ENTREVISTA – DEPUTADO ESTADUAL PEDRO KAKÁ: ‘Os princípios éticos e morais precisam ser eficientes e competentes’, diz Pedro Kaká

Antes de decidir se assumiria ou não uma cadeira na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, Pedro Massami Kikudome, o Pedro Kaká, relutou, mas decidiu enfrentar mais um desafio em sua vida. Afinal, Kaká sempre teve os desafios como uma forma de motivação. Tem sido assim desde criança, quando ainda morava em Nova Esperança (PR). Eleito com 32.971 votos pelo PTN, Pedro Kaká conta que seus pais o ensinaram a ser “firme” e “tenaz” em busca de seus objetivos. “Sempre rendo minhas homenagens aos meus pais porque os princípios e valores que adquiri, primeiro com eles, depois com minha família, foram fundamentais para chegar onde cheguei”, explica.

 

Pedro Kaká em visita ao Bunkyo, onde foi recepcionado pela presidente Harumi Goya e Osamu Matsuo. Foto: divulgação

 

Formado em Direito e Administração, o mais novo membro da “bancada nikkei” na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo tem conciliado suas atividades de empresário – é proprietário de terras na Bahia e comanda ainda uma imobiliária e uma rede de supermercados em São Paulo – com a atividade parlamentar. Na política, aliás, Kaká espera conquistar seu espaço “paulatinamente”. “Mas para isso primeiro é preciso fazer. Sou a favor de se fazer primeiro para depois esperar o retorno com paciência”, destaca.

 

O deputado com o presidente da AOKB, Eiki Shimabukuro e líderes. Foto: divulgação

 

Confira os principais trechos da entrevista que Pedro Kaká concedeu ao Jornal Nippak.

 

ALDO SHIGUTI

ALDO SHIGUTI

Redator-chefe
ashiguti@uol.com.br
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    Jornal Nippak: Já se adaptou à Casa?

    Pedro Kaká: É prematuro falar que sim, mas estou tentando absorver o máximo cada minuto que passo lá, seja conversando com os pares, seja fazendo a interlocução. Na atividade parlamentar você tem que saber fazer alianças – e boas alianças – em torno de um bom projeto. Primeiro prestigiei os políticos da comunidade – o que não significa demérito em relação aos outros – mas me apresentei inicialmente ao Hélio [Nishimoto, do PSDB] e ao Jooji [Hato, do PMDB] que me acolheram muito bem. Acredito que eles têm muito que me ensinar. Também venho conversando com todos eles porque durante o mês de dezembro, nos 14 dias que a Casa funcionou, visitei – não como deputado, mas como aquele que iria assumir – para fazer um reconhecimento do território. Até porque é a Assembleia mais importante da federação brasileira, cujo papel é fazer com que o governo do Estado, seu Executivo, consiga fazer uma boa gestão pública, que é o segundo maior orçamento do país, com quase R$ 207 bilhões para o ano de 2017. Diante de um quadro de recessão econômica, existe um temor da queda da arrecadação do ICMS, que é a principal fonte de financiamento da máquina pública e mesmo assim, já no ano de 2016, apresentou uma queda de quase 12%. Isso preocupa porque o nível de atividade está caindo. E preocupa mais porque para fazer frente às despesas, a tendência do Executivo é aumentar a arrecadação para cobrir a queda através da elevação de alíquotas. Então, alguns produtos da cesta básica que eram isentos estão taxados em 7% e em alguns casos, 14%. A minha preocupação é, sobretudo, na geração de renda e emprego porque este é um grande gargalho. Não que isto seja o principal problema, é que daí saem outros problemas. Por exemplo, o aumento da insegurança ocorre porque o cidadão ou está desempregado ou porque aqueles de mente mais fraca partem para uma atitude inconsequente. Creio que 2017 será um ano que vai exigir atenção e cuidado de todos que tem essa responsabilidade.

     

    J.N.: Lembro bem que, quando o entrevistei pela última vez, o senhor usou a expressão ‘Deus nos livre de 2017’. O que o faz pensar assim?

    P.K.: É porque na realidade, hoje, nós temos nas estatísticas oficiais algo em torno de 12 milhões de desempregados. A cada 23 segundos um brasileiro está perdendo emprego. Esse ritmo jé caiu um pouco. Ou seja, quase três brasileiros ficam desempregados por minuto. No ano passado, chegou a ser um pouco mais que isso. E, considerando, que em cada três desempregados no mundo um é brasileiro, então, Deus nos proteja. Coloque serenidade e paz e faça com que todos os brasileiros, em especial os paulistas, tenha um pouco mais de fraternidade porque, quando acaba o pão acaba a razão. A família, a empresa, a nação precisa saber trabalhar com esse lado da espiritualidade também.

