ENTREVISTA: HARUMI GOYA: ‘O horizonte para este ano ainda está nublado’

Pouco mais de um ano e meio após entrar para a história do Bunkyo (Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social) como a primeira mulher a assumir a presidência da entidade, Harumi Goya começa 2017 com dois importantes desafios. O primeiro é decidir se será ou não candidata a um eventual segundo mandato – a eleição deve ocorrer em abril deste ano. Nesta entrevista exclusiva ao Jornal Nippak, a presidente não diz “nem sim, nem não”. “Na realidade, estamos iniciando conversas com nossos conselheiros e membros da diretoria para tratar sobre esse tema e encontrar a melhor solução para todos. Portanto, não será possível adiantar uma resposta definitiva”, desconversa Harumi. O segundo desafio será definir a Comissão que cuidará dos preparativos para as comemorações dos 110 Anos da Imigração Japonesa no Brasil.

 

Foto: Divulgação/Bunkyo

 

Nascida em Okinawa, no Japão, Harumi Goya iniciou sua trajetória no Bunkyo em 2003, quando foi convidada a participar da diretoria da entidade pelo então presidente, professor Kokei Uehara, como 2ª tesoureira, cargo que ocupou por seis anos. Depois, já na gestão de Kihatiro Kita, foi 4ª vice-presidente e, finalmente, a 1ª vice-presidente. Harumi foi também a primeira mulher a assumir a presidência da ABJICA – Associação dos Bolsistas da Jica (Japan International Cooperation Agency), e também acumula experiência como  diretora da Associação Okinawa do Brasil.

 

Harumi Goya discursa na cerimônia ao embaixador Satoru Satoh. Foto: Divulgação/Bunkyo

 

Confira os principais trechos da entrevista concedida ao Jornal Nippak:

 

J.N.: Qual o balanço que a senhora faz desde que assumiu a presidência do Bunkyo, em abril de 2015?

H.G.: Sem dúvida, faço um balanço positivo. 2016 foi um ano cheio de problemas em todos os setores e, portanto, fizemos um esforço amplo envolvendo toda a diretoria e os voluntários responsáveis pelas 34 comissões para garantir o equilíbrio das contas e cumprir o planejamento anual. Conseguimos atender a esses dois pontos básicos que, sem dúvida, nos deixaram aliviados nesses tempos de crise.

 

J.N.: Na sua opinião, quais foram as principais conquistas?

H.G.: A mais importante é a receptividade e o respeito com que fui recebida em todas as entidades, contrariando alguma preocupação pelo fato de, pela primeira vez, uma mulher ocupar a presidência do Bunkyo em seus 60 anos de existência.

Sempre fui tratada em pé de igualdade em relação aos outros representantes. Em minha recente viagem ao Japão, fui convidada para proferir três palestras e responder aos questionamentos da plateia também em japonês. Considero isso uma significativa conquista, pois reflete positivamente na imagem da entidade.

 

“Sempre fui tratada em pé de igualdade aos demais”’, diz Harumi. Foto: Jiro Mochizuki

 

J.N.: O que gostaria de ter feito e não foi possível?

H.G.: Nossa, a lista é enorme. Gostaria de ter visitado um número maior de associações nikkeis do interior, de ter implantado o processo de auto-sustentabilidade do Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil e do Centro Esportivo Kokushikan Daigaku. Gostaria de ter implantada a centralização do sistema de informática. Gostaria de ter terminado as obras do Espaço Cultural Bunkyo, de ter feito a reforma dos banheiros, de ter em ordem o AVCB (Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros), de ter terminado todas as obras de acessibilidade do prédio, entre outras. Posso garantir que essas providências estão caminhando, mas gostaria que já estivessem todas prontas.

 

J.N.: No primeiro ano de mandato, uma de suas reclamações foi com a quantidade de eventos externos que teve de participar representando o Bunkyo, o que sobrava pouco tempo para poder se dedicar às questões internas. Como conseguiu lidar com esse problema?

H.G.: Sinceramente, tenho a sensação de que o número de eventos externos não para de aumentar! Na medida do possível, em conjunto com os membros da diretoria, tentamos atender aos convites, pois consideramos que, além de demonstrar vigor na atuação das entidades, também revela a especial deferência ao Bunkyo. Assim, apesar de não ter reduzido esses compromissos externos, montamos uma equipe de gerenciamento administrativo que tem colhido bons resultados e tem tentado melhorar o nosso funcionamento interno.

