ENTREVISTA: HARUMI GOYA: ‘A comunidade nikkei sempre colabora quando é solicitada’

Primeira mulher a presidir o Bunkyo (Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social) – considerada a principal entidade representativa da comunidade nipo-brasileira – Harumi Goya está mais à vontade no cargo hoje do que quando assumiu, em abril do ano passado. Passados oito meses de sua posse, ela conta que não é mais tão dependente dos funcionários. Admite, no entanto, que ainda não encontrou seu “ponto” e que também “não pode usar chicote onde todos são voluntários”, como fazia na Secretaria da Fazenda. No final de dezembro, Goya recebeu o Jornal Nippak e fez um balanço positivo de 2015, um ano bastante “agitado” para o Bunkyo com as comemorações dos 120 Anos do Tratado de Amizade, Comércio e Navegação Brasil-Japão, do Centenário do Consulado Geral do Japão em São Paulo e dos 60 anos de fundação da entidade.

 

"Este ano espero ter mais tempo para que possa me dedicar a mais eventos do Bunkyo" (Foto: Aldo Shiguti)

“Este ano espero ter mais tempo para que possa me dedicar a mais eventos do Bunkyo” (Foto: Aldo Shiguti)

 

Confira os principais trechos da entrevista:

 

ALDO SHIGUTI

ALDO SHIGUTI

Redator-chefe
ashiguti@uol.com.br
ALDO SHIGUTI

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    JORNAL NIPPAK: Qual o balanço que a sra. faz de 2015?

    Harumi Goya: Foi um ano de intensa atividade desde que assumi, em abril de 2015. Como presidente do Bunkyo, tive a honra de receber várias visitas importantes. O grande marco foi a recepção às Suas Altezas Imperiais, já no final do ano, quando foram recebidos no Pavilhão Japonês e aqui no Bunkyo. Nunca imaginei, nem em sonho, que um dia iria receber visitas tão importantes sendo a líder da comunidade nipo-brasileira e fazendo as honras da casa. Na minha opinião, esse foi o grande marco. Em novembro, tivemos também a vinda do cantor Itsuki Hiroshi, que marcou muito a comunidade nikkei, especialmente aqueles que gostam de karaokê. O show dele no Anhembi foi muito emocionante. Achei que ele foi muito sincero ao demonstrar sua emoção, tanto que ele deixou escapar: ‘que bom que eu vim e eu quero voltar’, porque antes ele comentava que talvez fosse sua última visita ao Brasil, por causa da idade… Tanto que trouxe a família. Mas naquele calor do show reconsiderou sua decisão.

    Fora isso tivemos a vinda da Banda Begin para participar da 13ª edição do Okinawa Festival. O evento também teve a ver com as comemorações dos 120 Anos do Tratado de Amizade, Comércio e Navegação Brasil-Japão e tivemos também um grupo de dança de Okinawa, que veio com 12 senseis para uma apresentação no Bunkyo. Apesar de ter sido numa data em que estava ocorrendo muitos eventos, o Grande Auditório ficou completamente lotado e o show foi maravilhoso, com uma programação bem profissional.

    Sem contar, também o Hanabi – Festival de Fogos de Artifícios – realizado no Autódromo de Interlagos pela Embaixada do Japão no Brasil e Consulado Geral do Japão. A vinda e a participação da designer Junko Koshino foi muito marcante. Por ser presidente do Bunkyo é que tive oportunidade de ter contato com todo esse pessoal.

    Então, 2015 foi um ano bastante intenso em relação às visitas e às comemorações dos 120 Anos de Amizade. Fora isso tivemos também a cerimônia comemorativa dos 120 Anos de Amizade na Câmara Municipal de São Paulo e a homenagem do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Japão às 57 personalidades que contribuíram para intensificar o intercâmbio entre os dois países. Dentre esses homenageados, a grande maioria continua prestando serviços para a comunidade nikkei como voluntários de diversas associações, inclusive para o Bunkyo.

     

     

    Em 2015, forma muitos os eventos, como os 60 anos do Bunkyo (Foto: Aldo Shiguti)

    Em 2015, forma muitos os eventos, como os 60 anos do Bunkyo (Foto: Aldo Shiguti)

     

     

    J.N.: Ficou assustada com a ocorrência de tantos eventos?

    H.G.: Cheguei até perguntar na Secretaria do Bunkyo se foi tão corrido por serem datas comemorativas mas fui informada que não, que é o normal do Bunkyo. Não imaginei que fosse assim. Espero que em 2016 tenha menos eventos para que eu possa mergulhar mais nos eventos da casa.