     

    J.N.: Além de trabalhar o lado espiritual, o que a população pode esperar da classe política num momento como esse?

    P.K.: Vejas só. Não tenho nem um currículo para apresentar que daria credibilidade no que eu falo, porém, dentro da expectativa que eu tenho e dentro do conhecimento normal de qualquer pessoa, a classe política precisa fazer uma gestão melhor. Em épocas de crise precisamos saber economizar e otimizar. E para isso tem que reduzir despesas, por exemplo, aquelas que poderiam se enquadrar como supérfluo porque, na realidade aumentar a carga tributária só para cobrir despesas foi quase sempre uma tônica de todos os níveis do poder público, seja governo federal, estadual ou municipal.  Isso não resolve, é um tiro no pé ao longo do tempo. Por isso que a carga tributária brasileira passa de 50%. Alguns podem dizer: ‘mas na Inglaterra é quase 63%’. Mas lá o cidadão tem tudo enquanto que aqui não. Depois de pagar isso o sujeito vai ao hospital, no SUS, e tem que enfrentar o corredor.

     

    J.N.: Então, na sua opinião, o que poderia ser feito no Estado de São Paulo?

    P.K.: O Estado de São Paulo ainda é a locomotiva da economia brasileira. Ao contrário de alguns estados que estão agonizando eu acho que precisa fomentar mais a geração de emprego e renda. Junto com a minha equipe, que inclui amigos de 30 anos atrás, estamos tentando estudar melhor o orçamento e analisar como direcionar este trabalho. Ou seja, é possível, mesmo com o orçamento  aprovado, contribuir através de ideias, de visão e força política. Esse é o papel de um parlamentar. E como parlamentar meu papel é tentar entender bem e fazer com que essa interlocução junto ao executivo seja possível.

     

    Pedro Kaká: “A classe política precisa fazer uma gestão melhor”

     

    J.N.: No seu caso especificamente, o senhor vem de uma suplência – Pedro Kaká assumiu a vaga do titular, Igor Soares, eleito prefeito de Itapevi. Isso cria uma dificuldade mais?

    P.K.: Não vou dizer que é uma dificuldade a mais, diria que, como sou um inópito dentro da administração pública e como parlamentar, então, evidente que tive que girar um pouco o botão para ter mais foco não como um simples cidadão que era, mas como membro deste quadro. Então preciso acelerar esse entendimento. O que tenho atualmente considero que ainda não é suficiente, por isso espero contar com uma equipe preparada para estar tendo essa cognição.

     

    J.N.: E dois anos são suficientes? O senhor já pensa numa eventual reeleição?

    P.K.: Por incrível que pareça, a última coisa que me preocupa agora é a reeleição porque ela é uma consequência. Quero saber se eu, nesses 23 meses que me restam, vou poder fazer o meu melhor dentro desse tempo. Isso é uma análise, dentro da minha régua, o que está ao meu alcance e o que vou poder fazer. É lógico que devo ter colegas dentro da Assembleia que tem um traquejo maior, um reconhecimento maior e, portanto, pode ser que ele tenha mais facilidade de implementar as coisas. Veja bem, estou colocando aqui apenas no campo de hipóteses. Mas não cabe a mim ficar enxergando o que os outros fizeram ou deixaram de fazer. Minha atitude sempre foi a de tentar fazer o meu melhor.

     

    J.N.: O senhor disse que é um empreendedor. Qual é exatamente a sua atividade?

    P.K.: Como todos os imigrantes japoneses que desembaracaram no porto de Santos, em 1908, no navio Kasato Maru, meu pai também não foge à regra. Depois de passar pelo Estado de São Paulo, precisamente naquela região da Aliança, Mirandópolis, meu pai foi para o norte do Paraná onde, com algumas economias, conseguiu comprar uma pequena propriedade, mas deu condições para criar toda a família. Aprendi esse amor pela agricultura e quando meu pai teve que se desfazer daquela propriedade para garantir a educação de seus nove filhos, para mim, ainda criança, com 12 para 13 anos de idade, foi uma dor no coração perder o que naquela época era meu canto especial. E esse amor pela agricultura me remeteu ao retorno, em 1983, e desde então tenho essa atividade agrícola no Estado da Bahia, onde atualmente planto grãos. Durante o período de 70 até 83 me graduei em Direito e fiz Administração para poder prestar serviços e escolhi o setor imobiliário. Até hoje ainda tenho atividade na área imobiliária. Tenho também atividades no setor de varejo alimentar e hoje sou responsável por uma pequena rede de supermercados que abrange mais de 1300 pessoas. Respondendo a sua pergunta: o que que tenho? É um gênio empreendedor? É um gênio em gestão?  Ou aquilo que meus pais me ensinaram: seja firme e tenaz. Não comece uma coisa e largue no teceiro dia. Depois de dez anos você mostra se foi capaz ou não. E já se passaram mais de dez anos. Não me considero empresário, acho que sou um pouco mais que um empresário – não que isso seja um diferencial. Acredito nas causas quase impossíveis.

