o Brasil. No ano passado celebrou-se os Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro, mas aqui em São Paulo recebemos delegações japonesas de várias modalidades e organizamos vários eventos comemorativos. Este ano conseguimos inaugurar a Japan House na Avenida Paulista graças a colaboração, compreensão e acolhida de toda a comunidade japonesa.

Esta primeira etapa da Japan House está sendo muito boa. Ontem (dia 9 de junho), a Japan House São Paulo registrou 100 mil visitantes em um mês e três dias de funcionamento. Um número muito acima da nossa expectativa. Assim experimentei muitas coisas agradáveis, memoráveis e inesquecíveis. E ao longo do meu serviço em São Paulo não posso deixar de dizer que fiquei impressionado pelo respeito a admiração que a comunidade japonesa conquistou na sociedade brasileira. Claro que esse respeito foi conquistado através de muito sacríficio e esforço dos imigrantes e seus descendentes para contribuir com o desenvolvimento do país. Não posso deixar de expressar, mais uma vez, a minha sincera gratidão a essa história para com todos os membros da comunidade nipo-brasileira.

 

 

P: O senhor partindo, vai deixar muita saudade na comunidade nipônica…

Takahiro Nakamae: São Paulo é o oitavo lugar no exterior que trabalho e para mim, é sem dúvida, um dos mais memoráveis. Tantas memórias e amizades que fiz… Só tenho que agradecer essa oportunidade e espero ter desempenhado o mínimo necessário como cônsul geral e mais uma vez queria repetir minha gratidão pela amável acolhida.

 

P: E não deixará somente saudades como também muitas realizações. Mas há ainda projetos que o senhor gostaria de ter concluído e não conseguiu por falta de tempo?

Takahiro Nakamae: Por um lado posso dizer que estou deixando São Paulo com um forte sentimento de satisfação de ter trabalhado em vários projetos. Por outro, também devo dizer que estou deixando alguns projetos importantes para meu sucessor. Um projeto que estávamos trabalhando é como revitalizar o legado da comunidade japonesa e transmitir isso para as novas gerações. Ou seja, como envolver os jovens na grande comunidade nipônica. Sempre discordei da opinião que os jovens estão deixando a identidade japonesa através da integração na sociedade brasileira. Sou contra essa colocação. Ao longo do meu serviço tive a oportunidade de conhecer muitos jovens da Capital e no interior, além dos jovens que não pertencem aos kaikans e estão atuando individualmente como cidadãos brasileiros. Pude constatar que cada um deles tem um fogo no seu coração da identidade japonesa, um aparente orgulho de ser filho de imigrantes japoneses e estão sempre procurando oportunidade para se expressarem. Então, acho que se trata de como fornecer essa oportunidade, essa chance para muitos jovens que potencialmente estão dispostos a manifestarem seu orgulho de ser descendente de japoneses. Talvez com várias ações, mas juntos com os mais antigos poderíamos manifestar a nossa afeição do legado que os nossos antepassados deixaram. Estamos trabalhando com algumas entidades nikkeis de jovens para elaborar um projeto envolvendo o bairro da Liberdade [o projeto será anunciado nesta sexta-feira (23), durante evento na Câmara de Comércio e Indústria Japonesa do Brasil]. Mas quero que saibam que tem muitos jovens que voluntariamente estão trabalhando para convocar todos os integrantes da comunidade japonesa para manifestar nossos sentimentos juntos com os expatriados japoneses. Essa integração grande de confirmarmos a nossa origem, a nossa raiz, acho que será um projeto muito bonito.

Outra coisa é que sempre me preocupei coma situação da educação de alguns filhos de brasileiros residentes no Japão e de ex-dekasseguis que voltaram para o Brasil. Não temos informações exatas da situação atual mas sabemos que a situação é abnegável. Talvez nós não tenhamos dado a devida atenção para esse assunto, mas estamos começando a nos conscientizar para ajudar as crianças que tem dificuldades em se adapatar à sociedade brasileira. Essa é uma dificuldade muito grande. Quase 10% da comunidade japonesa, particularmente os jovens, moram trabalhando no Japão. Uma parcela muito grande de seus filhos estão fazendo um esforço enorme para fazer sua vida. Acho que é nossa responsabilidade oferecer o devido apoio para uma melhor adaptação deles na sociedade local.

 

P: O senhor acredita que a comunidade dará continuidade a esses projetos?

Takahiro Nakamae: Seguramente vou falar com meu sucessor sobre esses projetos e venho falando destes temas com muitas personalidades da comunidade japonesa, incluindo as diretorias de algumas das principais entidades nipo-brasileiras e felizmente muitos têm expressado apoio a essas iniciativas. Tenho plena confiança e sou otimista em relação ao futuro da comunidade japonesa no Brasil porque conheço já muitas pessoas ansiosas para trabalhar em prol de um futuro melhor da sociedade brasileira. A posição da comunidade japonesa na sociedade brasileira é sólida e vai ficar ainda mais forte com a participação das novas gerações.

 

P: Isso quer dizer que, onde quer o senhor vá, vai estar sempre acopanhando com carinho o que está acontecendo com a comunidade nikkei aqui no Brasil….

Takahiro Nakamae: Vou guardar com carinho na minha memória cada um dos dias que passei em São Paulo.

 

P: Sua última participação em eventos da comunidade nipo-brasileira na condição de cônsul será no Festival do Japão?

Takahiro Nakamae: Devo partir de São Paulo no dia 9 de julho, último dia do Festival do Japão. Talvez vá para o Aeroporto direto (risos). Mas fico muito feliz pelo fato de sentir que até o último dia ainda posso ser útil e desempenhar minha função de cônsul. Isso me deixa muito feliz.

 

P: O senhor diria que a inauguração da Japan House São Paulo foi um de seus momentos mais marcantes?

Takahiro Nakamae: A Japan House São Paulo, graças a compreensão da comunidade japonesa, foi lançada com enorme sucesso. Agora, o desafio é assegurar a continuidade e sustentabilidade desta instiuição em plena harmonia com a comunidade japonesa. O intuito da Japan House é apresentar o Japão contemporâneo de uma maneira diferente daquela que foi herdada pela comunidade japonesa e ainda acrescentar mais um ingrediente a nossa apresentação da rica cultura japonesa junto com todos esses esfoços que já vendo feito pela comunidade nipo-brasileira.

 

P: Esperamos que o senhor volte para conferir in loco todas essas ações iniciadas no Brasil.

Takahiro Nakame: Obrigado. Sei que muito japoneses ficam em São Paulo depois de aposentandos pelo amor que mantém por São Paulo. Por enquanto devo continuar desempenhando minhas funções, mas sempre vou lembrar de São Paulo e desejo voltar algum dia para visitar São Paulo e quem sabe, pode ser em mais uma ocasião do Japan Matsuri.

 

(Aldo Shiguti. Com colaboração de Claudio Hori)

 

ALDO SHIGUTI

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    One Comment

    1. Uma vez mais… muito obrigado Aldo San! É gratificante contar com a amizade e colaboração de profissionais de sua envergadura …

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