     

     

    J.N.: De alguma forma, essas comemorações deixaram alguns projetos para segundo plano, como a criação da figura de uma atendente voluntária na Secretaria e o projeto Espaço Cultural onde antes funcionava o Enkyo….

    H.G.: Por que que ficou para trás? Porque nós tivemos que sair para captar recursos. Para a implantação do projeto do Espaço Cultural, por exemplo, faltam 50% dos recursos. Então temos que fazer nosso planejamento para captar esses recursos. Temos que captar recursos também para adequação para o certificado do Corpo de Bombeiros e do Contru. Sou eu que tenho que fazer a programação, fazer as visitas, fazer os pedidos…

     

     

    Harumi Goya e sua equipe de trabalho no dia da posse (Foto: Aldo Shiguti)

    Harumi Goya e sua equipe de trabalho no dia da posse (Foto: Aldo Shiguti)

     

    J.N.: E em relação a captação de novos associados?

    H.G.: Também está devagar.

     

     

    J.N.: Desde que a sra. assumiu houve adesão de quantos novos associados?

    H.G.: Pelo relatório apresentado, senti que não é a realidade. Temos muito mais do que foi apresentado. Mas sinto também que não houve um ganho significativo. Sinto que as pessoas não estão empenhadas como deveriam. Aí também tenho que atuar. Atuar cobrando, fazendo estatística. Eu mesma sinto que deixei a desejar nesse sentido. Então não consigo cobrar dos outros porque também não fiz a minha parte.

     

     

    J.N.: Mas a sra poderia falar em números?

    H.G.: Não consigo falar um número de tão insignificante que foi o relato apresentado na última reunião. O número que estava no início do ano era o mesmo que estava no final do ano. Nesse meio, é claro que saíram alguns e entraram outros, mas a sensação que me deu é que o balanço não mudou.

     

     

    J.N.: Com a diminuição de eventos, a sua administração também vai ficar mais exposta. A sra está preparada para eventuais cobranças?

    H.G.: Que tipo de cobranças?

     

     

    "Administrar o Bunkyo é um desafio muito maior" (Foto: Aldo Shiguti)

    “Administrar o Bunkyo é um desafio muito maior” (Foto: Aldo Shiguti)

     

    J.N.: Em relação aos próprios problemas do Bunkyo…

    H.G.: Sim, sim

     

     

    J.N.: Hoje a sra se sente mais à vontade no cargo do que quando assumiu?

    H.G.: Sim, mas os desafios continuam grandes. Sinto que nós tivemos avanços em etapas que não consigo declarar publicamente. Um deles é a negociação dos processos do INSS. Nós avançamos bem mas ainda não finalizamos a negociação. Não posso divulgar o que foi feito até agora, mas o avanço foi considerável.

     

     

    J.N.: Nesse período a sra acha que conseguiu impor seu ritmo de trabalho ou o excesso de atividades é que ditou esse ritmo?

    H.G.: Não foi bem assim. Fui atendendo os eventos que tive que participar e ao mesmo tempo as coisas aqui dentro foram mudando. Porque a forma de agir e de atuar de cada um é diferente.

     

     

    J.N.: Poderíamos dizer que existe um estilo Harumi Goya de administrar?

    H.G.: Aqui no Bunkyo, acho que sim. Sou menos dependente dos funcionários. O pessoal continua me ajudando, como nos discursos, mas não exijo tanto deles, procuro ser mais independente. Mas estilo Harumi de administrar eu tinha na Secretaria da Fazenda. Tanto é que encontrei com um ex-funcionário meu na Secretaria da Fazenda e ele me perguntou se eu havia aposentado meu chicote (risos). Respondi que não posso usar chicote onde todos são voluntários. Então é muito diferente. O que me ajudou?  Não sinto diferença em coordenar uma reunião onde a predominância é masculina porque para mim é normal. Na Secretaria da Fazenda o mundo à minha volta também era machista e olha que eu trabalhava na área de TI. Quantas reuniões só de homens não tive que coordenar como diretora de TI? . Então isso eu trouxe comigo, não acho estranho. Para mim não é um ambiente estranho e nem me sinto diminuída. Converso de igual para igual, mas a forma de atuar é diferente. Uma coisa é você gerenciar um lugar onde você tira seu sustento, seu ganha pão. Outra é você gerenciar um lugar onde todos são voluntários e onde todos estão dando o melhor de cada um. Aqui o desafio é bem maior. Aqui ainda não encontrei a receita, não encontrei meu ponto. Tem vários pontos que eu gostaria que andasse mas que caminham mais lentamente.