     

    J.N.:Então a atual situação do país deve ser um prato cheio para o senhor…

    P.K.: A política brasileira, dentro deste lamaçal que todos assistem,  precisa se renovar. Antes da otimização, tenho certeza que os princípios éticos e morais e da legalidade precisam ser eficientes e competentes. A dedicação conduz a isso. E coragem. Todavia, uma andorinha só não faz verão e não pretendo ser Dom Quixote tentando derrubar ventos e moinhos inexistentes e não conseguir nada. O pragmatismo é fundamental. Nós vivemos num mar de lama mas não justifica você sujar sua alma. É um princípio budista. A flor de lótus, que é um simbolo budista, é branca cujas raízes estão na lama. Muitas vezes você pisa em coisas ruins mas tem que ter a capacidade de preservar a coisa mais bonita que é a sua alma e no caso da flor de lótus, a flor branca, que demonstra pureza. É um simbologia para você ficar de alerta porque desde que você queira, você tem tudo para alcançar o que quer. Você não pode simplesmente se omitir, por isso sempre rendo minhas homenagens aos meus pais porque os princípios e valores que adquiri, primeiro com eles, depois com minha família, foram fundamentais para chegar onde cheguei. O meu mérito é a somatória daquilo que agreguei com várias pessoas.

     

    J.N.: Por falar nisso, qual a relação que o senhor espera ter coma comunidade nipo-brasileira?

    P.K.: Minha base eleitoral foi a grande sociedade. Até porque o inópito principante não vai querer desbancar os políticos da comunidade. Sempre frequentei os eventos da comunidade por respeito, não por achar que tivesse deles o voto de confiança através do sufrágio no dia da eleição. Ia por uma questão de respeito. Respeito à tradição, respeito à cultura e respeito sobretudo a essa trajetória de todos os imigrantes, que construíram uma história muito bonita para a cultura brasileira. E disso eu também me aproveito porque graças a Deus, e felizmente por conta deste trabalho e dedicação dos pioneiros, que sofreram, foi possível construir uma história de vida que qualquer um fora da colônia tira o chapéu. Então, qual minha relação daqui pra frente?  Ajudar os políticos da comunidade que já estão fazendo. Não pretendo ser estrelista, muito pelo contrário, quero acompanhá-los e dentro daquilo que estiver o meu alcance, dar minha contribuição sem nenhuma cerimônia para paulatinamente ganhar meu espaço. Mas para isso primeiro é preciso fazer. Sou a favor de se fazer primeiro para depois esperar o retorno com paciência.

     

    J.N.: O senhor já esteve no Japão?

    P.K.: Já estive cinco vezes. Minha primeira experiência foi em 1996 através de um programa de intercâmbio do Tottori Kenjinkai chamado ‘líder médio’ que contemplou 16 ou 17 pessoas. Meu pai é da província de Tottori e como advogado acompanhei todo o trâmite para a aquisição da sede. Das outras fui por conta própria para conhecer melhor. Da última vez que estive lá foi um desastre. Como santista vi o meu time tomar um chocolate do Barcelona e depois disso fiquei com trauma (risos).

     

    J.N.: No entanto o senhor disse que seu contato com a comunidade tinha sido pequeno…

    P.K.: No Paraná, os kaikans eram extremamente ativos. Lá eu praticava beisebol, estudava nihongako. Metade do meu tempo era dedicada a minha formação acadêmica normal e a outra metade era voltada para as atividades da comunidade. Quando vim para São Paulo e fui morar em São Mateus, na Zona Leste, as oportunidades diminuíram. Então digo que meu contato com a comunidade em São Paulo foi pequeno comparado aos demais pares da política que já tinham um trânsito bastante fluente. Por isso disse que meu contato com a comunidade nikkei paulistana foi muito pouco.

     

    J.N.: O senhor também esteve recentemente nos Estados Unidos para assistir a posse do presidente Donald Trump. Na sua opinião, isso muda alguma coisa para o Brasil?

    P.K.: Existe sim um cenário que vai afetar. Até porque os Estados Unidos da América não são um país que se deva deixar de lado, faz parte de um cenário geopolítico econômico onde exerce um papel extremamente importante. E se algumas medidas que o Donald tomar, de verdade, pode ter consequências. Algumas positivas, outras negativas. A positiva, por exemplo, no setor do agronegócio pode ser que a China passe a comprar mais da América Latina, em especial do Brasil. Mas tem outras coisas que podem prejudicar. Enfim, a instabilidade econômica não é bom para ninguém nesse planeta. Esse é um dado que preocupa.

     

     

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