 

J.N.: Quando a senhora assumiu, disse que a parte de comunicação e informática receberiam uma atenção especial. O que foi feito nessas áreas?

H.G.: Alcançamos poucos resultados concretos neste setor, mas demos andamento aos projetos para atualizar principalmente o sistema de banco de dados ligado ao controle de associados. Na comunicação, acredito que nos próximos meses teremos um novo site da entidade, montado em nova plataforma.

 

J.N.: E quanto ao projeto de estimular a participação de voluntária(o)s na entidade?

H.G.: Ainda não foi possível montar um projeto especialmente voltado aos voluntários, bem como uma campanha para aumentar a presença deles em nossa entidade. Mas, o fato é que, em conjunto com os membros da diretoria, temos buscado estimular a adesão de novos voluntários.

 

J.N.: Também estava em seus planos a instalação de mais banheiros feminino. Isso aconteceu?

H.G.: Esse projeto ainda se encontra na pauta e, na realidade, em matéria das instalações do edifício, temos investido os recursos disponíveis para as obras visando atender às normas de segurança estabelecida pelo Corpo de Bombeiros.

 

A presidente durante o Bonenkai da entidade realizado em dezembro do ano passado. Foto: Jiro Mochizuki

 

J.N.: Também tem o projeto do espaço onde antes funcionava o Enkyo…

H.G.: Nossa luta para completar as obras do Espaço Cultural Bunkyo continua em pleno andamento. Já foi realizado grande parte do trabalho, mas ainda faltam obras complementares. Por exemplo, o projeto prevê a montagem de salas para aulas de culinária, para miniexposição do Museu, salas dedicadas a várias modalidades de cultura japonesa, acesso direto pela Rua Galvão Bueno. Continuamos ainda com o nosso esforço de captação de recursos e inclusive temos recebido apoio de vários grupos que têm tomado a iniciativa de promover evento especial, principalmente de shows artísticos.

Como exemplo, podemos citar o espetáculo da cantora Márcia, em 23 de julho, o show Saá Hajimeyou coordenado pela cantora Mariko Nakahira, em 11 de setembro, a iniciativa do Coral Feminino Nipo-Brasileiro de São Paulo, com o 17º Concerto de Natal, no último dia 10 de dezembro.

 

J.N.: Como a senhora lidou com outras questões menos visíveis ao público, como a negociação da dívida com o INSS?

H.G.: Esse é um assunto muito complexo e gostaria de tomar como referência o relatório da Comissão Jurídica, que acompanha esse assunto com extremo cuidado e atenção. E aqui devo admitir que o fato de termos negociado com o grande escritório de advocacia que cuidava do nosso processo de INSS e transferido a causa para a Comissão Jurídica da entidade me fez sentir mais confortável. A minha sensação é de que o processo está sendo cuidado por profissionais – voluntários – que estão efetivamente comprometidos com seu controle e bom andamento.

Quanto aos processos de execução fiscal relacionados ao INSS, eles estão sendo devidamente questionados por meio dos embargos à execução, sendo dois deles em trâmite perante o Tribunal Regional Federal da 3ª Região (que abrange os Estados de São Paulo e Mato Grosso do Sul).

Temos apresentado a ação declaratória de imunidade, cujo julgamento foi desfavorável para o Bunkyo perante o Tribunal Regional Federal da 3ª Região, no entanto, foi interposto recurso para o Supremo Tribunal Federal. Estamos esperançosos num bom desfecho a nosso favor, com base na jurisprudência desse próprio Tribunal.

Aproveitando a sua pergunta, também queria esclarecer sobre os processos de execução ajuizados pela Prefeitura de São Paulo, para cobrança do IPTU sobre todo o prédio Bunkyo. Eles estão sendo extintos, por cancelamento administrativo dos débitos respectivos, já que foi confirmada a imunidade tributária da entidade.

 

J.N.: E quanto ao projeto de captação de novos associados, como está?

H.G.: Temos atuado em conjunto com os membros da diretoria em busca de novos sócios para a nossa entidade. É um grande desafio para todos nós, pois significa garantir longevidade para o Bunkyo.