     

     

    J.N.: Por exemplo…

    H.G.: Ah, não tenho ainda um banco de dados de associados e nem posso tirar meu relatório do jeito e da forma que eu quero. E também quero um relatório para saber onde posso cortar. Ainda estou tateando isso. Não posso dizer isso claramente, onde posso reduzir os custos.

     

     

    J.N.: Por falar em cortes, em 2015 o Brasil enfrentou uma de suas piores crises e que deve se estender também nos próximos anos. De qualquer forma o Bunkyo enfrentou essa crise e como está se preparando para os próximos anos?

    H.G.: Quando assumi, o Bunkyo já não estava bem de finanças. Hoje, as receitas dos eventos estão melhor do que a gente planejou. Tanto é que chegamos no final de 2015 equilibrando as contas para que este ano continue assim. Mas acredito na nossa comunidade, quando a gente solicitar apoio, for lá pedir, a comunidade apoia. Vi pelo Jantar das 4 Entidades, do Jantar Beneficente do Coral Feminino do Bunkyo e do Jantar Beneficente do Itsuki Hiroshi. Foram eventos em que a comunidade compareceu e ajudou. Então, se a mostrarmos pra todo mundo que estamos fazendo um trabalho sério, que aqui tem um alicerce, a comunidade colabora. Não perco o sono por causa disso.

     

     

    J.N.: Quando a sra diz que a finança não estava bem é possível traduzir isso em número?

    H.G.: O presidente Kita (Kihatiro, antecessor de Harumi Goya no cargo) dizia assim: ‘Nós temos dinheiro até outubro para fazer frente às despesas, depois disso só Deus sabe’. Depois de dois meses a Tesouraria apresentou um relatório que dava para esticar um pouco. Não era ssim uma causa desesperadora como imaginava. Isso por causa dos eventos realizados que equilibraram as finanças.

     

     

    J.N.: Quanto aos outros projetos, como a ampliação do número de banheiros femininos que a sra pretendia…

    H.G.: Isso vai levar um prazo mais longo. Mas nossa Secretaria já ganhou um climatizador e tiramos aquelas cortinas encardidas que estavam caindo. A gente tirou para criar um ambiente mais agradável. Você não imagina o calor que faz aqui quando esquenta. Como não temos dinheiro sobrando, temos que criar um ambiente melhor para que o pessoal trabalhar. Se a gente não fizer frente a essas despesas e tentar equacionar, nunca vai ter nada.

     

     

    J.N.: E em relação a locação dos espaços?

    H.G.: Falta divulgar mais na mídia. Essa parte da informática está muito lenta, mas já está andando.

     

     

    J.N.: O que pode ser feito para melhorar?

    H.G.: Dar mais visibilidade do que a gente está alugando. Falta colocar fotografias, o que o espaço oferece. Propaganda não é a alma dos negócio?  Então, a gente tem que divulgar que está alugando esses espaços. Chamar as empresas de eventos para fazer parcerias.

     

     

    J.N.: Hoje essas locações respondem por quanto das receitas do Bunkyo?

    H.G.: Diria que é bastante. Antes respondia por 70%, mas ficou um tempo fechado para as reformas. Este ano quero aumentar e para isso precisa divulgação.

     

     

    J.N.: Quais outrras prioridades para este ano?

    H.G.: Quero equacionar essa conta do Bunkyo, deixar equilibrada e chegar no final de 2016 com um valor razoável. E concluir a etapa do Corpo de Bombeiros e do Contru. Estamos na fase de captação, conversando pessoa por pessoa. Tivemos a etapa do associado master e uma fase do associado benemérito. É uma continuidade, são obras mais pesadas e também mais caras pois temos que conseguir o certifciado do Corpo de Bombeiros e sem esse certificado não tem o carimbo que aqui é seguro e corremos o risco de o prédio ser interditado. E tem também a parte da acessiblidade para que os portadores de necessidades especiais possam circular pelas dependências do Bunkyo.

     

     

    J.N.: Que mensagem a sra gostaria de deixar para os leitores do Nippak neste início de ano?

    H.G.: Todo mundo fala das dificuldades que teremos em 2016, mas acho que temos que enxergar uma luz lá na frente e perseguir essa luz. Acho que quando muita gente pensa junto e pensa em coisa boa, essa coisa acaba acotecendo. As coisas vão se encaixando. Não podemos ficar olhando só o lado problemático do Brasil. Vamos enxergar esse lado sério, de gente que produz, que faz acontecer.  Acredito muito nisso.

     

     

     

     

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