 

J.N.: Seu antecessor, Kihatiro Kita, disse que deixou uma reserva de “mais ou menos” R$ 480 mil e cerca de R$ 50 mil para serem usados nas comemorações dos 60 anos da entidade. Situação que a senhora garantiu não ser de tirar o sono. Como se encontra a saúde financeira do Bunkyo? Quem assumir a entidade hoje perderia o sono?

H.G.: Posso garantir que sim. Não temos reserva financeira e para cobrir as despesas temos de lutar mês a mês. Os nossos gastos com a manutenção giram em torno de R$ 300 mil mensais e, assim, a cada mês, temos de conseguir esse valor por meio de locação dos espaços, realização de eventos e contribuição/anuidade dos associados. O desafio não é pequeno, capaz de tirar o sono de qualquer um.

Temos uma comissão responsável que tem conseguido manter o controle das finanças, mas podemos dizer que 2016 foi um ano de captação de poucos recursos financeiros e, portanto, tivermos de usá-los com a máxima parcimônia tentando suprimir qualquer gasto que não fosse prioritário. Assim, algumas obras acabaram sendo relegadas ao segundo plano esperando por novos recursos.

 

J.N.: Por falar em sucessor, este ano haverá eleição novamente para a presidência e a pergunta não quer calar: a senhora é ou não candidata à reeleição?

H.G.: Nem sim, nem não. Na realidade, estamos iniciando conversas com nossos conselheiros e membros da diretoria para tratar sobre esse tema e encontrar a melhor solução para todos. Portanto, não será possível adiantar uma resposta definitiva.

 

J.N.: Inicialmente a senhora disse que uma de suas missões era preparar um(a) sucessor(a)…

H.G.: Sim, essa missão continua valendo, mas, neste momento, sinto que o objetivo não foi alcançado. Assim, acho que seria irresponsabilidade minha deixar essa situação sem solução e será um dos itens que tentarei conversar com os conselheiros e diretores.

 

Harumi Goya durante visita ao Japão. Foto: divulgação/Bunkyo

 

 

J.N.: Que mensagem gostaria de deixar para os leitores do Jornal Nippak

H.G.: Inicialmente, gostaria de agradecer a todos pelo apoio e palavras de incentivo.

O horizonte para este ano ainda está nublado, mas pretendemos trilhar pelo caminho da luz e, nesse sentido, confio na força da diretoria com o apoio da comunidade nikkei e da sociedade brasileira.

Em 2016 tivemos uma exemplar demonstração de força e união de diferentes grupos representada pelo show Saá Hajimeyou, liderado pela cantora Mariko Nakahira, em prol das obras do Espaço Cultural Bunkyo. Gostaria que outras iniciativas dessa mesma natureza ocorressem resultando não somente no apoio financeiro para o término das obras, mas, principalmente, por seu incrível poder de criar indestrutíveis laços de amizade e comprometimento com a valorização da cultura.

Em 2018 completam-se os 110 anos de imigração japonesa no Brasil e gostaria que essa comemoração fosse coroada por eventos marcantes resultantes da força dessa união.

Gostaria de citar que, no final de ano passado, ao proferir palestra no 57º Kaigai Nikkeijin Taikai (Convenção dos Nikkeis e Japoneses Residentes no Exterior), destaquei a expectativa de que os brasileiros recebessem do Japão o mesmo tratamento acolhedor que o Brasil ofereceu aos imigrantes japoneses. Não só para superar os problemas de adaptação e de integração à sociedade japonesa, como também que seus filhos sejam acolhidos como legítimos cidadãos. Destaquei também a solicitação das entidades para que o visto de trabalho no Japão seja estendido para a 4ª geração de nipo-brasileiros.

Neste momento, estamos providenciando o envio de solicitação à direção da JR Group (Japan Railway) para que reconsidere a proibição aos japoneses residentes permanentes no exterior de utilizar o Japan Rail Pass (que dá direito a viagens no trem-bala por determinado período mediante pagamento de taxa fixa), a partir do próximo mês de março.

Esperamos que neste ano possamos alcançar sucesso nessas reivindicações que, acreditamos, beneficiam toda a comunidade nikkei.

 

ALDO SHIGUTI

ALDO SHIGUTI

Redator-chefe
ashiguti@uol.com.br
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